Início » Vida » Ciência » Um acelerador de partículas no Oriente Médio
PROJETO SESAME

Um acelerador de partículas no Oriente Médio

Um centro de pesquisa e tecnologia avançada na Jordânia uniu países islâmicos e Israel no desenvolvimento de um acelerador de partículas

Um acelerador de partículas no Oriente Médio
O acelerador de partículas Sesame fica em Amã, na Jordânia (Foto: YouTube)

As colinas a 30 km a noroeste de Amã, capital da Jordânia, abrigam um milagre da diplomacia científica, o Sesame – Luz Síncroton para a Ciência Experimental e Aplicações no Oriente Médio. As propostas para construir o acelerador de partículas síncroton mais frágil do mundo do ponto de vista político, foram discutidas há quase 20 anos. A demora é compreensível. Israel, Irã e a Autoridade Palestina, três dos nove membros do projeto, têm uma história de conflitos e não de cooperação. A Turquia não reconhece o Chipre, mas ambos trabalharam juntos no projeto do acelerador. Assim como a Jordânia, Bahrein, Egito e Paquistão.

No entanto, apesar das longas discussões sobre a viabilidade do projeto, o Sesame iniciará suas atividades em breve. Os primeiros elétrons devem terminar as voltas iniciais em torno do tubo circular com 133 metros de circunferência este mês.

A luz síncroton que acelera elétrons é uma versão menor do Grande Colisor de Hádrons (LHC), construído perto de Genebra, cujo objetivo principal é obter dados sobre colisões de feixes de partículas de prótons. Em vez de investigar as fronteiras da física, os elétrons pesquisam a estrutura de materiais. Dispostos em círculo por ímãs gigantescos, os elétrons que giram em torno deles emitem uma radiação, que varia na frequência do infravermelho aos raios X.

Essa radiação pode ser usada para examinar uma ampla gama de materiais desde metais a tecidos biológicos. A radiação síncroton é mais intensa do que outras fontes disponíveis, o que permite que os pesquisadores coletem dados com mais rapidez e de amostras menores. A radiação também pode penetrar com mais profundidade na matéria e solucionar pequenos detalhes.

Existem cerca de 60 aceleradores de partículas síncroton no mundo, mas o projeto Sesame é pioneiro no Oriente Médio. Essas máquinas são extremamente caras, mas o Sesame teve um custo menor do que a maioria dos outros aceleradores de partículas.

O projeto tem uma longa história. Há mais de 25 anos, um vencedor do prêmio Nobel de Física, Abdus Salam, propôs a construção de um acelerador de partículas síncroton no Oriente Médio. Em 1997, os físicos Herman Winick e Gustav-Adolf Voss sugeriram a transferência de um acelerador de partículas construído em Berlim para o Oriente Médio. O acelerador BESSY I seria desativado e substituído por outra máquina. Poderia, então, ser utilizado em outro lugar.

Mas em 2002, a sugestão de construir um acelerador de partículas síncroton mais potente no Oriente Médio superou a ideia de Winick e Voss. No entanto, BESSY I foi incorporado à máquina do Sesame, para dar um impulso inicial aos elétrons antes de serem acelerados até a energia total no anel principal. Essa reutilização do BESSY I economizou, segundo o físico britânico Sir Christopher Llewellyn Smith, presidente do Sesame, cerca de $4 milhões no custo do projeto. Os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, Itália e Suíça também doaram componentes de aceleradores de partículas síncroton desativados.

Apesar do custo menor, a arrecadação de recursos em  uma região marcada por conflitos não foi uma tarefa fácil. Os nove países envolvidos na construção do Sesame concordaram em fazer contribuições anuais de diferentes níveis. Os bancos recusaram-se em administrar as contribuições do Irã, com receio das sanções dos EUA. No total, os líderes do projeto contribuíram com US$48 milhões.

A União Europeia (UE) colaborou com mais de US$10 milhões, usados em parte pelo Centro de Pesquisas Nucleares da Europa (CERN), responsável pelo funcionamento do LHC, para projetar e supervisionar a construção do sistema de magnetismo do Sesame.

E, em um esforço para reduzir os custos de funcionamento, os países líderes do projeto pretendem construir uma usina de energia solar para fornecer eletricidade ao síncroton. Assim, o Sesame seria o primeiro acelerador de partículas a funcionar exclusivamente com energia renovável.

Os pesquisadores dão tanta importância à radiação produzida pelos síncrotons que viajam pelo mundo para fazer pesquisas em aceleradores de partículas. Mas para os cientistas do Oriente Médio os problemas com vistos dificultavam e, em alguns casos, impossibilitavam as viagens. Agora, com o acelerador de partículas síncroton na Jordânia os inconvenientes dos controles de imigração ocidentais os afetarão menos e a colaboração entre eles será maior.

Fontes:
The Economist-A particle accelerator in the Middle East

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Markut disse:

    Esse surpreendente conluio entre Israel e alguns paises árabes serve para mostrar o quanto há de misterioso nesse affair do Oriente Médio. Teria algo a ver com o desenvolvimento dos modais energéticos, hoje disponiveis, e a provavel consequência da queda dos preços do petróleo, resultante da sua decrescente importância como essencial combustivel da máquina industrial do mundo globalizado?
    É de se notar que energia solar e eólica estão se tornando cada vez mais competitivas e esta aventura Sésamo , esse fruto dificil de abrir, poderá revelar segredos que deverão mudar a face do planeta.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *