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No raiar da última segunda-feira, dia 11 de janeiro, o jornal berlinense Tagesspiegel chegou às tabacarias da capital alemã trazendo uma entrevista com o brasileiro José Padilha, diretor do polêmico Tropa de Elite. "Meu filme não é fascista". Este foi o título escolhido pelos editores do jornal — assim mesmo, entre aspas do próprio diretor — para apresentar um Padilha na defensiva, escaldado com aqueles que no Brasil viram seu filme como uma apologia da violência policial contra as classes populares.
Poucas horas depois de o Tagesspiegel sair das máquinas rotativas, Padilha enfrentaria sua prova de fogo. Naquela mesma manhã de segunda-feira, Tropa de Elite faria a sua estréia internacional, e não foi uma estréia qualquer. A primeira exibição do filme em terra estrangeira aconteceu na condição de participante da mostra oficial do badalado Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale — no mundo do cinema de cunho menos "hollywoodiano", uma honraria só comparada a competir nos festivais de Veneza e Cannes.
Preterido pela comissão de críticos a serviço do governo na escolha do concorrente brasileiro ao Oscar, Tropa de Elite foi visto em Berlim não como o filme pirateado que ganhou as telas e a boca do povo na base do "pega o saco!" ou do "paparapatibum", mas sim com o selo de qualidade de legítimo concorrente ao Urso de Ouro.
José Padilha falou ao Opinião e Notícia, de Berlim, onde acompanha o festival e sua própria obra junto com os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro:
- O filme foi muito bem recebido pelo público alemão e pela grande maioria da crítica estrangeira, exceto a dos Estados Unidos. Todavia, para os jornalistas norte-americanos, foi exibido com legendas em alemão e tradução simultânea, numa única voz, em headphone.
Padilha se refere ao fato de a primeira exibição do filme na Berlinale não ter sido exatamente um primor de organização. Devido a uma falha técnica, a imprensa internacional e o júri do festival, presidido por ninguém menos do que o cineasta grego Costa-Gravas, tiveram que assistir o filme sem legendas em inglês, apenas com uma tradução simultânea precária.
Mas é pouco provável que a má tradução tenha sido o motivo para a revista norte-americana de crítica de cinema Variety, por exemplo, chamar o filme de fascista, e comparar a elite da tropa da Polícia Militar do Rio de Janeiro aos integrantes da SS nazista. Na Europa, no entanto, a repercussão foi melhor.
Com base em informe da agência EFE, o espanhol El País foi enfático: "A guerra nas favelas sacode o Festival de Berlim". O jornal diz que Tropa de Elite abre o debate sobre o limite da brutalidade policial para combater o crime, e disse que o filme é "uma imersão nas guerras das favelas segundo o ponto de vista da polícia. Uma imersão na qual se fundem a denúncia e a identificação com policiais que combatem a violência com mais violência, alimentando a espiral de corrupção".
Sob o título "medo e aversão no Rio de Janeiro", o britânico Guardian considera "Elite Squad" o sucessor de Cidade de Deus — filme de 2002 dirigido por Fernando Meirelles que fez muito sucesso no circuito internacional. O jornal diz que o filme de José Padilha contém cenas de tortura e execução "aterrorizantes", e chama a atenção para o fato de que Tropa de Elite "foi o primeiro grande filme brasileiro que estabeleceu uma ligação direta entre a violência e os estudantes universitários de classe média que cultivam o hábito de fumar maconha".
Em Portugal, o Correio da Manhã destacou o pedido por legalização das drogas feito por José Padilha na entrevista coletiva que sucedeu a exibição "do violento Tropa de Elite".
A exibição do filme no Festival de Berlim repercutiu também entre os vizinhos. Pouca gente sabe, mas Tropa de Elite é uma co-produção de Brasil e Argentina. E se nas imagens da equipe do filme que são publicadas em jornais brasileiros aparecem apenas José Padilha, Wagner Moura e Maria Ribeiro, nos jornais portenhos o produtor argentino Eduardo Constantini também aparece nas fotos.
Em uma chamada que se refere ao grande prêmio da Berlinale, o Urso de Ouro, o Clarín descreve a impressão que ficou da exibição de Tropa de Elite na mostra oficial do festival: "Do Brasil, surge um grande candidato".
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