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Ruanda, o país com o parlamento mais feminino do mundo

Com 67,5% do parlamento composto por mulheres, o país é referência em representatividade feminina. Porém, ainda há obstáculos a enfrentar

Ruanda, o país com o parlamento mais feminino do mundo
Violência doméstica é um dos problemas a serem enfrentados (Foto: Flickr/Rwanda Government)

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Ruanda é considerada um exemplo de participação feminina na política, e quebrou seu próprio recorde nas eleições legislativas realizadas em setembro deste ano, quando o número de mulheres no parlamento saltou de 64% para 67,5%.

Esse percentual significa que, dos 80 assentos do parlamento, 54 são ocupados por mulheres. Segundo uma estimativa da emissora americana NPR, em nenhum país do mundo a representação feminina no parlamento é tão alta.

Além disso, o país ocupa uma posição de destaque em um recente ranking de igualdade entre sexos, elaborado em 2015, pelo Fórum Econômico Global: o país ficou na 6ª posição, entre 145 países analisados no quesito. Para se ter uma ideia, os EUA ficaram em 28º lugar, e o Brasil na 85ª colocação (confira aqui o ranking na íntegra).

Tal fato faz Ruanda ser considerada um exemplo de ascensão feminina, não só no continente africano, mas no mundo. Porém, essa aparência de viver num país onde não há barreiras ou discriminação contra mulheres não é tão real quanto parece. Para compreender isso, é preciso, antes, entender como a mulher conquistou um papel tão proeminente na política ruandesa.

O genocídio de 1994

A raiz dessa ascensão remete ao genocídio de Ruanda, ocorrido em 1994. No período, cerca de 1 milhão de pessoas (a maioria de etnia tutsi) foram assassinadas e cerca de 2 milhões fugiram para países vizinhos.

Após o genocídio, as mulheres passaram a representar entre 60% e 70% da população do país na época – de cerca de 6 milhões de habitantes. A maioria dessas mulheres nunca tinha frequentado a escola ou sido criada com expectativas de uma carreira profissional. No período pré-genocídio, não era comum relatos de mulheres proprietárias de terras ou que trabalhassem fora de casa.

O genocídio alterou esse cenário, levando o país a viver um momento similar ao vivido pelos EUA durante a Segunda Guerra Mundial: mulheres passaram a assumir postos de trabalho antes ocupados por homens.

Porém, no caso americano, com o fim da guerra e o retorno dos soldados, as mulheres tornaram a desempenhar tarefas domésticas ou trabalhos de assistência, como enfermeiras e secretárias. O feminismo somente retornaria ao centro do debate nos EUA na década de 1960, com a ascensão da geração Baby Boomers, que, dentre outras, coisas exigia mais independência para as mulheres.

Em Ruanda foi diferente. O chamado por igualdade não foi liderado por milhares de mulheres, mas sim por um homem: o presidente Paul Kagame. Figura central na política do país no período pós-genocídio, ele preside Ruanda desde o ano 2000.

Kagame decidiu que o país estava em uma situação tão crítica que não poderia ser reconstruído apenas com a força de trabalho masculina. Logo, a nova Constituição do país, promulgada, em 2003, decretou que 30% dos assentos do parlamento fossem ocupados por mulheres. O governo também passou a fomentar a educação de meninas e a nomeação de mulheres para cargos de liderança, como chefes de polícia e ministras.

O país abraçou a proposta e chegou a superar a meta do governo. Nas eleições de 2003, as mulheres conquistaram 48% dos assentos do parlamento. Nas eleições seguintes, esse percentual subiu para 64%. Este ano, ele saltou para o atual recorde de 67,5% citado no início deste artigo.

Porém, o fato de ser uma revolução vinda de cima, não fruto da luta feminina, trouxe problemas que ofuscam a representação feminina.

A sociedade ruandesa não acompanhou essa ascensão feminina, o que faz com que as mulheres ocupem postos importantes na vida profissional, mas sigam em posição subordinada ao homem na vida familiar.

Obstáculos a enfrentar

Um exemplo disso foi citado em um estudo feito pela ruandesa Justine Uvuza, que entrevistou várias mulheres em posição profissional de destaque para entender como isso reflete na vida familiar. Ela descobriu que, salvo raras exceções, não importa o quão empoderadas essas mulheres sejam na vida pública, isso não se estende à vida familiar.

“Uma delas contou como seu marido exigia que ela garantisse que seus sapatos fossem lustrados, que a água estivesse preparada para ele tomar banho e suas roupas estivessem passadas. E o marido exigia que os sapatos não apenas estivessem prontos pela manhã, mas que estivessem com as meias em cima de cada um. E ele queria que isso fosse feito por sua esposa, a parlamentar”, narra Justine (confira aqui o estudo na íntegra).

Em seu estudo, Justine relata inúmeras histórias como esta, que revelam que na sociedade ruandesa as tarefas domésticas ainda são papel das mulheres. Em raras ocasiões, há a opção de contratar uma diarista ou de contar com a ajuda do marido para essas funções.

Algumas mulheres temem sofrer violência doméstica, caso não cumpram essa expectativa. Uma delas relatou a Justine que se sentia tão presa que chegou a pensar em suicídio. Em outras palavras, as parlamentares ruandesas têm poder para elaborar leis, mas temem impor sua voz no ambiente doméstico, uma vez que a violência física e verbal ainda é um problema persistente no país.

Para lidar com essa questão, a Organização das Nações Unidas (ONU) levou para o país a campanha #HeforShe, uma iniciativa global para estimular meninos e homens a remover as barreiras culturais que impedem as mulheres de alcançar todo seu potencial.

Apesar dos desafios a serem enfrentados, é inegável que Ruanda é um exemplo de empoderamento feminino que inspira mulheres de outros países do continente africano. É o que apontou Ngozi Cole, de Serra Leoa, em entrevista concedida à rede Al Jazeera, durante a celebração do Dia Internacional da Mulher deste ano.

“Em nosso país nós sequer chegamos perto do exemplo de Ruanda, de ter um parlamento onde mulheres representam mais de 64%. Minha esperança é continuar lutando por mais progresso em termos de participação política e mais leis que empoderem as mulheres e tornem suas vidas mais fáceis”, disse Cole.

 

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