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MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Seca ameaça piorar situação alimentar da Coreia do Norte

Estima-se que cerca de 11 milhões de norte-coreanos precisam de assistência alimentar urgente. Seca tem raízes nas mudanças climáticas

Seca ameaça piorar situação alimentar da Coreia do Norte
Uma em cada cinco crianças enfrenta a desnutrição no país (Foto: Divulgação/Cruz Vermelha da Coreia do Norte)

A Coreia do Norte enfrenta uma das piores secas da sua história. A falta de chuva e, consequentemente, de água ameaça a produção de alimentos no país, que já tem passado por problemas nos últimos anos.

De acordo com números do relatório de Prioridades e Necessidades de 2019, do Programa Mundial de Alimentos (PMA), da Organização das Nações Unidas (ONU), 11 milhões de norte-coreanos, mais de 40% da população do país, precisam de assistência alimentar urgente.

Em relação a crianças, estima-se que uma em cada cinco está desnutrida. A PMA vê com preocupação principalmente a situação de crianças menores de cinco anos, mães e mulheres grávidas.

Apesar dos altos índices e estimativas preocupantes, a situação pode ficar ainda pior nos próximos meses. A afirmação foi feita pelo chefe do escritório da Coreia do Norte da Federação Internacional da Cruz Vermelha e das Sociedades do Crescente Vermelho (IFRC) na RPDC, Mohamed Babiker, que destacou:

“Estamos particularmente preocupados com o impacto que essa seca inicial terá em crianças e adultos que já estão lutando para sobreviver. Mesmo antes desta seca, uma em cada cinco crianças com menos de cinco anos de idade foi atrofiada devido à má nutrição. Estamos preocupados que essas crianças não sejam capazes de lidar com mais estresse em seus corpos”, apontou Babiker.

A piora na produção dos alimentos já havia sido prevista pelo PMA. Ao destacar as principais causas da dificuldade em alimentar toda a população, citando questões econômicas e políticas, o órgão havia apontado que “qualquer impacto negativo na agricultura e na produção de alimentos tem consequências amplas e duradouras, além de agravar a desnutrição já generalizada que afeta milhões de pessoas no país”.

Um funcionário do Ministério da Unificação da Coreia do Sul foi ainda mais alarmante. Usando como base o relatório da PMA, o funcionário afirmou que a Coreia do Norte precisa de assistência alimentar urgente até setembro – que é o tradicional período no qual se inicia a safra no país. As informações foram reveladas pela agência de notícias estatal Yonhap.

Diante do péssimo cenário, a Federação Internacional da Cruz Vermelha (FICV) liberou cerca de 77 mil francos suíços (aproximadamente US$ 76,4 mil dólares) do Fundo de Emergência em Desastres (DREF) para reforçar os esforços da entidade no país.

O dinheiro será empregado, principalmente, na instalação de bombas de água para que os cidadãos possam diminuir o impacto das secas nas plantações. Além da utilização da verba, a Cruz Vermelha está trabalhando na criação de 100 estufas comunitárias para o cultivo de vegetais ao longo do ano.

De acordo com Daniel Wallinder, da IRFC, ao analisar os dados da Coreia do Norte dos últimos 50 anos fica claro que a seca atual tem relação direta com as mudanças climáticas. “O que vemos agora é a falta de neve durante o inverno, deixando as culturas expostas a temperaturas muito baixas, bem como períodos prolongados de seca, devido às chuvas mais baixas e menos previsíveis”, destacou.

Ajuda necessária

A IRFC e a PMA, que se esforçam para garantir a segurança alimentar da Coreia do Norte, pedem que o mundo comece a se mobilizar para ajudar o país. A Coreia do Sul já estuda formas de enviar ajuda alimentar para o Norte, o que já havia feito em 2010, quando enviou 5 mil toneladas de arroz para o país.

No entanto, a mobilização da Coreia do Sul ainda enfrenta barreiras internacionais. Isso porque o ministro das Relações Exteriores do Japão, Taro Komo, ainda enxerga com desconfiança a situação da Coreia do Norte. Para o ministro, segundo a agência Kyodo News, o envio de assistência alimentar para o país seria “prematuro”, visto que os norte-coreanos continuam desenvolvendo o programa nuclear.

Apesar da afirmação do ministro japonês, a situação alimentar da Coreia do Norte clama por urgência. Em fevereiro, o país já havia pedido ajuda à ONU diante da falta de alimentos básicos no país. Já nesta terça-feira, 14, o principal jornal norte-coreano, o Rodong Sinmun, revelou que “a água é necessária agora mais do que nunca”, destacando que as safras de alimento estão secando rapidamente.

O diretor-executivo da PMA, David Beasley, também reforçou, na última segunda-feira, 13, que a entidade está “muito preocupada” com a situação alimentar da Coreia do Norte. “Estamos avaliando a situação. Obviamente, todos sabem que houve mau tempo, secas, inundações. Houve neve ruim, houve muitas condições diferentes que afetaram a situação da segurança alimentar na Coreia do Norte”, afirmou, segundo noticiou a Yonhap.

Documentário

O documentarista britânico Michael Palin lançou, em 2017, uma série documental chamada Desvendando a Coreia do Norte, exibida pela National Geographic. Nela, Palin visita diferentes pontos no país, um dos mais fechados do mundo.

Em determinado momento, ao ser recebido em uma casa de família, Palin experimenta uma refeição. Ciente de que o país, naquela época, já enfrentava problemas com escassez de alimento, o documentarista pondera.

“Fiquei encantado por esta casa de família, mas não posso deixar de pensar que esta generosa hospitalidade é, em parte, para me dar a impressão de que a comida é abundante na Coreia do Norte”, diz Palin. O momento pode ser assistido, em inglês, no minuto 19’38” neste vídeo.

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