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Conhecendo a Turquia 5

Turquia, laicismo e Islã

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Como já falamos, Ataturk, o “pai dos turcos” — título exagerado, mas que na verdade é o pai da Turquia moderna — teve como ponto chave de seu programa criar uma nação laica, distanciada dos dogmas do islamismo. Ele tinha sido bem-sucedido até agora. Recentemente, um partido islâmico ganhou as eleições e pela primeira vez em muito tempo o premier é um crente do Corão como sistema de governo. A “shária”, esse sistema que leva outros países como a Arábia Saudita a condenarem à morte por apedrejamento a mulher adúltera, entre outros exemplos de como obedecer ao livro santo, de repente ameaça essa república que havia se distanciado da religião há oitenta anos.

Andando por Istambul a gente vê poucas mulheres usando o véu que simboliza a obediência ao Corão. Já na Capadócia, correspondente talvez ao nosso nordeste em termos econômicos e culturais, a maioria das mulheres do povo o usa. Nosso guia de turismo na região, ele mesmo um rapaz moderno , que está para se casar com uma engenheira, comentou conosco ironicamente ao ver passar uma mulher usando o véu: “Essa vota no partido islâmico”. Parece ficar patente um fosso entre a elite instruída e o povo semi-analfabeto e crédulo.

Esse fosso fica confirmado ao lermos o livro “Istambul – Memória e cidade”, do autor turco Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de literatura de 2006, publicado no Brasil em 2007 pela Companhia das Letras. O livro é muito bom, recomendo sua leitura para quem pretende ir conhecer a Turquia. No capítulo 20, “Religião”, ele fala da sua relação com Deus e a religião na infância, acho que nos anos 50 e 60. Segundo ele, na sua família de classe média a religião, e a crença em Deus, eram vistas como coisa da classe pobre, ignorante. O hábito de cinco vezes por dia a pessoa se pôr de quatro no chão, bater a cabeça no solo cinco vezes, e durante dez a quinze minutos recitar trechos do Corão era visto como digno de pena: era o que fazia a sua cozinheira. Acontece que a classe da cozinheira é maioria no país e o sonho da república laica corre perigo de ser submerso no oceano da ignorância e credulidade.

Outra coisa que Pamuk nos conta nesse livro são os acontecimentos ligados à Ilha de Chipre em 1955. Essa ilha no Mediterrâneo, entre Grécia e Turquia, era povoada, na parte oeste, predominantemente por gregos, e na parte leste principalmente por turcos. A Inglaterra tinha ocupado a ilha durante um bom tempo para assegurar a paz entre os dois povos. Em 55 a Inglaterra ia se retirar, e estava convencionado que a Grécia assumiria o país. É bom lembrar: estamos falando de 1955, ano em que Juscelino Kubitschek assumiu a presidência o Brasil e decidiu construir Brasília. E dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Não é a pré-história: dependendo da idade do leitor, ele ou já tinha nascido ou seus pais já tinham nascido.

Segundo Pamuk que, lembrem-se, é um autor turco, na noite em que isso estava acontecendo um agente do serviço secreto turco jogou uma bomba na casa em que Ataturk havia nascido, na cidade grega de Salonika. O fato foi, naturalmente, atribuído aos gregos. (Faz lembrar o episódio da bomba do Riocentro, no Rio dos anos 70 ou 80, em que radicais do exército tentaram explodir uma bomba que seria atribuída a extremistas de esquerda). O episódio, alimentado pelos jornais, levou a uma reação de ódio de turcos contra gregos. Durante dois dias, em Istambul, lojas e casas de não-muçulmanos foram saqueadas e incendiadas, pessoas foram mortas, mulheres foram estupradas. Um verdadeiro “pogrom”, um tanto distanciado no tempo daqueles em que russos ou poloneses saiam matando judeus. Segundo o autor do livro, o governo foi conivente com tudo isso. Por quê? Para justificar a manutenção da presença da Turquia em Chipre. Assunto que gera polêmica até hoje, dificultando a entrada da Turquia na União Européia, já que ela tem uma presença militar em Chipre que não é aceita pela União. Nos anos seguintes muitos milhares de cristãos ortodoxos de origem grega fugiram da Turquia.

O ódio entre turcos e gregos vem de tempos imemoriais. A Ásia Menor, o que representa mais de 90% do território da Turquia de hoje, teve invasões gregas na antiguidade. No tempo do Império Bizantino a região era vassala do Império. Quando da ascensão do Império Otomano foi a vez da Grécia, e toda da região dos Bálcãs (Iugoslávia e vizinhos) ser vassala dos turcos. Episódios sangrentos, de matanças e estupros não faltam, dos dois lados.

Leia toda a série Conhecendo a Turquia:

Conhecendo a Turquia

Istambul – informações gerais

Istambul – Os passeios

Capadócia


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