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AUSTRÁLIA

Tolerância zero à imigração leva crianças ao suicídio

Política australiana de barrar a entrada de refugiados e mantê-los em condições decadentes em Nauru tem impactado a saúde mental de crianças em busca de asilo

Tolerância zero à imigração leva crianças ao suicídio
Longa espera e a incerteza quanto ao futuro têm causado graves danos psicológicos (Foto: Human Rights Watch)

Sajeenthana tinha 3 anos quando chegou na pequena ilha de Nauru, depois que as autoridades australianas a resgataram no mar junto com o pai, ao fugirem da repressão à revolta da minoria étnica tamil no Sri Lanka. Desde então, cinco anos se passaram.

Seu olhar é vago. Às vezes, ela bate nos adultos. E a morte é um tema recorrente em sua conversa. “Ontem cortei minha mão. Um dia vou me matar. É uma questão de tempo até encontrar uma faca. Não dou importância ao meu corpo”, disse a menina, ao ser entrevistada pelo jornal New York Times.

Assim como Sajeenthana, mais de 3 mil refugiados e requerentes de asilo foram enviados para os centros de detenção do governo da Austrália desde 2013. Nenhuma política australiana foi tão condenada pelos ativistas de direitos humanos, nem defendida com tanta veemência pelos políticos do país, com o argumento de que a prisão de contrabandistas e imigrantes combate a criminalidade.

Segundo os termos de um acordo firmado pelo ex-presidente Barack Obama com o governo australiano, que Donald Trump prometeu relutantemente cumprir, 1.250 refugiados abrigados nos campos de detenção ao longo da costa da Austrália, entre eles Sajeenthana e o pai, seriam transferidos para os EUA.

Até o momento, segundo as autoridades americanas, 430 refugiados foram levados para os EUA. Porém, o governo negou 70 pedidos de asilo nos últimos meses.

A longa espera e a incerteza quanto ao futuro têm causado graves danos psicológicos nos refugiados em Nauru. Diversas organizações humanitárias, como Médicos Sem Fronteiras, que foi expulsa de Nauru em 5 de outubro, citaram casos recentes de suicídios de crianças.

Apesar do comunicado do Ministério do Interior da Austrália sobre o atendimento médico e psicológico dado aos refugiados em Nauru, o governo foi obrigado a ceder à pressão da comunidade internacional.

Desde agosto, 92 crianças foram levadas para a Austrália a fim de receberem tratamento médico, entre elas Sajeenthana. Mas ainda restam 27 crianças e centenas de adultos em Nauru, sem uma solução de longo prazo.

Nauru é um pequeno país com 11 mil habitantes. Algumas casas com um aspecto hoje decadente ao longo da costa são uma lembrança de um passado próspero da ilha. Na década de 1970, Nauru era um país rico em fosfato, com uma renda per capita logo abaixo à da Arábia Saudita.

Hoje, devido à diminuição das reservas de fosfato, Nauru depende da ajuda financeira do governo australiano, responsável por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2017.

Um dos dois centros de detenção em Nauru abriga 160 refugiados. As centenas de outras pessoas que viviam em tendas foram transferidas para acampamentos com casas pré-fabricadas em agosto, pouco antes da realização do Fórum das Ilhas do Pacífico.

Os casos de ferimentos autoinfligidos e suicídios se tornaram mais frequentes no ano passado. Abdullah Khoder, um refugiado libanês de 24 anos, disse que a desesperança o levou a “cortar as mãos com navalhas”.

Christina Sivalingam, uma garota tamil de 10 anos, contou sua experiência ao ver o corpo de Fariborz Karami, um refugiado iraniano que se matou em junho.

“Quando saltei do ônibus escolar vi seu corpo coberto de sangue. O sangue também se espalhava pelo lugar onde se suicidara.” Seu pai tentou se matar depois que o tratamento de seu problema de tireoide foi adiado.

Beth O’Connor, uma psiquiatra que trabalha na organização Médicos Sem Fronteiras, disse que a saúde mental dos refugiados se deteriorou ainda mais após o governo dos EUA ter negado os pedidos de asilo.

Muitas crianças sofrem de síndrome de resignação, como uma reação ao trauma da vida nos centros de detenção. Elas se fecham em si mesmas, param de comer, andar e falar.

O movimento #kidsoffnauru, que reúne médicos, padres, advogados e ONGs, está pressionando o governo australiano a retirar todos os requerentes de asilo de Nauru.

Advogados da organização sem fins lucrativos National Justice Project conseguiram retirar 127 pessoas da ilha, que apresentavam sintomas de doenças físicas e mentais.

Há pouco tempo, em uma pesquisa de opinião realizada na Austrália, 80% dos entrevistados disseram que apoiavam a retirada dos refugiados da ilha. Diante de tanta pressão, em recente pronunciamento, o primeiro-ministro, Scott Morrison, disse que o problema dos refugiados seria solucionado com calma e discrição. Mas é uma promessa vaga para os que esperam há anos por uma definição de seu destino.

 

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Fontes:
The New York Times-The Nauru Experience: Zero-Tolerance Immigration and Suicidal Children

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