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Saiba porque Rafael Correa comprou a briga de Assange

Asilo ao Assange é um jogo de poder do presidente do Equador para desempenhar um papel de liderança na esquerda latino-americana

Saiba porque Rafael Correa comprou a briga de Assange
Rafael Correa, presidente do Equador está em seu segundo mandato (Reprodução/Internet)

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A decisão do Equador de conceder asilo a Julian Assange, fundador do WikiLeaks acusado de estupro e abuso sexual na Suécia, colocou o país em um impasse político com a Grã-Bretanha, onde Assange está escondido na embaixada equatoriana.

Mas a confusão em Londres tem na verdade pouco ou nada a ver com a relação dos equatorianos e britânicos e tudo a ver com a política regional no hemisfério Ocidental. E isso tem pouco a ver com a proteção ao direito de Assange de ter um julgamento justo ou com a liberdade de imprensa, argumentos utilizados pelo presidente do Equador, Rafael Correa.

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O asilo a Assange é uma tentativa de Correa de acertar velhas contas com os Estados Unidos, exibir seu talento político para a próxima eleição presidencial do país, em 2013, e um jogo de poder para desempenhar um papel de liderança na esquerda latino-americana.

Apesar de ter declaradas tendências esquerdistas, o governo equatoriano manteve relações relativamente cordiais com os Estados Unidos durante os primeiros anos do governo de Correa, que assumiu a presidência no inicio de 2007. Correa fez doutorado em economia na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e recebeu a secretária de Estado Hillary Clinton calorosamente durante uma visita oficial em junho de 2010. No encontro, Correa teria descrito sua experiência nos EUA, como “os quatro anos mais felizes de sua vida”.

Por água abaixo

Essa relação azedou no início de abril de 2011, quando o governo equatoriano expulsou a embaixadora norte-americana, Heather Hodges, irritado com os comentários de que Correa teria nomeado um chefe de polícia corrupto para ter alguém no posto que “ele pudesse manipular facilmente”. O tema era particularmente sensível na época: Correa tinha sobrevivido ao seu maior desafio na presidência –um atentado contra a sua vida – na forma de um motim da polícia, após a decisão de padronizar o pagamento dos funcionários públicos, o que reduziu salários e benefícios para a força policial.

Os Estados Unidos retaliaram, declarando que o embaixador do Equador em Washington era uma “persona non grata”. Em uma entrevista realizada por Assange em seu programa de auditório russo, em junho de 2012, Correa também expressou sua raiva contra a “atitude imperialista de Hodges”, que se recusou a pedir desculpas ou retirar seus comentários.

Embora os dois países tenham novos embaixadores, a ferida continua aberta. A oportunidade para resolver a rixa com os Estados Unidos dando asilo a Assange, acusado de vazar documentos secretos dos norte-americanos, era boa demais para ser perdida. Ao  afirmar a inviolabilidade da soberania equatoriana e desafiar as autoridades britânicas, o presidente Correa também está disputando a liderança hemisférica. O declínio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, após problemas de saúde – ele luta contra um câncer há mais de um ano – criou uma chance única para Correa se colocar como o líder da oposição esquerdista, populista e nacionalista da América Latina.

De fato, um número crescente de países da América Central, do Sul e além – incluindo Colômbia e Uruguai – parecem dispostos a arriscar ser os antagonistas dos Estados Unidos, defendendo soluções alternativas para diversos problemas, incluindo a legalização das drogas. Até agora, Correa tem sido uma voz marginal nos debates, e ainda paira na sombra de Chávez. Assim, sua decisão de apontar o polegar na cara de Washington com o asilo a Assange, permite que o Equador tome à frente da liderança política na região.

A causa também ajuda, pois é um empreendimento de baixo risco para Correa no próprio país, com a possibilidade de grandes retornos políticos. Eleito presidente duas vezes, inicialmente em 2006 e, novamente, após reformas constitucionais em 2009, ele já é o presidente com maior tempo de mandato desde o retorno do Equador à democracia, em 1997. Tendo em conta que ele tem 57% de aprovação e uma oposição profundamente fragmentada, as chances de reeleição para Correa em fevereiro de 2013 são grandes.

O estilo populista de Correa e sua insistência em não renunciar diante do motim dos policiais servem para reforçar sua posição em um país com uma longa tradição de políticas autoritárias. A concessão de asilo a Assange é um lembrete oportuno da política de Correa – e de sua potencial liderança regional para além das fronteiras do Equador.

Fontes:
The New York Times - It’s Not About Assange

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2 Opiniões

  1. Pedro Brita disse:

    É impressionante como qualquer lacraia com o timbre da turma do Foro de São Paulo lança-se como candidato a liderança deste fim de mundo chamado América Latina. Antes tínhamos o Fidel, líder inconteste deste lado das Américas. O déspota de uma ilhota do caribe. Esse é o grande líder da turma da esquerda. Com a velhice e a doença do déspota da ilhota, outro despotazinho começava a ensaiar os seus passinhos nessa mesma senda. Mas, por conta do destino, ele também foi acometido de uma doença grave. Coisa de ditador. Deve ter sido a convivência com o seu chefe e mentor. Hugo Chaves também adoeceu, que bom. No entanto, surge agora o seu títere e também, como os dois últimos, déspota de um país medíocre no contexto da América Latina. É o rodizio da turma do Foro de São Paulo. Bem vindo à disputa politica por esta América Latina liderada por ladinos. Quanto ao Brasil faça como os demais sempre fizeram e fazem, não dê a menor pelota. Qualquer coisa a Cristina te ensina. Nós não vamos estranhar se formos tratados assim, nos acostumamos com o papel de otários nesse cenário.

  2. cesarious disse:

    O jogo político sempre foi e sempre será esse.
    As oportunidades devem ser aproveitadas, por uma boa causa, antes que seja tarde demais.

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