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TENSÃO ELEVADA

Rússia: depois da Copa, a ‘última guerra da História’?

Diz um ditado inglês: ‘Nada é tão ruim que não possa piorar’; diz uma moderna troça russa: ‘Sanções? Nossos mísseis nucleares estão morrendo de rir’

Rússia: depois da Copa, a ‘última guerra da História’?
Temos que pensar na Rússia atual como na Rússia do século XIX, não na Rússia da Guerra Fria (Foto: Kremlin)

“Vivemos o momento mais perigoso de tensão entre a Rússia e o ocidente desde o fim da Guerra Fria”, escrevia a jornalista Lucia Guimarães no suplemento Aliás, do Estadão, em 22 de outubro de 2016, na introdução a uma entrevista com o pesquisador britânico Mark Galeotti, do Instituto de Relações Internacionais de Praga. A entrevista foi basicamente sobre como, segundo ele, temos que pensar na Rússia atual como na Rússia do século XIX, em vez de como na Rússia da Guerra Fria. Ou seja, um país que “demanda respeito e ignora pressões”, e do qual “podemos esperar demonstrações de força”.

A entrevista foi ainda sobre de que forma, agora nas palavras dela, o ocidente deveria enfrentar “a agressividade de Putin”. Na época, ganhavam tamanho as suspeitas de que Moscou metera o bedelho na campanha eleitoral nos EUA, e os governos Obama e Hollande, na França, já acusavam a Rússia por crimes de guerra na Síria. Além disso, ainda repercutia o assassinato do líder oposicionista russo Boris Nemtsov, em 2015. A economia do rublo padecia (começaria a se recuperar em 2017) sob as sanções americanas por causa das invasões da Crimeia e da região do Donbass, na Ucrânia.

A jornalista Lucia Guimarães pôs naquela página do Estadão algo de Caetano Veloso como epígrafe: “Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”. Hoje, talvez não sirva nem para embrulhar peixe. Um ano e meio depois daquele “momento mais perigoso da tensão entre a Rússia e o ocidente”, em abril de 2018 – agora mesmo, portanto – é possível que a atual situação geopolítica seja traduzida à perfeição, antes que por qualquer pesquisador, por um verbete do Oxford Dictionary of Proverbs: Nothing so bad but it might have been worse (“Nada é tão ruim que não possa piorar”).

E não estamos falando, evidentemente, do boicote diplomático à Copa da Rússia anunciado pelo governo da Islândia, cuja seleção de futebol tornou-se conhecida pelo grito de guerra viking com que jogadores e torcida comemoram seus bons resultados.

Morrem os mísseis nucleares… de rir

Estamos falando da iminência de um “resultado muito ruim” da escalada da tensão entre a Rússia e o ocidente. Quem disse isso, na verdade, foi o tenente-general russo Evgeny Buzhinsky, numa entrevista à BBC publicada há poucos dias, e explicando-se melhor: “Uma guerra real. Pior que a Guerra Fria é uma guerra real. Será a última guerra na história da humanidade”. Não deixa de ser uma ironia macabra que um episódio com todo jeitão da Guerra Fria, o envenenamento na Inglaterra do ex-espião russo Sergei Skripal e de sua filha, tenha resultado no rufar dos tambores para uma guerra bem real, com a expulsão de 150 diplomatas russos de mais de 30 países e de mais de 100 diplomatas que trabalhavam na Rússia representando 23 países diferentes.

Em março, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, comparou a anexação da Crimeia pela Rússia à invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do Terceiro Reich, em 1938. Semanas antes, Johnson já havia dito que Putin usaria a Copa do Mundo da Rússia em seu favor à moda como Hitler valera-se da Olimpíada de 1936 na Alemanha Nazista. As declarações do tenente-general russo Evgeny Buzhinsky sobre a última guerra da história seguiram-se ainda ao anúncio da maior compra militar da história da Polônia, a fim de proteger o país contra “a ameaça russa”: US$ 4,75 bilhões por um sistema de mísseis terra-ar Patriot fabricados pela empresa americana Raytheon.

Ao contrário da indústria bélica dos EUA, que cresceu 25% durante o primeiro ano da administração Trump, a economia russa já sofre com a instabilidade financeira causada pelas novas sanções anti-Kremlin, anunciadas pela mesma administração Trump. Na última segunda-feira, 9, a bolsa de valores de Moscou fechou em baixa de 11,4%. Um dia antes fazia aniversário o acordo para redução de armas nucleares firmado por Obama e Medvedev em 8 de abril de 2010, o chamado New START.

Um documento do Pentágono de 2 de fevereiro desse ano, e intitulado “Revisão da Postura Nuclear” (sob a administração Trump) informa que os EUA pretendem “modernizar seu arsenal nuclear e desenvolver novas bombas atômicas de baixa potência em resposta às ações recentes da Rússia”. No outro lado, uma moderna troça russa ainda não consta em dicionários, mas já estampa camisetas, remetendo a 1.550 ogivas prontas para entrarem em ação: “Sanções? Nossos mísseis nucleares estão morrendo de rir”.

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2 Opiniões

  1. Francisco Taborda disse:

    Para se conhecer um pouco do que é a Rússia é bom ler o livro “Pedro o Grande” de Robert K. Massie. Li este livro em 1987, em plena Guerra Fria. Foi quando entendi que o grande problema de lidar com a União Soviética não era porque ala era comunista (isto era, apenas, a ação diversionária do momento), mas sim porque era controlada pelos russos.

    Desde Ivan o Terrível os russos tem a fixação em defender a Mãe Rússia. De maneira simplista, todas as suas ações de expansão territorial podem encontrar grande parte das justificativas na MISSÃO de proteger a Mãe Rússia, criando uma zona de proteção cada vez maior para defender o que os russos consideram o coração da Rússia. Com as armas modernas, de grande alcance, isto fica cada vez mais complicado, mas o expansionismo territorial, a intimidação militar e a dependência econômica fazem parte desta mesma estratégia: defender a Mãe Rússia.

    Os russos não tomarão qualquer iniciativa que signifique a destruição fortuita da Mãe Rússia. A destruição mútua não é uma opção a menos que seja a única opção restante. Só, então, lhes valeria à pena aniquilar a humanidade, como nós a conhecemos hoje. Isto eles o fariam sem qualquer cerimônia já que , de certa forma, eles se consideram o povo mais bem dotado da humanidade. Se lhes for negada a existência, certamente, não verão razão alguma para poupar a resto da humanidade. Mas, até chegar a este ponto será preciso acontecer muita coisa, ainda.

    É preciso demonstrar que a ninguém interessa “invadir” a Rússia ou negar a sua existência. Os russos tem uma mentalidade continental e isolacionista. São ensimesmados e grande parte da população não toma conhecimento do que se passa além das fronteiras. Quem sabe esta não é uma boa solução para eles. Um grande problema é que a Europa se tornou dependente do gás da Russia para sobreviver. O caso é que a caixa de Pandora do jogo geopolítico está aberta. Recolher todos os maus espíritos é que vai dar trabalho. Donald Trump pode não ser a pessoa mais qualificada para montar este quebra-cabeças de chinês.

  2. HENRIQUE O MOTTA disse:

    Gostei muito da análise do Francisco Taborda. A considerar, ainda, que a China adoraria uma aumento considerável da tensão entre ocidente e Rússia ou mesmo ambos enfraquecidos seja por uma guerra total ou parcial. Esta disputa não interessa nem a russos nem aos países da Europa ocidental ou aos americanos. Só beneficia a China.

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