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O dia da posse

“Se Obama acreditar na imagem do ‘salvador’, provavelmente teremos outro péssimo presidente americano”

Por Fabíola Leoni

Terça-feira, 20 de janeiro de 2009. Barack Hussein Obama se torna o 44º presidente dos Estados Unidos da América, pelo Partido Democrata. Após meses de campanha, venceu as eleições e garantiu a uma multidão, na cidade de Chicago, que a mudança chegou ao país. Crise financeira global, guerras, aclamações mundiais envoltas de esperança por um governo de transformações pelo primeiro presidente negro da História dos Estados Unidos.

Em entrevista exclusiva ao site Opinião e Notícia, o professor do Departamento de História da PUC-Rio e da Universo, Maurício Parada, discorreu sobre a convocação da equipe de Obama, os passos do novo presidente, as relações com o Oriente Médio, as dificuldades que o governo enfrentará e a imagem “salvacionista” do futuro presidente.

O&N: Liberação de pacotes, fechamento de Guantánamo. Antes mesmo da posse, Obama já mostrou novidades. Mas, para a equipe, escalou nomes do governo Clinton. Entre outros, Hillary Clinton e Rahm Emanuel, um dos principais assessores do último governo democrata. Além disso, Robert Gates, o secretário de Defesa de Bush, permanecerá no cargo. O que esperar de um presidente que sugere transformações, mas que escalou uma equipe já experimentada em outras administrações? Será que, dessa forma, ele conseguirá promover as mudanças prometidas?

Maurício Parada:
A expectativa de mudança gerada durante a recente campanha presidencial americana deve ser colocada agora em uma nova perspectiva. O discurso de campanha é, necessariamente, diferente do discurso de um governo eleito que, obrigatoriamente, tem que se defrontar com os limites impostos pelas forças políticas existentes. Não é, portanto, espantoso que a palavra mais usada pelo presidente eleito e sua equipe seja “pragmatismo”. Teremos mudanças na política externa americana, na política de saúde, na política ambiental, na política econômica etc. Mas todas obedecendo a um certo pragmatismo. Ou seja, não haverá mudança em posições consolidadas e entendidas como consensuais dentro da comunidade política americana. Podemos ver isso nas respostas dadas no Senado pela futura secretária de estado Hillary Clinton acerca da política externa americana. Novas perspectivas de diálogos com Cuba, América Latina e mesmo a Coréia do Norte. A ênfase na diplomacia em detrimento da força militar na solução de conflitos e o afastamento do unilateralismo do período Bush para o tratamento de problemas globais. No entanto, o “pragmatismo” está presente na forma do apoio a Israel, a manutenção da luta contra o terrorismo e as censuras ao Irã. Creio que esse será o procedimento do governo Obama em todas as áreas: mudança pragmática.

O&N: O presidente descobriu seu talento político em 1985, quando organizou em Chicago um grupo que visava melhorar as condições de vida de bairros pobres que tinham altas taxas de violência e desemprego. Ali, Obama percebeu que para as mudanças serem de fato eficientes teriam que acontecer também pelos canais institucionais. Como o senhor avalia essa análise de Obama? Ele de fato conseguirá melhorar a vida das pessoas em um cenário de desigualdades sociais, conflitos raciais e em plena crise econômica?

M.P.: O presidente Obama se elegeu obtendo também uma vitória parlamentar e terá o Congresso a seu favor. Com os recentes informes do Federal Reserve sobre a crise econômica, todos apontando para um cenário de grave e ainda por se desenvolver não há dúvida de que a legislação econômica americana sofrerá mudanças. Nas atuais condições, é necessário mudar. Uma nova política fiscal, com os populares cortes de impostos, e uma legislação que amplie as condições de regulação do mercado pelo Estado deverão ocorrer. Ainda é difícil saber qual o impacto dessas medidas na crise mundial e nas desigualdades sociais americanas.

O&N: Durante a campanha, Obama prometeu prioridade para retirar os soldados norte-americanos do Iraque, negociar com o Irã, fechar a prisão de Guantánamo e renegociar acordos comerciais com países vizinhos. Dias antes da eleição, em uma entrevista à CNN, Obama deixou bem claro quais seriam as prioridades-chave do seu governo. Em primeiro lugar, um pacote econômico que incluiria benefícios fiscais à classe média. Depois viriam as questões da energia, saúde, reforma fiscal e educação. Críticos acusam Bush de ter sido um presidente com os olhos voltados somente para dentro do país. Obama seguirá os mesmos passos?

M.P.: Não. Acredito que o futuro presidente americano já percebeu que não existe como resolver os problemas americanos sem considerar que esses problemas são parte dos problemas globais. Não há como, por exemplo, propor mudanças na matriz energética americana sem o envolvimento do governo americano em negociações globais sobre o meio ambiente. Não há como fechar Guantánamo sem pensar em uma política de direitos humanos que redefina o papel internacional dos EUA nessa área. O que a crise global informou aos americanos, e parece ter sido assimilado pelo novo governo, é que a maioria das ações internas tem repercussões globais e vice-versa.

