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CULTURA MUÇULMANA

A renascença islâmica e o ‘choque de civilizações’

Enquanto o mundo assiste ao atrito entre o Ocidente e o mundo muçulmano, novo livro mostra como o Islã absorveu aspectos importantes da cultura ocidental

A renascença islâmica e o ‘choque de civilizações’
O autor sente uma empatia pelo ressentimento dos muçulmanos ao serem usados como peões geopolíticos (Foto: Max Pixel)

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Poucos temas são discutidos hoje com tanta polarização como a essência do Islã. Os Estados Unidos elegeram um presidente que enfatiza o perigo do “terrorismo islâmico”. Seu antecessor recusou-se a associar o islamismo à violência e disse que aqueles que o fizeram, inclusive terroristas, estavam interpretando mal a fé.

No entanto, nos debates intelectuais ocidentais alguns argumentam que o Islã embrutece seus seguidores, seja por causa de seus ensinamentos básicos, ou porque no século XI a teologia islâmica ignorou a ênfase na razão humana. Outros replicam indignados que os problemas do mundo islâmico são culpa de seus inimigos ocidentais, dos cruzados aos colonos europeus, que feriram a psique coletiva muçulmana.

Ainda assim, por ter tido como foco de estudos durante vários anos o Irã e a Turquia moderna, Bellaigue tem embasamento para analisar, pelo menos, uma vertente do debate sobre o Islã: a reação à influência europeia ao longo do século XIX na política e nos centros culturais do mundo muçulmano, após a invasão de Napoleão ao Egito em 1798.Em Islamic Enlightement: The Modern Struggle Between Faith and Reason, Christopher de Bellaigue, um jornalista e historiador britânico especializado no Oriente Médio, aborda o último argumento, mas com uma ótica singular. Ele descreve como o encontro inicial do Islã com a modernidade, há dois séculos, teve consequências positivas e como isso é uma fonte de esperança para os problemas atuais. Os céticos dirão que o título do livro, “o Iluminismo islâmico”, é ingênuo ou contraditório.

O autor relata como no Cairo, Istambul e Teerã, figuras proeminentes adotaram aspectos do pensamento e da ciência ocidentais, com discernimento e entusiasmo sem abandonar sua fé no islamismo. Bellaigue mostra que no mundo muçulmano, assim como no Ocidente, os meios de transporte e de comunicação eficazes facilitaram a troca de ideias entre pessoas inteligentes, inclusive mulheres. Seus personagens são escritores, médicos, generais e sultões.

O autor sente uma empatia pelo ressentimento dos muçulmanos ao serem usados como peões geopolíticos e em relação às fronteiras arbitrárias que foram delimitadas pelos europeus. Essa compreensão lhe permitiu descrever com perspicácia os movimentos populares que, sucessivamente, abalaram o cerne do Islã, como o nacionalismo turco, a Irmandade Muçulmana no Egito e a revolta iraniana de 1979.

Bellaigue reconhece que os dois últimos movimentos constituíram uma forma de oposição ao pensamento científico e racional, que restabeleceu a teocracia no Oriente Médio. Mas insiste que até mesmo o Irã dos mulás tem algumas características modernizadoras, como o fato de terem educado um número sem precedentes de meninas.

Fontes:
The Economist-A counter-argument to the “clash of civilisations”

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2 Opiniões

  1. Ezequiel disse:

    Porém, a difusão do islamismo wahabbista da Arábia Saudita em várias partes do mundo está engolindo os restantes de moderados que há.

  2. Markut disse:

    Talvez o moderno modal energético, pondo o petróleo em confronto com alternativas não poluentes e tendendo a baratear o seu custo, como a solar e a eólica, principalmente,consiga desviar o eixo desta guerra geopolítica,em que a Europa colonizadora, realmente, pintou e bordou na África e Oriente Médio.

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