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‘NOS ABATEM COMO ANIMAIS’

A sangrenta guerra às drogas nas Filipinas

‘Nos abatem como animais’, disse um filipino ao fotógrafo do ‘New York Times’ que documentou a sangrenta guerra às drogas do presidente Rodrigo Duterte

A sangrenta guerra às drogas nas Filipinas
Desde que Duterte assumiu, em junho, já são mais de 2 mil execuções sumárias (Foto: pri.org)

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, colocou em prática uma guerra às drogas sangrenta e sem precedentes após tomar posse, em 30 de junho deste ano. Desde então, 2 mil pessoas já foram executadas por policiais. Trata-se de um número alarmantemente alto para apenas seis meses.

Daniel Berehulak, fotógrafo do New York Times, viajou ao país para documentar a violência da política de Duterte. Em apenas 35 dias de estadia, ele fotografou 57 vítimas de assassinato. “Testemunhei cenas sangrentas em todos os lugares imagináveis – caçadas, linhas de trem, diante de meninas estudantes, em frente a lojas de conveniência e restaurantes do McDonald’s”, disse o fotógrafo.

Em uma das ocasiões, ele presenciou o assassinato de uma jovem de 19 anos e seu namorado de 21. “Estão nos abatendo como animais”, disse a Berehulak um transeunte que não quis se identificar. Em outra ocasião, ele fotografou o corpo de Michael Araja, de 29, anos, morto a tiros em frente a um pequeno estabelecimento comercial. Ele tinha acabado de sair de casa para comprar cigarros e bebidas para a mulher quando foi abordado e alvejado por dois homens em uma moto. Esse tipo de abordagem é muito comum atualmente.

Em seu relato, Berehulak narrou estar chocado diante da política sangrenta de Duterte. “Eu trabalhei em 60 países, cobri guerras no Iraque e no Afeganistão, e passei grande parte do ano de 2014 vivendo na zona afetada pelo ebola da África Ocidental, um lugar tomado pelo medo e pela morte. O que eu vivi nas Filipinas parece um novo patamar de crueldade: policiais sumariamente atirando em qualquer um suspeito de vender ou até mesmo de usar drogas. Vigilantes que levam a sério a ordem de Duterte: matem a todos”, disse Berehulak, ressaltando que tais execuções ocorrem a esmo, sem provas ou julgamentos. Em alguns casos, a vítima tem a cabeça enrolada em um pano e um cartaz colocado no pescoço, escrito “viciado” ou “traficante”.

Em outubro, Duterte falou sobre as execuções, deixando claro que não visa retroceder em sua política. “Podem esperar mais 20 mil ou 30 mil (execuções)”. Além das execuções, mais de 35.600 pessoas já foram presas durante as operações antidrogas, batizadas pelo governo de Projeto Tokhang. Tal fato fez a população carcerária saltar.

Segundo os policiais, grande parte das execuções são frutos de “Nanlaban”, termo usado quando um suspeito resiste à abordagem, similar ao auto de resistência da polícia brasileira. Porém, segundo Berehulak, trata-se de uma forma de mascarar as execuções extrajudiciais. “Conforme minha estadia nas Filipinas avançava, as execuções se tornavam mais descaradas. Os policiais aparentavam fazer muito pouco para esconder seu envolvimento. O Nanlaban se tornou uma brincadeira sombria”.

Foi dessa forma sombria que morreu Florjohn Cruz, de 34 anos. Segundo o relatório da polícia, ao perceber a presença dos agentes, “Cruz correu para dentro de casa, pegou uma arma e começou a atirar, obrigando os agentes a agir da mesma forma”. Porém, a mulher de Cruz, Rita contra outra versão. Segundo ela, Cruz não trocou tiros com os agentes nem era traficante. Era usuário de metanfetamina.

Os sobrinhos adolescentes de Cruz, Eliam e Princess, viram da varanda do andar superior quando os policiais fardados deixaram a casa após matar seu tio. Eles relataram ter escutado um barulho de mensagem de celular e visto quando um dos agentes pegou o aparelho para ler a mensagem. “O Ginebra ganhou”, gritou um deles, em referência ao time de basquete mais popular do país.

Em setembro deste ano, um artigo publicado na revista Economist, chamou atenção para a política de drogas de Duterte. Segundo o texto, quando ele tomou posse disse aos policiais que se eles matassem mil pessoas por dia teriam proteção do governo. O que todos achavam se tratar de verborragia na época, acabou se confirmando meses depois.

“Execuções extrajudiciais – de ativistas ambientais, jornalistas, sindicalistas e outros que confrontam os interesses do governo – sempre foram um fato nas Filipinas. Na gestão de Duterte, suspeitos de envolvimento com tráfico ou uso de drogas também se tornaram alvos”, diz o texto.

Fontes:
The New York Times-‘They Are Slaughtering Us Like Animals’
The Economist-The human toll of the Philippines’ war on drugs

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