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'TRUMP ITALIANO'

Silvio Berlusconi está de volta

Execrado da vida política italiana, ex-primeiro-ministro se reinventa e retorna como o ‘avô da Itália’, com grande influência nas eleições deste ano

Silvio Berlusconi está de volta
Considerado o 'Trump italiano', Berlusconi não gosta da comparação com o presidente americano (Foto: Flickr)

Em uma tarde de quinta-feira, Silvio Berlusconi se acomoda na poltrona de um estúdio de televisão, se preparando para dar uma entrevista a uma das emissoras que compõem seu conglomerado de mídia. Minutos antes das câmeras começarem a gravar, um brilho maroto surge em seus olhos, enquanto ele diz aos presentes que, em seus tempos no mundo do entretenimento, as pessoas costumavam fazer sexo no chão dos estúdios.

Sim, aos 81 anos, Berlusconi está de volta, mais magro, com mais cabelo, um sorriso mais branco e pele tonificada. Mas apesar do visual de cera ele não é mais uma piada na política europeia.

Na verdade, segundo analistas políticos, ele está retornando como uma força crítica na politica italiana e, possivelmente, europeia. Talvez, seu retorno seja a única coisa certa nas conturbadas eleições italianas deste ano, previstas para 4 de março. Embora não seja candidato a primeiro-ministro (ele está impedido de concorrer até 2019 por conta de uma condenação por fraude), tudo indica que ele comandará dos bastidores os rumos da disputa.

A ressurreição de Berlusconi é um paradoxo, já que é tão surpreendente quanto esperada, se for levado em conta o eleitorado condicionado que o elegeu três vezes, apesar de tudo. Investigado por laços com a máfia, Berlusconi entrou para a política décadas atrás, para proteger seus vastos interesses comerciais. Posteriormente, ele usou seu influente conglomerado de mídia, que inclui as emissoras comerciais RAI e Mediaset, para se manter no poder.

Por anos, ele envergonhou a Itália no cenário internacional por seu apetite por mulheres mais jovens e suas escandalosas festas particulares (conhecidas como “Bunga Bungas”), que contavam com a presença de prostitutas, algumas delas menores de idade.

Mesmo assim, em uma amostra de como a política é um campo imprevisível, o magnata italiano, antes conhecido como cavaliere, conseguiu se inventar como o “vovô”, ou nonno, da nação.

Dos males, o menor

As eleições italianas frequentemente são subestimadas como a ópera cômica de um país que nunca muda. Não este ano. Com a França e a Alemanha liderando o combate à extrema direita no continente, a ascensão do imprevisível e furioso Movimento Cinco Estrelas italiano se tornou um fator preocupante. Em contraponto, comparado ao movimento, Berlusconi não parece tão ruim aos olhos da Europa.

Sendo um mestre dos negócios, astuto como todos do ramo, Berlusconi vem desempenhando o papel de estadista moderado. Ele se apresenta como um político pró-diálogo e direciona seu discurso para os italianos mais velhos, que ainda compõem um público fiel de suas emissoras.

“Ele acredita que pode se reinventar infinitamente, como é possível perceber em seu rosto”, diz Sofia Ventura, cientista política da Universidade de Bolonha, em entrevista ao Washington Post. Segundo Ventura, em tempos de incerteza política, os italianos parecem se voltar para o demônio que já conhecem. “Ele é reconfortante”, diz a cientista política.

Pessoas próximas a Berlusconi afirmam que corre nas veias do ex-primeiro-ministro um desejo por vingança. Ele quer deixar o jogo como um vencedor e derrotar os que prematuramente dançaram em cima de sua sepultura.

Auge, queda e ressurreição

Berlusconi renunciou ao cargo de primeiro-ministro da Itália em 2011, em meio a uma profunda crise econômica global e acusações de pagar por sexo com uma menor de idade chamada Karima el-Mahroug (cujo codinome é ‘Ruby, a ladra de corações’) em uma de suas festas particulares. Posteriormente, um tribunal o isentou da acusação, embora haja indícios de que ele subornou testemunhas, incluindo um pianista que participou da festa.

Em 2013, ele foi condenado por fraude fiscal e evasão de divisas em um caso envolvendo superfaturamento em valores pagos pela sua emissora Mediaset para exibir filmes importados. Por conta da idade avançada, sua sentença de quatro anos de prisão foi convertida em trabalho comunitário em um abrigo para idosos. Tais derrotas jogaram Berlusconi no abismo político e o golpe fatal foi a perda de apoio de integrantes de seu partido e de Matteo Renzi, a quem Berlusconi admirava e considerava um herdeiro. Tamanho inferno astral levou Berlusconi a operar o coração em 2016.

Mas tudo isso hoje é passado. Com ajuda de natação, ginástica e visitas a um SPA de beleza em Trentino-Alto Ádige, uma bucólica região no norte da Itália, ele ressurgiu como o gentil avô do país, um avô com uma namorada de 32 anos, meios ilimitados e um império de comunicação que o auxiliou a reconquistar antigos eleitores e se livrar da mancha na reputação gerada pelas Bunga Bungas. “Este é um país que vem dedicando pouca atenção ao amor”, disse certa vez Emilio Fede, cuja posição de âncora de jornal o permite agir como entusiasta de Berlusconi (cão de estimação, segundo críticos).

Ciente do poder da mídia, Berlusconi costuma aparecer em suas emissoras posando de amante dos animais, exibindo seus cães ou alimentando carneiros com mamadeiras. Quase todas as noites, ele aparece em programas calmamente classificando os membros do Movimento Cinco Estrelas como inexperientes e comunistas.

No final de 2016, ele teve sua esperada vingança contra Renzi, então primeiro-ministro italiano. Berlusconi foi uma voz ativa contra o referendo proposto por Renzi para reformar a Constituição. A derrota de Renzi no referendo o forçou a cumprir sua promessa de renunciar ao cargo.

Comparação com Trump

Pessoas próximas de Berlusconi acreditam que o ex-primeiro-ministro italiano pode ser uma ponte entre o presidente russo, Vladimir Putin, cuja popularidade é crescente na Itália, e o presidente americano, Donald Trump, que segue o caminho oposto.

Berlusconi é um antigo aliado de Putin, a quem no início deste ano presenteou com um edredom com a foto estampada de ambos apertando as mãos. Em contraponto, ele nunca aceitou bem as comparações com Trump, inevitáveis por se tratarem de dois empresários considerados verborrágicos e machistas.

“Obviamente, Berlusconi não gosta disso. É injusto comparar Trump a um dos mais experientes estadistas da Europa”, diz Giovanni Toti, aliado próximo de Berlusconi e chefe do governo de Ligúria, noroeste da Itália.

Alan Friedman, autor de My Way, biografia autorizada de Berlusconi lançada em 2015, afirma que ele rechaça a comparação com Trump. Em uma ocasião ele se queixou a Friedman. “Sou mais moderado que Trump”, disse Berlusconi.

De fato, ele tem mais carisma, o que o fez conquistar o apoio de moderados cansados com a indignação em torno de sua vida pessoal. Esse mesmo carisma foi usado na entrevista citada no início deste artigo. Rita Monaco, de 59 anos, que estava na plateia do programa de entrevistas disse que, embora tenha considerado desnecessária a piada sobre sexo nos estúdios, ela achou Berlusconi “positivo e otimista”. Ao que tudo indica, ele conquistou o voto dela.

Fontes:
The New York Times-Berlusconi Is Back. Again. This Time, as Italy’s ‘Nonno’

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