O&N: As relações entre EUA e Israel continuarão incondicionais no novo governo? Obama vai tentar uma aproximação com o chamado “mundo árabe”, uma via mais diplomática ou, devido à pressão, vai manter uma linha dura de combate ao terror, repetindo Bush e afastando o Oriente Médio dos Estados Unidos?

M.P.: Nesse momento o Oriente Médio vive uma situação que não estava posta até algumas semanas atrás. A invasão da faixa de Gaza por Israel e o custo humano desse ataque coloca novas questões para a diplomacia americana para a região. Pragmaticamente a aliança com Israel não será quebrada nem haverá negociação com o Hamas, mas o conflito — por sua repercussão — obrigará a diplomacia americana a agir com mais decisão na região. A nova secretária de Estado vai ter que construir uma linha política equilibrada que reabra o diálogo com os países muçulmanos sem abdicar da luta contra o terrorismo. Não será fácil reverter a perda produzida pelo governo Bush na região.

O&N: Quais as principais armas de Obama para governar um país mergulhado em crises, com as maiores taxas de desemprego dos últimos anos? Quais serão, afinal, as maiores dificuldades que o novo governo enfrentará?

M.P.: Por enquanto, após uma eleição com dimensões globais, o futuro presidente americano detém um capital simbólico de grande monta. Se souber usar as expectativas a seu favor, Obama terá a possibilidade de criar algumas soluções para um país em crise. Porém, a possibilidade de uma “mágica” política que faça os EUA retomar a curto prazo seu vigor econômico e sua estabilidade financeira é pequena. O ciclo vicioso da crise deve perdurar ainda algum tempo e esse é o maior desafio: manter seu cacife político incólume durante esse período.

O&N: Às vésperas da posse de Obama, o que se vê pelas ruas são expectativas de mudanças, livros e artigos sobre o que o primeiro presidente negro dos EUA vai promover de diferente à frente do país mais poderoso do mundo. De que forma, ou baseada em que, a população projetou uma espécie de “salvador” no presidente eleito? A situação econômico-social também se enquadra nesse cenário?

M.P.: Toda salvação é precedida de um período de ruína. O governo Bush ajudou em muito na formação dessa imagem “salvacionista” do futuro presidente. A crise de confiança que o presidente Bush produziu para o executivo americano foi sem precedente. Guerras sob falsas alegações, promiscuidade entre interesses privados e públicos, uma leniência na administração das ações econômicas e uma crença quase religiosa em temas como o meio ambiente levaram à erosão da credibilidade popular no executivo americano. A crise econômica em meio a uma disputa eleitoral só agravou o quadro. Porém o “salvacionismo” popular não pode contaminar a futura administração. Se Obama acreditar na imagem do “salvador” provavelmente teremos outro péssimo presidente americano.

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7 Opiniões

  1. Josinan Santos Alves disse:

    acredito q Obama não irá solucionar os problemas existentes nos EUA em curto prazo, pois as estruturas de poder político, econômico e social requerem tempo para serem analisadas e então metódos de resoluções possam ser concretizados.

  2. Arlon Borges disse:

    Fiquei impressionado com um leitor que disse aqui que Obama o faz lembrar Fernando Collor: vade retro, Satanáz!

  3. Nérison Bauer disse:

    Realmente a eleição do Obama mostra que o povo americano estava cansado de presidentes como George W. Bush. Há perspectivas de mudanças, mas não será fácil. Obama e sua equipe terão muito trabalho para voltarem a ter um bom diálogo com boa parte dos países árabes, e outras nações, como Irã e Coréia do Norte, as quais mantem relações beligerantes com os norte-americanos.

  4. Milton Zadik disse:

    São muitos os inimigos da América.

    A idéia de América, a idéia de uma nação de pessoas livres, distante da mão sufocante da nobreza e do clero europeus, formada pela soma de interesses individuais que se submetem aos imperativos patrióticos, essa idéia é insuportável a quem se sente vazio diante da própria liberdade.

    São muitos os inimigos da América. Espero que Obama não seja um deles.

  5. Roque S. de Souza disse:

    Bem: a solução dos muitos problemas com que o presidente Obama terá que lidar nesses tempos presentes. Depende de uma boa dose de tolerância da sociedade americana, ou melhor, dos que votaram nele. Agora a torcida para quele não acerte é tão quanto a que quer quele acerte. Vamos esperar. Eu espero quele ganhe esse jogo.

  6. Mauricio disse:

    Muito boa entrevista, parabéns à repórter e ao site.

    Agora é torcer pro presidente fazer a parte dele e corresponder às expectativas do mundo.

  7. Osório Almeida Monteiro disse:

    Aduzindo ao que Roque de Souza escreveu, eu também espero que ele ganhe este jogo. E, mais ainda, que suas intenções abram os olhos do nosso governo para a questão fiscal, ao menos isto.
    A crise que assola a América não deixa de atingir o Brasil. E liberar dinheiro não adianta muito, se os impostos forem altos.
    Usando o bom senso, o governo brasileiro pode evitar os efeitos econômicos mais nocivos da crise que já está instalada: é só parar de tratar quem produz como se fosse criminoso. Só isso!
    Abraço

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