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Trump pressiona promotor que apura atuação russa nas eleições

Ao longo do fim de semana, o presidente americano disparou uma série de postagens no Twitter atacando o procurador Robert Mueller

Trump pressiona promotor que apura atuação russa nas eleições
Foi a primeira vez que Trump atacou Mueller citando diretamente o nome do procurador (Foto: Wikimedia)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou no último fim de semana os ataques ao procurador especial Robert Mueller, que lidera as investigações de um possível conluio entre republicanos e hackers russos na campanha presidencial de Trump de 2016. Na semana passada, os americanos já haviam anunciado novas sanções à Rússia pela interferência no pleito.

Trump disparou uma série de postagens no Twitter entre a noite do último sábado, 17, e a manhã do último domingo, 18, acusando a equipe de Mueller de ser “um grupo de 13 democratas linha-dura, alguns apoiadores da desonesta Hillary e nenhum republicano”.

Foi a primeira vez que Trump atacou Mueller citando diretamente o nome do procurador especial. Anteriormente, orientado pelos seus advogados, o presidente americano apenas criticava as investigações de uma forma geral, não se dirigindo diretamente a Mueller.

“A investigação de Mueller jamais deveria ter começado, porque não houve conluio nem delito. Baseou-se em atividades fraudulentas e num dossiê enganoso pago pela corrupta Hillary e pelo Comitê Nacional Democrata, e foi usado indevidamente perante os tribunais para investigar minha campanha. Caça às bruxas!”, afirmou Trump, conforme noticiou o El País.

As acusações de Trump à equipe de Mueller, no entanto, parecem incorretas. O Washington Post apontou o procurador especial como um republicano de longa data, tendo chegado ao comando do FBI em 2001 por indicação do então presidente republicano George W. Bush. Além disso, Mueller, quando já estava aposentado, foi escolhido para comandar a investigação sobre as eleições de 2016 pelo secretário-adjunto de Justiça, Rod Rosenstein, também republicano, indicado por Trump ao cargo.

As afirmações de Trump foram feitas depois que seu advogado, John Dowd, solicitou, através de um comunicado encaminhado à CNN, o encerramento das investigações sobre a possível interferência russa nas eleições.

“Rezo para que o procurador geral em exercício, Rod Rosenstein, siga o brilhante e corajoso exemplo da Agência de Responsabilidade Profissional do FBI e do procurador-geral, Jeff Sessions, e dê um fim às investigações sobre o suposto conluio com a Rússia criada pelo chefe de McCabe, James Comey, com base num dossiê corrupto e fraudulento”, afirmava a nota.

Ataque a Comey e McCabe

Além de atacar Mueller através do Twitter, o presidente americano também não poupou críticas ao ex-diretor do FBI James Comey, e seu braço direito Andrew McCabe, que são as principais fontes para uma possível acusação contra Trump por obstrução de Justiça.

“Passei pouco tempo com Andrew McCabe, mas ele nunca tomou notas quando estava comigo. Não acredito que tenha feito memorandos, exceto para ajudar sua própria agenda, provavelmente em uma data posterior. O mesmo com o mentiroso James Comey. Podemos chamá-los de Memorandos Falsos?”, questionou o presidente através do Twitter.

Comey foi retirado do cargo no FBI em maio de 2017, enquanto McCabe foi demitido na última sexta-feira, 16, horas antes de ter o direito de se aposentar mantendo todos os benefícios. Segundo McCabe, ele foi demitido por ser uma importante testemunha da possível obstrução à investigação sobre a Rússia.

“Não iremos responder a todos os tweets infantis, difamatórios, desagradáveis ​​e falsos do presidente. Toda a verdade surgirá no devido tempo. Mas os tweets confirmam que ele corrompeu todo o processo que levou à rescisão de McCabe e tornou-o ilegítimo”, afirmou, também através do Twitter, o advogado de McCabe, Michael Bromwich.

Já James Comey se pronunciou sobre o assunto ainda no último sábado, 17, também através do Twitter. “Sr. Presidente, o povo americano vai ouvir minha história muito em breve. E eles podem julgar por si mesmos quem é honorável e quem não é”, escreveu Comey. No próximo mês, Comey publicará um livro de memórias, detalhando, entre vários assuntos, suas interações com Trump e a investigação do envolvimento da Rússia nas eleições.

Contrários a Trump

Apesar do advogado pessoal do presidente americano ter solicitado o fim das investigações, os legisladores democratas e republicanos pediram para que Trump e sua equipe cooperem com as investigações.

O republicano Trey Growdy, membro do Comitê de Inteligência da Câmara, alertou Trump sobre as possibilidades de que uma possível interferência nas investigações poderia prejudicar o ano legislativo, fazendo com que fosse um “muito longo e ruim 2018”. “Se você não fez nada de errado, você deve querer que a investigação seja a mais completa possível”, disse Growdy.

Outros membros importantes e conhecidos do Partido Republicano, como os senadores Jeff Flake, Rand Paul, James Lankford, Marco Rubio e Lindsey Graham; e o líder do Partido na Câmara, Paul Ryan, também se posicionaram contrários a uma possível interferência de Trump nas investigações.

“Conversei com meus colegas. Se ele [Trump] perseguir Mueller, teremos que tomar alguma medida”, afirmou o senador do Arizona Jeff Flake em entrevista à rede CNN.

O posicionamento contrário às ações de Trump não surgiram apenas dentro do Partido Republicano. O senador democrata Richard Durbin disse, durante o programa Fox News Sunday, que o “presidente está envolvido em uma conduta desesperada e imprudente para intimidar as agências de aplicação da lei neste país e tentar parar o conselho especial”.

Ex-governador do Maine, o senador apartidário Angus King categorizou as afirmações de Trump e de seu advogado como “um grande erro”. “O presidente continua dizendo que não há história aqui, eles não fizeram nada de errado. Se eles não fizeram nada de errado, por que estão indo tão a fundo para minar a investigação, que está sendo realizada de maneira muito responsável?”, questionou King, em entrevista à rede CBS.

Entenda o caso

O procurador especial Robert Mueller foi escolhido pelo secretário-adjunto de Justiça, Rob Rosenstein, para assumir o cargo e iniciar as investigações sobre o possível conluio entre americanos e hackers russos para interferir nas eleições presidenciais de 2016. Dessa forma, o principal objetivo de Mueller é esclarecer se membros da equipe de campanha de Trump estiveram em contato direto com Kremlin, prejudicando a democracia americana.

Porém, devido a demissão do ex-diretor do FBI James Comey, em maio de 2017, uma investigação paralela foi iniciada, averiguando se o presidente americano tentava obstruir o funcionamento da Justiça. Caso a obstrução fique comprovada, segundo especialistas, há uma pequena chance de que seja iniciado um processo de impeachment contra Trump. O processo seria o primeiro da história política americana.

Fontes:
O Globo-Trump aumenta pressão sobre Mueller e preocupa partido
The Washington Post-Trump rails against Mueller investigation, dismisses McCabe’s notes as ‘Fake Memos’
El País-Acuado, Trump lança seu maior ataque contra o promotor que investiga a ‘trama russa’
CNN-As Trump lashes out at Mueller, Congress at standstill on shielding special counsel

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