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Legado de Francisco

Um papa com influência muito além da religião

Muito além do catolicismo, o Papa Francisco fala sobre política, meio ambiente e tabus morais

Um papa com influência muito além da religião
O papa também foi responsável pela encíclica em prol do meio ambiente (Foto: Wikimedia)

Desde 2013, quando assumiu o mais alto cargo da Igreja Católica, o Papa Francisco vem gerando diversas polêmicas por tocar em assuntos delicados e por dizer coisas que não eram bem vistas pela instituição. Além dos temas tradicionalmente associados à religião, o Papa Francisco fala sobre política, meio ambiente e tabus morais. Durante visita a Bolívia, na última quinta-feira, 9, ele tomou chá de coca e pediu desculpas pela cumplicidade da Igreja Católica na opressão da América Latina durante a era colonial.

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“Eu digo isso com pesar: muitos pecados graves foram cometidos contra os nativos da América em nome de Deus”, disse. “Eu, humildemente peço perdão, não só pela ofensa da igreja por si só, mas também pelos crimes cometidos contra os nativos durante a chamada conquista da América”, acrescentou.

Francisco é o primeiro papa latino-americano, e seu pedido de desculpas vem no momento em que ele tenta posicionar a igreja como um refúgio, além de defender os pobres e os desfavorecidos de seu continente nativo. Em 2000, João Paulo II fez um pedido de desculpas generalizado em nome do Vaticano, pedindo perdão para os judeus, as populações étnicas em diferentes continentes e outros grupos. A desculpa de Francisco, por sua vez, foi específica, além de ter sido feita em solo boliviano.

Casos de pedofilia

Em junho, o papa criou novos tribunais para julgar a negligência de bispos em casos de abuso sexual. Aqueles que fossem acusados de acobertar ou de falhar ao prevenir abuso sexual de crianças estariam sujeitos ao novo tribunal do Vaticano. Apesar de a  igreja já ter procedimentos jurídicos para julgar padres acusados de abuso, a maioria dos bispos acusados de negligência ou encobrimentos nunca foi responsabilizada. Segundo o plano de Francisco, as denúncias serão investigadas pela primeira vez pelas congregações a que os bispos pertencem. Em seguida, eles serão julgados pela Congregação para a Doutrina da Fé, que já analisa todos os casos de sacerdotes acusados de abusar de menores.

Segundo o Guardian, no próximo sábado, 11, o primeiro representante de alto escalão da igreja acusado de pedofilia vai enfrentar este novo tribunal, em um teste sem precedentes do compromisso de Francisco de combater o legado da igreja em relação à violência sexual contra crianças. O julgamento do ex-núncio Józef Wesołowski, da Polônia, marca a primeira vez que a igreja usa o sistema de justiça criminal, posto em prática pelo pontífice argentino para lidar com casos de má conduta clerical. Alegações de que Wesołowski pagou jovens garotos por atos sexuais enquanto ele era o principal diplomata do Vaticano na República Dominicana abalou a Santa Sé quando a história veio à tona há dois anos.

Meio ambiente

O papa também foi responsável pela primeira encíclica (uma carta de ensinamento aos católicos) da igreja em prol do meio ambiente. Encíclicas costumavam ser cartas aos bispos, mas se tornaram missivas para todos os católicos. A última, no entanto, parece abordar a humanidade em geral. Embora a encíclica cite muitas das ideias verdes da igreja, ela evita falas teológicas sobre o pecado e usa fontes não religiosas.

Reaproximação histórica

A reaproximação entre dois inimigos históricos, Estados Unidos e Cuba, também contou com um empurrão do papa. Em um discurso, o presidente americano Barack Obama chegou a agradecer ao papa por estimular as conversas entre os dois governos, que no próximo dia 20, vão abrir suas embaixadas.

Ciência

Em outubro de 2014, o Papa Francisco declarou acreditar nas teorias da evolução e do Big Bang. “A teoria do Big Bang não contradiz a intervenção do criador divino, mas sim o exige”, afirmou. Ainda de acordo com Francisco, “a evolução na natureza não é incompatível com a noção de criação, pois a evolução exige a criação de seres que evoluem”. A afirmação foi inusitada, já que por muitos séculos a Igreja Católica ostentou uma reputação “anti-ciência”.

Trégua em prol da paz

Em junho de 2014, Mahmoud Abbas, presidente da Palestina, e Shimon Peres, ex-presidente de Israel (que na época, ainda exercia seu mandato) se reuniram com o papa, atendendo ao pedido feito por ele, para orar pela paz no Oriente Médio. O encontro sem precedentes aconteceu nos jardins do Vaticano, considerado um local neutro por ser ao ar livre e não ter imagens nem símbolos religiosos. A cerimônia foi dividida em três atos, em cada um deles foram feitas orações judaicas, cristãs e muçulmanas.

Tabus da igreja

Em setembro de 2013, em sua primeira entrevista após completar seis meses de papado, Francisco declarou que a Igreja se tornou obcecada com a pregação contra o aborto, o casamento gay e os anticoncepcionais. Falando de maneira franca, Francisco disse que a Igreja Católica deve ser uma “casa para todos” e não uma “pequena capela” focada na doutrina, na ortodoxia e em uma agenda limitada de ensinamentos morais.

Em julho de 2013, no voo de volta a Roma, o Papa Francisco concedeu uma longa entrevista a jornalistas a bordo e declarou que os homossexuais devem ser integrados à sociedade e não marginalizados. “Se a pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?”, declarou.

 

 

 

 

Fontes:
The New York Times-In Bolivia, Pope Francis Apologizes for Church’s ‘Grave Sins’
The Guardian-First Vatican child abuse trial places former nuncio in dock
O Estado de S. Paulo-Papa pede perdão por crimes da Igreja contra indígenas na conquista da América

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