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INFLUÊNCIA CRESCENTE

Rússia caminha para suplantar os EUA no Oriente Médio

País aproveita os retrocessos na política dos EUA para a região para costurar acordos e fortalecer sua posição como um parceiro alternativo

Rússia caminha para suplantar os EUA no Oriente Médio
Recentes fracassos de Trump somente forneceram combustível para Putin (Foto: kremlin.ru)

Na última segunda-feira, 11, o presidente russo Vladimir Putin fez uma visita surpresa à Síria durante sua viagem pelo Oriente Médio. Ele se reuniu com o presidente sírio Bashar al-Assad e, em um triunfante discurso na base aérea russa de Hmeymim, na província de Latakia, declarou vitória sobre o Estado Islâmico na Síria e anunciou a retirada de “parte significativa” das tropas russas no país.

Putin celebrou a intervenção russa na Síria, iniciada em 2015 a pedido de Assad, como um sucesso. “Em dois anos, as Forças Armadas da Rússia, junto com o Exército da Síria, conseguiram derrotar o grupo internacional terrorista mais capacitado para combate”, disse Putin.

Não foi a única celebração do líder russo em seu recente tour pelo Oriente Médio. Putin também visitou o Egito e a Turquia, onde posou para fotos fechou grandes acordos e fez o papel de um influente chefe de Estado internacional. Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, desencadeia indignação no Oriente Médio, Putin se apresenta como um parceiro sensato e confiável para a região.

No Cairo, ele anunciou a iminente retomada dos voos diretos entre a Rússia e o Egito pela primeira vez desde 2015, quando um avião russo foi abatido em território egípcio. As conversas que teve com o presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sissi, durante a visita ao Egito também incluíram um acordo para a construção de uma central de energia nuclear no país, orçada em US$ 30 bilhões, bem como um acordo para autorizar a Força Aérea russa a utilizar as bases aéreas egípcias.

Em Ankara, Putin se encontrou com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan pela oitava vez este ano, uma prova da dramática mudança positiva na relação entre os dois países desde que um embaixador russo foi assassinado na Turquia no ano passado, e desde que um avião russo foi abatido por forças turcas em 2015. Aos poucos, Erdogan e seus aliados estão aceitando o fato de que foram suplantados pela Rússia na Síria.

Com tais ações, somadas ao recente discurso de vitória na Síria, Putin demonstrou que permanece ao lado de seus aliados e que é capaz de projetar o poder da Rússia para muito além do leste europeu. Segundo analistas políticos, Putin aproveita ao máximo o vazio deixado pelos EUA no Oriente Médio.

“Enquanto os EUA retrocederam em seu papel tradicional no Oriente Médio, a Rússia avançou no seu, fazendo uma exibição ostensiva na luta contra terroristas islâmicos em nome de uma cristandade ocidental relutante”, disse a analista política Julia Ioffe, da revista Atlantic.

Em contraponto, dois governos sucessivos dos EUA falharam em apresentar uma política externa coerente para o Oriente Médio. Analistas de vários meios criticam Barack Obama por se virar contra autocratas árabes que eram aliados de longa data dos EUA durante os protestos da Primavera Árabe, para depois não apoia a deposição de Assad quando as rebeliões na Síria começaram a ganhar força.

“A gestão Obama, por causa de seu desinteresse, abriu uma série de oportunidades para a Rússia. E com esse governo atual, com um presidente que é abertamente pró-Rússia, as coisas estão indo muito bem para eles (os russos)”, diz Paul Salem, especialista em Oriente Médio do Today’s WorldView, seção do Washington Post dedicada à política internacional.

Trump fez um grande espetáculo em abril deste ano, ao lançar mísseis na Síria em reposta a um ataque químico que matou dezenas de civis no país. Desde então mostrou pouco interesse na situação síria.

E os últimos fracassos de Trump somente forneceram combustível para Putin. Em Ankara, o presidente russo se juntou a Erdogan no coro contra a decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Putin ressaltou que “a ação de Trump não contribuiu para a paz no Oriente Médio e, exatamente ao contrário, desestabiliza a já complicada situação na região”.

Uma pesquisa feita pelo Pew Research Center este ano em vários países do Oriente Médio apontou que 64% dos entrevistados afirmaram ver a Rússia muito mais influente atualmente na região em comparação há uma década. Essa proporção deve aumentar nos próximos meses, e o Kremlin parece pronto para colher os benefícios. “Para muitos atores locais, a crescente presença da Rússia parece mais próxima de uma fonte equilíbrio. […] As manobras erráticas da gestão Trump, como a recente declaração de Jerusalém como capital de Israel, somente irão acelerar o declínio da influência americana e pavimentar o caminho para Moscou”, escreveu o professor de ciências políticas Talha Kose, em um artigo para o Daily Sabah, um jornal turco pró-Erdogan.

Para Salem, a Rússia “não está interessada em uma nova guerra fria, mas vai aproveitar as oportunidades” para expandir sua influência no Oriente Médio e assumir o papel de uma potência internacional. Segundo o analista, os esforços para isso incluirão exportar poderio militar e energia nuclear para uso civil – como visto no acordo com o Egito – além de cultivar o acesso a reservas de gás natural no leste do Mediterrâneo potencialmente enormes.

Na esfera política, Salem afirma que, enquanto Trump se alinha fortemente a um lado da rivalidade entre Arábia Saudita e Irã, a Rússia come de pedaço em pedaço, feliz em ser uma segunda alternativa para o Oriente Médio em contraste com o papel caótico desempenhado pelos EUA na região.

Fontes:
The Washington Post-Putin is outplaying Trump in the Middle East

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