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À beira da guerra civil

Ucrânia: da Revolução Laranja ao vermelho-sangue

Onda de violência causou mais de 60 mortes e deixou mais de 500 pessoas feridas em apenas dois dias. Manifestantes mantém 67 policiais reféns

Ucrânia: da Revolução Laranja ao vermelho-sangue
Praça da Independência, local de um dos principais acampamentos de manifestantes, se transformou em cenário de guerra (Reprodução/NYT)

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Como é que a Ucrânia, que até recentemente almejava adesão à União Europeia, se transformou em uma zona de guerra? O país vive sua pior onda de violência em 22 anos de independência. Uma trégua acordada entre o governo e membros da oposição nesta quarta-feira, 19 de fevereiro, foi rapidamente desmantelada. O Ministério da Defesa já fala em usar as Forças Armadas. Se a Ucrânia virar palco de uma guerra civil, como muitos temem, ameaçará a segurança em grande parte da Europa.

Somente nos últimos dois dias, a onda de violência já causou mais de 60 mortes e deixou mais de 500 pessoas feridas. Nesta quinta-feira, 20, homens armados romperam o cordão policial na Praça da Independência e sequestraram 67 agentes, que estão sendo mantidos reféns pelos manifestantes. O prefeito de Kiev, Volodimir Makeienko, abandonou o partido do presidente, acusando-o de promover um “banho de sangue”.

Leia também: Por que os protestos na Ucrânia são o pior pesadelo de Putin

Apenas um dia antes de Kiev se transformar em um campo de batalha, parecia que um impasse de três meses entre manifestantes e o governo do presidente Viktor Yanukovych estava chegando ao fim. O governo havia concordado em anistiar manifestantes, que, por sua vez, começaram a desmantelar suas barricadas e deixar os prédios públicos que haviam ocupado. Yanukovych e a oposição falavam em um governo de coalizão e no retorno à Constituição de 2004, que limitava os poderes presidenciais. O mundo deu um suspiro de alívio. Menos de 24 horas depois, no entanto, o acordo – e partes do centro de Kiev – estavam em chamas.

Em 18 de fevereiro a tropa de choque invadiu a Praça da Independência (Maidan ), local de um dos principais acampamentos de manifestantes desde dezembro. Policiais lançaram granadas reforçadas com pregos e parafusos, e manifestantes responderam com coquetéis molotov. Autoridades usaram munição de verdade, e dezenas de pessoas, incluindo dez policiais, morreram. Centenas ficaram feridas.

Do laranja ao vermelho

De todas as ex-repúblicas soviéticas que ganharam a independência em 1991, a Ucrânia foi sem dúvida a mais passiva. Foi também uma das mais ricas. Ao contrário dos países bálticos da Estônia, Letônia e Lituânia, a Ucrânia nunca lutou por sua soberania e não soube usar seus novos poderes de autodeterminação para transformar-se em um Estado moderno. Em vez disso, as elites interpretaram a independência como um direito de saquear o país sem ter de compartilhar os lucros com ninguém.

Para agravar o problema, o país é profundamente dividido entre o leste industrializado e a Criméia, onde a população fala russo, e o oeste, de espírito nacionalista, que fazia parte da Polônia e Áustria-Hungria até ser anexada por Stalin como parte de um pacto de não-agressão com a Alemanha nazista, em 1939. O que manteve o país unido foi Kiev, reconhecida por todos como a capital.

As sementes da crise atual foram plantadas pelo próprio presidente Yanukovich. Em 2004, ele tentou roubar a eleição presidencial, mas foi impedido por protestos em massa que alçaram seus adversários, Viktor Yushchenko e Yulia Tymoshenko, ao poder. Aquela onda de protestos, mais conhecida como a Revolução Laranja, terminou de forma pacífica quando o antecessor e apoiador de Yanukovych, Leonid Kuchma, recusou-se a usar a força contra os manifestantes.

No entanto, tamanhas eram as falhas de Yushchenko e sua equipe que em 2010 o país elegeu democraticamente Yanukovych como seu presidente. Yanukovych aproximou-se da Rússia e do sistema de governança do Kremlin, prendeu Tymoshenko e desviou dinheiro para as mãos de sua família e amigos íntimos.

Ruptura com a União Europeia

Desviando o olhar das falcatruas, os líderes da União Europeia começaram a negociar com Yanukovych um acordo de livre-comércio destinado a aproximar a Ucrânia da Europa. Mas Yanukovych usou as negociações para extrair dinheiro e garantias políticas da Rússia, que por sua vez aproveitou a oportunidade para reforçar seu domínio sobre a Ucrânia, chamada a participar de uma união comercial com Rússia, Belarus e Cazaquistão. Depois de uma reunião secreta com Vladimir Putin, que prometeu gás barato, uma linha de crédito de US$ 15 bilhões e nenhuma pergunta incômoda sobre direitos humanos, Yanukovych abandonou o acordo com a UE.

Quando algumas centenas de pessoas, a maioria estudantes, foram às ruas para protestar contra esta inversão de rumos, Yanukovych seguiu seu instinto para lidar com eles (e, talvez, os conselhos de seus patronos no Kremlin): enviou tropas para espancá-los. No dia seguinte, horrorizados com tamanha violência, centenas de milhares de ucranianos se reuniram na Praça da Independência. De repente, a questão principal não era mais o abandono do acordo de livre comércio com a UE ou uma união aduaneira com a Rússia. Tratava-se de uma escolha existencial entre um sistema de governo pós-soviético corrupto e autoritário e um europeu. Os atuais protestos representam uma ameaça mais séria ao Kremlin do que qualquer acordo com a UE. Os habitantes de uma ex-república soviética eslava estão tentando livrar-se do seu legado soviético, na medida em que a própria Rússia aperta seus parafusos.

Fontes:
The Economist - Europe´s New Battlefield

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1 Opinião

  1. jomabastos disse:

    Os reféns já foram libertados.
    A UE já congelou todos os bens dos oficiais do poder corrupto além de promover outras sanções aos mesmos.

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