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REPRESSÃO E VIOLÊNCIA

Sudão: um país à beira de um colapso humanitário

Queda de regime brutal que governou o país por 30 anos trouxe a esperança de democracia. Mas a tomada do poder pelos militares frustrou a população

Sudão: um país à beira de um colapso humanitário
Militares reprimem protestos com execuções e estupros coletivos (Foto: Ahmed Bahhar/Masarib/United Nations)

O dia 11 de abril deste ano foi uma data histórica para os sudaneses. Naquele dia, foi noticiada a queda do ditador Omar al-Bashir, após meses de protestos populares contra seu regime.

Os protestos contra Bashir tiveram início no final de 2018, tendo como estopim um aumento no preço do pão. Nos meses que se seguiram, as manifestações se alastraram como rastilho de pólvora pelo país, aumentando a pressão contra Bashir, que governava o Sudão com mão de ferro há 30 anos.

Desde que chegou ao poder, em 1989, por meio de um golpe militar, Bashir cometeu uma série de atrocidades. Ele abrigou terroristas no Sudão – entre eles, Osama Bin Laden, na década de 1990 -, liderou uma guerra civil no sul do país e enviou crianças-soldados para lutar na guerra na guerra liderada pela Arábia Saudita no Iêmen.

Ele também foi alvo de dois mandados do Tribunal Penal Internacional (TPI) por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Os mandados são referentes ao conflito de Dafur, em andamento desde 2003. A região de Dafur é alvo de disputa entre rebeldes separatistas, milícias árabes e forças do governo e, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), desde o início do conflito, 300 mil pessoas morreram e 2,3 milhões foram forçados a deixar suas casas.

Durante décadas, Bashir conseguiu se manter no poder garantindo o apoio militar e estimulando embates entre milícias de forma a prevenir uma aliança para golpe. Mas este ano sua receita falhou. Uma improvável aliança entre militares, milícias determinadas a retirá-lo do poder foi formada. Essa aliança ganhou a simpatia de manifestantes por defendê-los da repressão das demais milícias leais a Bashir. Em 11 de abril, a queda de Bashir foi concretizada.

A notícia foi celebrada pela população como o fim de uma época de autoritarismo e o início de uma era de prosperidade, democracia e governo civil. Infelizmente, não foi o que ocorreu.

Nas semanas que se seguiram à queda de Bashir, militares e milícias formaram o chamado Conselho Militar de Transição (TMC, na sigla em inglês). Os manifestantes que protestaram pela queda de Bashir decidiram acompanhar os trabalhos do conselho e manter a presença em Cartum, capital e sede do governo do Sudão, no intuito de pressionar pela transição democrática. Os protestos eram pacíficos e consistiam em acampamentos em frente ao principal quartel militar da capital.

No final de maio, o grupo paramilitar Forças de Suporte Rápido (RSF, na sigla em inglês) – um braço do TMC – anunciou que não toleraria mais desobediência civil. Na manhã de 3 de junho, o caos e a violência desenfreada tomaram a capital sudanesa. Membros da RSF invadiram o acampamento em frente ao quartel, matando a tiros manifestantes e equipes de ajuda humanitária e cometendo estupros coletivos contra manifestantes mulheres. Houve espancamento de civis e queima de tendas usadas no acampamento. O episódio de grave violação aos direitos humanos foi denunciado ao mundo em um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Pelo menos 100 pessoas morreram na invasão ao acampamento, mas o número é difícil de ser confirmado, uma vez que paramilitares jogaram alguns corpos no rio Nilo. Mais de 40 corpos foram encontrados no rio no dia seguinte ao ataque.

O massacre do dia 3 de junho marcou o fim das negociações de transição para um governo civil e o início da erosão da esperança dos que ansiavam por um governo democrático, após 30 anos de ditadura. Manifestantes anunciaram o rompimento do diálogo com o TMC e uma greve geral nas semanas que se seguiram, que foi punida com mais repressão e execuções.

Por conta do massacre, o Sudão foi suspenso da União Africana. Mas apesar de obter algum apoio internacional, a espinha dorsal dos militares se manteve intacta: o apoio dos governos do Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Esses três países se tornaram aliados cruciais do
TMC e providenciaram uma imensa assistência política e financeira para ajudar a fixar o grupo no poder.

“O eleitorado do TMC não fica no Sudão, mas sim no Cairo, em Riad e Abu Dhabi”, explicou em entrevista ao HuffPost, Alan Boswell, analista do Grupo de Crises Internacionais especializado em política do Sudão.

A crise se agravou após militares cortarem acesso da população à internet. O primeiro alvo foram as redes sociais – através das quais os manifestantes organizavam os protestos. Em seguida, o corte se estendeu a todo acesso à internet no país, forçando a população a utilizar telefones fixos que podem ser facilmente monitorados pelo governo.

O corte ao acesso da internet não tem prazo determinado e agravou a situação dos civis. Primeiro, porque impede a circulação de notícias de forma livre. Segundo, por que fez do Sudão uma ilha à parte do mundo, dando aos integrantes do TMC liberdade para cometer as maiores atrocidades, com a garantia de que elas não serão divulgadas no exterior nem seus autores punidos.

“Se ninguém pode ver o que está acontecendo, se ninguém pode provar então como os autores serão responsabilizados?”, questiona Priyanka Motaparthy, pesquisadora da Divisão de Emergências da organização Human Rights Watch.

O futuro do Sudão é incerto e sombrio e a situação pode levar o país ao colapso. Se por um lado a aliança entre milícias e militares que deu origem ao TMC promove uma repressão sangrenta, por outro o rompimento dela pode levar a uma disputa pelo poder e arrastar o país para uma guerra civil. Ambos os cenários são opostos ao sonho compartilhado pelos manifestantes no dia 11 de abril.

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