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XADREZ POLÍTICO

Turquia dá a Moscou uma nova vitória contra o Ocidente

Compra de sistema antiaéreo russo pela Turquia acirra relação do país com a Otan e o Ocidente, para regozijo da Rússia

Turquia dá a Moscou uma nova vitória contra o Ocidente
Aquisição do sistema por Erdogan é mais uma vitória de Putin contra a Otan (Foto: Wikimedia)

A instável relação entre Turquia e Rússia ganhou mais um capítulo esta semana. Na última terça-feira, 12, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou que fechou um acordo com Moscou para a compra de um sistema de defesa antiaérea.

A medida é mais um passo no processo de reaproximação entre Erdogan e o presidente russo, Vladimir Putin, desde que a relação entre ambos entrou em colapso em novembro de 2015, após a Turquia abater um avião militar russo na fronteira entre os dois países.

Em contraponto, o acordo promete distanciar ainda mais a Turquia do Ocidente. Desde o início da guerra da Síria, em 2011, a Turquia se mostrou uma aliada ocidental. Porém, isso mudou após a fracassada tentativa de golpe contra o governo de Erdogan, em julho de 2016, interpretada pelo presidente turco como uma conspiração ocidental contra sua gestão. Putin aproveitou a ocasião para se reaproximar de Erdogan, e um telefonema entre os dois selou o início da retomada dos laços.

Além disso, o acordo promete gerar tensão na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar ocidental da qual a Turquia faz parte desde 1952. Isso porque a compra de armamentos russos contraria a orientação do bloco. Embora não proíba seus membros de comprar armamentos de países de fora da aliança, a Otan desencoraja a compra de armamentos considerados incompatíveis com os utilizados pelos demais membros.

“O que importa para a Otan é que todos os equipamentos usados pelos aliados sejam compatíveis para operar em conjunto. A interoperabilidade das forças aliadas é essencial para que a Otan conduza operações”, disse um membro da organização, em entrevista ao New York Times em condição de anonimato.

Há também a questão da lealdade aos fabricantes de armas que vendem para países da Otan. Desde o colapso da União Soviética (URSS), esses fabricantes advogaram pela expansão da Otan para antigos países da URSS. Depois, o bloco passou a pressionar membros antigos e novos da aliança a não comprar armas que de outros fabricantes para não prejudicar seus negócios.

Erdogan rejeitou as questões de interoperabilidade, lealdade a fabricantes e a ótica geopolítica ao decidir pela compra. Em uma entrevista dada a jornalistas a bordo de seu avião presidencial, durante o retorno de uma visita oficial ao Casaquistão, o presidente turco disse que seu país é livre para tomar as próprias decisões em relação à defesa.

“Ninguém tem o direito de discutir os princípios de independência da República da Turquia ou decisões independentes sobre seu setor de defesa. […] Tomamos as decisões sobre a nossa própria independência. Somos obrigados a tomar medidas de segurança e proteção para defender nosso país”, disse Erdogan.

A compra do sistema, conhecido como S-400, foi anunciada em julho, mas o anuncio de terça-feira foi o primeiro a apontar a conclusão da transação, confirmando que a Turquia repassou valores à Rússia referentes à aquisição. “Assinaturas foram feitas para a compra de S-400 da Rússia Um depósito também foi feito, até onde eu sei”, disse Erdogan.

Erdogan e Putin têm muito a ganhar com a retomada dos laços. Embora defendam lados opostos na guerra da Síria, (a Rússia é aliada do governo sírio; a Turquia defende sua deposição), os dois países se encontram isolados após romper com o Ocidente. Além disso, Erdogan sempre mostrou preferência pelo modelo russo de governo e por seu senso de resgate do antigo império. Erdogan cultiva a mesma aspiração. Ambos os presidentes têm inclinação ao autoritarismo e Erdogan já foi acusado de tentar reverter a democracia e laicidade que rege a Turquia há décadas.

Celebração no Kremlin

A aquisição do sistema é mais uma vitória de Putin no xadrez geopolítico com o Ocidente e em sua empreitada de minar a Otan. O Kremlin enxerga a organização com uma enorme desconfiança e vê a aproximação do bloco de suas fronteiras como uma ameaça à segurança da Rússia. Tal fato levou o país a anexar a Crimeia em 2014. Durante séculos a Crimeia foi parte da Rússia, até ser transferida para a Ucrânia em 1954, quando esta fazia parte da URSS.

A crise em relação à Crimeia começou no início de 2014, e também é parte do embate entre Rússia, Otan e o Ocidente. Em 2014, Putin conseguiu convencer o então presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, a recuar em um pacto para aproximar a Ucrânia da Europa. O pacto previa um pacote de ajuda à Ucrânia de US$ 15 bilhões, que seria somado a uma ajuda de US$ 1 bilhão, oferecida pelos EUA na época. Com a iniciativa, a Ucrânia pretendia reduzir as dívidas do país. Além disso, o pacto abria as portas para a entrada da Ucrânia na Otan.

Além do acordo, EUA e Europa iniciaram planos para reduzir a dependência da Ucrânia do petróleo russo. Cerca de 70% do gás natural usado na Ucrânia provém da Rússia, que também exporta gás para dezenas de países europeus através de dutos que cruzam a Ucrânia. Uma das medidas discutidas pelos EUA e a Europa foi ampliar a exportação de gás americano para a Ucrânia, já que na época os EUA se empenhavam na exploração de suas recém-descobertas reservas de gás xisto, algo que foi alvo de duras críticas devido ao forte impacto ambiental.

Após uma reunião, Putin dissuadiu Yanukovich do acordo o que gerou revolta na população ucraniana, especialmente entre os mais jovens, que se identificam com o estilo de vida europeu e viram no recuo de Yanukovich um indício de que, anos após a dissolução da URSS, a Ucrânia ainda continuava sob a influência russa. Uma série de protestos populares tomou a Ucrânia culminando na deposição de Yanukovich. Para não perder o porto de Sebastopol, que desde a época da imperatriz russa Catarina, a grande hospeda a frota naval russa no Mar Negro, Putin passou a incitar movimentos separatistas na Crimeia, cuja população majoritária é de ascendência russa. A medida foi bem sucedida e em 18 de março de 2014 a Rússia oficializou a anexação da Crimeia.

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