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AFEGANISTÃO

Talibã, a ameaça que permanece

Quase 17 anos após a invasão dos EUA ao Afeganistão, o Talibã está longe de ser derrotado e segue ativo em quase 70% do território do país

Talibã, a ameaça que permanece
Guerra contra o grupo já é a mais longa travada pelos Estados Unidos (Foto: Getty Images)

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Em 7 outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram uma ofensiva militar no Afeganistão em reposta aos atentados terroristas de 11 de setembro. Na época, o então presidente George W. Bush prometeu extirpar células terroristas do país responsáveis pelos ataques. Bush se referia à Al Qaeda, que orquestrou o atentado, e ao Talibã, grupo que acolheu a Al Qaeda em território afegão em 1996.

Hoje, quase 17 anos após a invasão, a meta de Bush está longe de ser alcançada e parece improvável que um dia seja. Ao contrário, a guerra no Afeganistão, a mais longa já travada pelos EUA, está se tornando a mais nova derrota americana desde que os EUA bateram em retirada da guerra do Vietnã, em 1975, impondo uma derrota histórica para Washington.

Os registros da guerra, até o momento, são sombrios para os EUA. Já foram 2.400 soldados e fuzileiros americanos mortos e cerca de US$ 17 bilhões gastos. Desde 2009, cerca de 25 mil civis afegãos já morreram em decorrência do conflito.

Mesmo diante de tais esforços, eliminar células terroristas no Afeganistão parece um sonho distante. Embora o Talibã tenha sofrido um forte golpe com a invasão de 2001 e a Al Qaeda tenha movido grande parte de suas bases para o vizinho Paquistão, ainda há células terroristas no país. A maior ameaça hoje é o Talibã, que vem ganhando território e, segundo um levantamento da BBC, se encontra ativo em quase 70% do território afegão.

Quem é o Talibã

As raízes do Talibã remetem à invasão soviética no Afeganistão, conflito travado entre 1979 e 1989, quando o país se chamava República Democrática do Afeganistão e seu então primeiro-ministro, Nur Mohammad Taraki, tinha uma relação muito próxima do Kremlin.

Em 1978, iniciou-se um governo comunista no Afeganistão, que incluía uma agenda socialista e ateísta no país e planos para fortalecer os direitos das mulheres. No entanto, tais propostas desagradavam a maioria da população afegã, na época amplamente rural e regida pela religião islâmica.

O descontentamento fez surgir os mujahedins, guerrilheiros de resistência ao avanço comunista. Esses combatentes receberam apoio bélico e de inteligência dos EUA, na época em meio à guerra fria com a URSS. O próprio Osama Bin Laden lutou contra o governo comunista e era considerado pelos EUA um “guerreiro da liberdade”, um interessante paradoxo para os dias atuais.

Em fevereiro de 1989, o Kremlin, sob o governo de Mikhail Gorbachev, ordenou a retirada das tropas do Afeganistão. O país, então, mergulhou no caos político. Em 1992, os mujahedins formaram um governo de coalizão, mas facções rivais disputavam pelo poder. Aos poucos, a facção conhecida como Talibã (nome que significa “estudantes”, em referência aos treinamentos recebidos pelos EUA) foi assumindo o comando do país, chegando ao poder em 1996.

O grupo impôs um governo linha-dura, fortemente influenciado pelo wahhabismo, a vertente mais radical do islã. Foram implementadas execuções e amputações públicas e as mulheres foram banidas da vida pública. Os homens foram obrigados a usar longas barbas e as mulheres burcas que cobriam todo o corpo. Fontes de entretenimento, como cinema, televisão e música, foram proibidas no país.

A resistência do Talibã

Mesmo diante de todos os esforços dos EUA e de seus aliados, o Talibã permanece uma força resistente no Afeganistão. Segundo o levantamento da BBC, o grupo avançou do sul, seu tradicional reduto, em direção ao leste, oeste e norte do país. Ele tem controle sobre 14 distritos (4% do país) e presença ativa e declarada em outras 263 áreas (que representam 66% do território afegão).

No fogo cruzado está a população civil. Por um lado, são vítimas dos ataques do grupo em áreas controladas pelo governo, como a capital Cabul. Por outro lado, os civis também sofrem com as contraofensivas do governo.

“Quando o governo começa a lutar contra o Talibã, estamos na linha de fogo cruzado, deixando a vida em suspenso. Está calmo no momento, mas o Talibã ainda está aqui”, diz, em entrevista à BBC, Amruddin, que comanda uma empresa de transportes em Baharak, onde o Talibã tem presença ativa.

Na capital a situação não é diferente. “Dois foguetes Talibãs caíram nos fundos do nosso jardim no mês passado. Moramos a poucos metros do escritório do chefe do distrito. Não é seguro aqui”, disse a moradora Jamila, mãe de cinco filhos, em entrevista à BBC.

Segundo um artigo da revista Foreign Affairs, outro fator que fortalece o Talibã é o fato de o governo afegão, que é apoiado pelos EUA, não inspirar confiança na população por conta de sua corrupção sistêmica, mesmo tendo o atual presidente, Ashraf Ghani, feito do combate à corrupção uma de suas promessas.

“Os esforços para derrotar o Talibã falharam por completo, em parte, porque muitos afegãos enxergam seu governo como ineficiente, corrupto, brutal, ou as três coisas. As credenciais democráticas do governo são superficiais: suas lideranças são compostas por elites, que barganham por divisão de poder e apadrinhamento. […] A propina é desenfreada. A Transparência Internacional lista o Afeganistão como um dos países mais corruptos do mundo, e quase dois terços da população acredita que o país está indo na direção errada. […] A incapacidade de combater a corrupção, estabelecer o estado de direito, prover segurança ou desempenhar funções básicas de um governo leva os afegãos a se voltarem para mandatários locais, milícias e o Talibã, comprometendo ainda mais a influência do governo”, diz o artigo.

A difícil posição dos EUA

Diante de tais reveses, os EUA vivem o dilema de sair ou permanecer no Afeganistão. A retirada das tropas do país era uma promessa de campanha do atual presidente Donald Trump, que chegou a afirmar que a presença dos EUA no país era um desperdício.

Porém, em agosto do ano passado, Trump optou pelo oposto e anunciou o envio de mais tropas ao país. Ele apresentou três motivos para a mudança de planos: honrar soldados americanos que morreram no conflito desde 2001; impedir que o Afeganistão se torne um reduto para jihadistas; e estabilizar a região do Sul da Ásia.

Entre os motivos que levam os EUA a hesitarem em deixar o país, o que essencialmente sinalizaria publicamente uma derrota, está o temor de levantar a moral dos jihadistas. Isso porque seria a segunda potência mundial derrotada no país, sendo a primeira a URSS. Tal fato teria um forte impacto psicológico nos jihadistas e poderia estimular os esforços de recrutamento e financiamento. Em contraponto, a imagem americana frente aos aliados de sua coalizão seria comprometida, já que eles seriam abandonados no país após anos de sacrifício.

Por final, outro ponto que leva os EUA a permanecerem é o fator humanitário, segundo o artigo da Foreign Affairs. A saída dos EUA facilitaria ainda mais o avanço do Talibã. “Desde a queda do Talibã, em 2001, matrículas nos ensinos fundamental e médio aumentaram continuamente por todo o país. A expectativa de vida aumentou de 56 anos, em 2004, para 60 anos, em 2010. Esse progresso poderia ser revertido se o Talibã retornar ao poder. O grupo se opõe aos direitos das mulheres, à tolerância religiosa, à educação para meninas e valores liberais democráticos em geral”, explica o texto.

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