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CAMPO DE REFUGIADOS

Rukban: um retrato da guerra da Síria

Milhares de refugiados em Rukban sofrem há anos com o conflito de interesse entre os países envolvidos na guerra da Síria

Rukban: um retrato da guerra da Síria
Não há sistema de esgoto em Rukban e o acesso à água potável é difícil (Foto: Unicef)

Shukri Shehab e a esposa não dormiam há duas noites, cuidando da neta de três semanas, que não parou de chorar por causa de uma cólica. Eles assistiram impotentes ao sofrimento da criança. “Aqui, não temos acesso a medicamentos”, disse Shehab a repórteres da CNN.

Shehab mora em Rukban, um campo de refugiados em uma zona controlada pelos EUA no sul da Síria, a 16 quilômetros de distância de uma base militar americana na fronteira com a Jordânia.

O acampamento de Rukban, apelidado de Triângulo da Morte por ativistas de direitos humanos devido às condições terríveis de vida, abriga milhares de sírios que foram forçados a abandonar suas casas em meio à violência da guerra civil e do grupo Estado Islâmico (Isis).

Há anos os refugiados em Rukban sofrem com o conflito de interesse entre os países envolvidos na guerra da Síria. As necessidades básicas das pessoas não são atendidas e, nos últimos cinco meses, o governo sírio bloqueou o acesso das agências de ajuda humanitária ao acampamento.

“Nenhum dos lados assume a responsabilidade pelo destino dessas pessoas”, disse Aron Lund, pesquisador do think tank Century Foundation.

Os EUA culpam o governo sírio e seus aliados russos pela situação dramática dos refugiados. “Rukban é um exemplo do comportamento desumano do ditador Bashar al-Assad com o povo sírio”, declarou o porta-voz das Forças Armadas dos EUA, Sean Robertson.

“Atualmente, quase 25 mil sírios, na maioria mulheres e crianças, vivem em abrigos precários em Rukban”, disse Paulo Sérgio Pinheiro, coordenador da Comissão Internacional de Inquérito para a Síria, ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. 

Cerca de um mês após o Isis ter autoproclamado seu califado em junho de 2014, imagens de satélite da ONU mostraram 90 abrigos em Rukban. Em janeiro de 2019, em novas imagens, o número tinha aumentado para 7.800.

Não há sistema de esgoto em Rukban e o acesso à água potável é difícil. O atendimento médico é precário e as crianças não recebem nenhum tipo de educação formal.

Em 2018, apenas dois comboios de ajuda humanitária entregaram alimentos, remédios e outros produtos básicos em Rukban. Em 17 de março, o governo da Síria negou o pedido da ONU de envio de um terceiro comboio, sem citar o motivo. A ONU fez outro pedido em 9 de maio, mas também sem sucesso.

A crise humanitária em Rukban é resultado, em grande parte, da complexa situação geopolítica da Síria. O acampamento situa-se próximo às fronteiras da Síria, Jordânia e Iraque, em uma área ocupada por uma base militar dos EUA, com 200 soldados. A base em Al-Tanf é considerada estratégica para combater a influência do Irã na Síria.

Os EUA apoiam o Exército do Comando Revolucionário, um grupo rebelde que luta contra o Isis. Em 29 de julho, o grupo postou um vídeo no Twitter com imagens de um treinamento realizado com as forças da coalizão para garantir a segurança da região.

Além disso, o acampamento de Rukban localiza-se dentro da zona de segurança criada pelos americanos em torno da base militar em Al-Tanf, a qual as tropas sírias e russas não têm acesso.  

Em fevereiro, a Síria e a Rússia criaram dois corredores humanitários para retirar os refugiados do acampamento. Segundo a ONU, mais de 17 mil pessoas já saíram de Rukbar desde o final de março.

Mas apesar da falta de alimentos, remédios e do atendimento às necessidades básicas, alguns refugiados temem sair do campo por causa da violência da guerra, disse Marwa Awad, funcionária do Programa Mundial de Alimentos da ONU. “Infelizmente, não há uma solução de curto prazo para diminuir o sofrimento do povo sírio”, observou Awad.

Fontes:
CNN-Thousands are trapped in a desert settlement in Syria, near a US military base

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