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DISPUTA PELO PODER

Rússia se prepara para a era pós-Putin

As elites russas já estão disputando o poder diante de um possível vácuo deixado por Putin

Rússia se prepara para a era pós-Putin
A geração na faixa dos 30 anos quer um futuro diferente para a Rússia (Foto: Kremlin)

No resultado oficial da eleição presidencial de 18 de março Vladimir Putin obteve 77% dos votos, com uma participação de quase 70% dos eleitores. Mas o resultado não oficial teria sido semelhante. A eleição não foi um exercício genuíno de escolha, e sim do reconhecimento de quem detém o poder. Após 18 anos, Putin é o tsar da Rússia, o líder todo-poderoso do país.

No entanto, apesar de sua vitória a luta pelo poder na Rússia já começou. Legalmente, Putin não pode concorrer à reeleição em 2024. Porém, por métodos não ortodoxos, como persuasão ou repressão brutal, ele pode alterar o texto da Constituição que proíbe o exercício de dois mandatos presidenciais consecutivos. Ou, ainda tem a opção de exercer o poder nos bastidores, como uma eminência parda. Mas qualquer demonstração de fraqueza ou de inabilidade na condução do governo pode encerrar sua carreira política no final do mandato.

As elites russas já estão disputando o poder diante de um possível vácuo deixado por Putin. O resultado é incerto. Na pior das hipóteses, o país seguiria o caminho de um nacionalismo ainda mais radical do que o definido pela política de Putin. Em sua visão paranoica a Rússia é ameaçada continuamente por inimigos visíveis e invisíveis, e nada tem a aprender com as ideias de outros países, como a defesa dos direitos humanos e os valores da democracia. Essa visão fomentou uma nova Guerra Fria, com suspeitas de manipulação de uma eleição presidencial nos Estados Unidos e assassinatos políticos no exterior. Na Crimeia, Ucrânia e Síria, a política agressiva de Putin estimula guerras violentas.

Mas a geração na faixa dos 30 anos, que cresceu à sombra da imagem de Putin, quer um futuro diferente para a Rússia. Para essa nova elite seu governo é anacrônico, com uma agenda conservadora e valores tradicionais isolacionistas.

Essa nova geração de governadores regionais, empresários e políticos independentes desempenhará um papel crucial na Rússia pós-Putin. Eles têm suas diferenças e rivalidades, mas também compartilham ideais e princípios. Ao contrário da opinião dos mais velhos, o fim da Guerra Fria na década de 1990 não foi uma derrota para a Rússia, mas sim a vitória de um julgamento político correto e equilibrado. As viagens ao exterior e o acesso às informações eliminaram o complexo de inferioridade da geração de Putin, que copiou o Ocidente e, mais tarde, o rejeitou. Seus pais viveram momentos de crise econômica e avaliam o sucesso em termos de dinheiro. Não para eles, que acham natural terem conforto material. Por terem acompanhado as mentiras, a propaganda política e a corrupção que permearam a vida pública dos últimos anos, essa nova elite defende a transparência política, e a aplicação das regras e leis.

Nos próximos seis anos da presidência de Putin, essa elite ocupará um espaço cada vez maior na vida política, econômica e cultural da Rússia. Suas ideias repercutem nos institutos de pesquisa e na mídia. Seis dos 85 governadores regionais têm menos de 40 anos. Putin nomeou jovens tecnocratas para ocupar cargos importantes no Kremlin e nos ministérios.

Talvez espere que a lealdade desses tecnocratas preserve seu legado. Mas na Rússia a transferência de poder poucas vezes é realizada de maneira pacífica. Ninguém está seguro. As eleições corruptas não legitimam a autoridade dos novos líderes. Até mesmo os protegidos de Putin podem rejeitá-lo, assim como ele consolidou sua posição ao se afastar do presidente Boris Yeltsin, que o nomeou primeiro-ministro em 1999.

Nada garante que a nova geração tenha condições de modernizar a Rússia e de promover uma abertura política. O clima de suspeitas e ameaças criado por Putin gerou ressentimento e exacerbou o sentimento de vitimização do povo russo. O principal líder da oposição, Alexei Navalny, que foi impedido de disputar a eleição em 18 de março, disse que seu maior inimigo não é Putin e seus aliados, mas a sensação de impotência que os russos sentem. Quando os órgãos de segurança e os serviços de inteligência exploram o medo para manter seus privilégios, a população comporta-se como cúmplice.

A luta pelo poder na Rússia é interna. A interferência dos países ocidentais na transição política exige prudência e cautela. As sanções econômicas impostas a Putin pela violação dos direitos humanos prejudicam o povo russo. A aproximação com a nova elite pode dar origem a perseguições e expurgos. O Ocidente não é mais um modelo de civilização, que atraía as ambições dos jovens com seu apelo cultural, econômico e moral. A desilusão com a União Europeia e a turbulência política do governo Trump enfraqueceram a influência do Ocidente. A nova elite terá de encontrar seus próprios valores em meio à opressão e à intolerância de Vladimir Putin.

Fontes:
The Economist-The struggle for Russia is just beginning

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