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DITADURA NA ARGENTINA

Retórica negacionista está em ascensão na Argentina

Presidente Mauricio Macri duvida de número de assassinatos na época da ditadura

Retórica negacionista está em ascensão na Argentina
A estimativa de 30 mil mortos nunca tinha sido questionada antes por um presidente em exercício (Foto: Wikimedia)

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A Argentina é uma das únicas nações que sofreu extermínio em massa durante a ditadura que conseguiu colocar vários dos ex-torturadores atrás das grades. O país também entendeu que este foi um período de genocídio sem nenhuma justificativa moral. No entanto, o atual presidente Mauricio Macri reacendeu a retórica negacionista do genocídio após uma entrevista para o Buzzfeed.

O ditador argentino Jorge Videla foi processado dois anos depois da volta do regime democrático e desde então, mais de mil ex-oficiais foram sentenciados. O Chile teve um número parecido de condenações, mas o ditador Augusto Pinochet morreu sem nunca ter enfrentado sequer um dia de julgamento. Já no Brasil e no Uruguai, as anistias continuam, o que estabeleceu um passe livre aos torturadores para assegurar uma suave transição democrática.

O consenso sobre a gravidade dos crimes da era ditatorial argentina, entretanto, foi abalado por uma declaração recente do presidente Macri. No início deste mês, ele pareceu duvidar que 30 mil pessoas foram mortas na ditadura. Esta estimativa é historicamente aceita. Quando o Buzzfeed perguntou ao presidente quantas pessoas foram assassinadas, ele respondeu: “Não tenho a mínima ideia. Este é um debate que não vou entrar, se foram 9 mil ou 30 mil.”

Alguns dos simpatizantes do antigo regime ditatorial já tinham levantado esta dúvida, só que as palavras de Macri marcam a primeira vez que esta retórica negacionista ganha aceitação no discurso político. O número 9 mil se refere à lista de nomes compilados nos primeiros anos de democracia pela Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). No entanto, os próprios militares relataram 22 mil assassinatos para a inteligência chilena em meados de 1978. Um ano antes, o regime ditatorial informou ao núncio papal (representante diplomático permanente da Santa Sé) em Buenos Aires que 15 mil pessoas tinham sido assassinadas, como mostram documentos americanos que se tornaram públicos.

Até hoje ainda há túmulos clandestinos que não foram identificados e a lista da Conadep não incluía as vítimas cujos corpos foram devolvidos para suas famílias nem as vítimas que não foram relatadas. Por isso, a estimativa de 30 mil, feita por grupos de direitos humanos, é amplamente aceita. Ela nunca tinha sido questionada antes por um presidente em exercício.

Para piorar, o uso da expressão “guerra suja” pelo presidente também condiz com o pensamento dos negacionistas de que não houve genocídio, apenas uma batalha interna entre a ditadura e os terroristas.

 

Fontes:
The Guardian-Blaming the victims: dictatorship denialism is on the rise in Argentina

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