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MASSACRE DA PRAÇA DA PAZ CELESTIAL

Sobreviventes do Massacre escondem dos filhos suas histórias

Para proteger os filhos de represálias do governo chinês, sobreviventes do protesto na Praça da Paz Celestial optam por manter suas histórias em sigilo

Sobreviventes do Massacre escondem dos filhos suas histórias
Para os chineses, o massacre marcou o fim da esperança de mais liberdade (Foto: Catherine Henriette)

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Há 30 anos, durante um protesto na praça da Paz Celestial em Pequim, Dong Shengkun, um operário de 29 anos, jogou dois panos em chamas em um caminhão do exército. Esse ato de revolta contra o governo arruinou sua vida.

Acusado de incêndio culposo, Dong recebeu uma sentença de morte com indulto e passou 17 anos na prisão. Nesse período, seu pai morreu e a esposa pediu divórcio. Seu filho tinha apenas 3 anos quando o prenderam.

O brutal massacre de milhares de cidadãos e estudantes em Pequim chocou o mundo. Para os chineses, significou o fim da esperança de mais liberdade de expressão e de direitos civis.

A fim de proteger o filho de uma possível represália do governo por causa de seu passado, Dong preferiu que ele continuasse a pensar que havia sido um criminoso comum, detido pelas autoridades policiais.

Outros antigos presos políticos também não comentam o que aconteceu no dia 4 de junho de 1989 com os filhos por medo de colocá-los em risco.

Fang Zheng, de 53 anos, disse que não culpa Dong e outros ex-ativistas pelo silêncio em torno do massacre. Fang, que perdeu as pernas no confronto com a polícia e o exército, responsabiliza o Partido Comunista pela morte brutal de milhares de pessoas.

“O Partido Comunista criou uma geração que desconhece os acontecimentos da praça da Paz Celestial. Os livros didáticos não mencionam o evento e não existem informações nos sites censurados da internet sobre o dia 4 de junho”, observou Dong.

A repressão violenta ocorreu após semanas de protestos de cidadãos descontentes com o regime autoritário do governo chinês na praça da Paz Celestial, uma grande praça situada em frente à Cidade Proibida e ao Grande Salão do Povo – sede do legislativo chinês.

Depois de um debate acalorado entre os líderes do Partido Comunista, a opinião dos membros mais conservadores prevaleceu e os militares receberam ordens para atacar os manifestantes.

“Eu vi quando alguns estudantes tentaram subir o muro ao redor da praça para fugir e um tanque os esmagou até a morte”, disse Dong.

Em um esforço para apagar o acontecimento da memória coletiva do povo chinês, o governo reprimiu as homenagens aos mortos e feridos no massacre. Os censores trabalharam horas extras para excluir todas as informações sobre o incidente nos sites da internet. Diversos sites de transmissão ao vivo de vídeos foram proibidos de exibir seu conteúdo.

A polícia prendeu as pessoas que acenderam velas para marcar os locais onde os manifestantes morreram. Antigos ativistas foram impedidos de contatar a mídia.

Por ocasião do Shangri-La Dialogue, um fórum anual que reúne autoridades da região Ásia-Pacífico, realizado em Cingapura, em 2 de junho, o ministro da Defesa da China, Wei Fenghe, descreveu os protestos da praça da Paz Celestial como “uma turbulência política que o governo central precisou reprimir para o bem da sociedade chinesa”.

Antes de 4 de junho, Dong e seus amigos, Zhang Maosheng e Zhang Yansheng, encontraram-se em um restaurante em Pequim para homenagear os mortos no massacre e relembrar os fatos passados.

Durante os protestos, Dong e Zhang Maosheng tentaram incendiar caminhões militares, enquanto Zhang Yansheng destruiu um vídeo de um policial que mostrava civis bloqueando a passagem de veículos militares para a praça.

Assim como Dong, Maosheng recebeu uma sentença de morte com indulto e passou 14 anos na prisão. Yansheng foi condenado à prisão perpétua.

Em meio a goles de cerveja, eles concordaram que era mais prudente manter o silêncio sobre os acontecimentos na praça da Paz Celestial no ambiente ainda repressor da China atual.

“Os que têm a nossa idade ou são um pouco mais velhos têm muito medo de falar sobre o assunto”, disse Yansheng. “Os jovens, por sua vez, desconhecem o que aconteceu naquele dia. Aos poucos, as lembranças se apagam. Ainda vivemos em um regime autocrático que não respeita os direitos civis e a liberdade de expressão”, acrescentou.

Os recentes acontecimentos na China confirmam a opinião de Yansheng. Logo após a manifestação de apoio da Sociedade Marxista da Universidade de Pequim aos direitos dos trabalhadores, diversos ativistas estudantis desapareceram.

Desde agosto de 2018, as prisões de estudantes da Universidade de Pequim envolvidos em protestos de trabalhadores em diferentes lugares do país, têm sido constantes. Seis estudantes que planejavam passar o Dia Internacional do Trabalho em 1º de maio na companhia de operários da periferia de Pequim desapareceram.

O governo da China não tolera tentativas de organização de protestos ou de apoio a atividades vistas como subversivas, tanto agora quanto há 30 anos.

Fontes:
CNN-They faced down the tanks in Tiananmen Square. Now they want their children to forget it

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