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ANÁLISE DA CRISE

Venezuela: o que deu errado?

Entenda como um país tão rico em petróleo mergulhou em uma crise tão profunda

Venezuela: o que deu errado?
A Venezuela já foi o país mais abastado da América do Sul (Foto: Flickr/Hugo Lodoño)

Chanceleres de seis países do continente americano aproveitaram a Assembleia Geral da ONU, iniciada esta semana, para chamar atenção para a crise econômica e humanitária na Venezuela.

Segundo noticiou a AFP, representantes de Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru enviaram uma carta à promotora do Tribunal Penal Internacional, Fatou Bensouda, pedindo a investigação do governo de Nicolás maduro por crimes contra a humanidade e exigindo a punição dos responsáveis.

A carta tem como base dois relatórios, um da Organização dos Estados Americanos (OEA) e outro do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnur), que apontam para a violação dos direitos humanos na Venezuela.

A preocupação em torno da crise na Venezuela vem aumentando nos últimos anos, especialmente entre países vizinhos, após o fluxo de migrantes venezuelanos que fogem da crise disparar nos últimos meses. Segundo a última estimativa da ONU, em junho, havia cerca de 2,3 milhões de venezuelanos vivendo no exterior. Nove entre dez buscavam asilo em países da América Latina, em especial Equador, Peru, Colômbia e Brasil.

No entanto, uma questão paira em diversos debates sobre o tema: como um país tão rico em petróleo mergulhou em uma crise tão profunda e, aparentemente, sem vislumbre de saída? Para analisar isso, é preciso se aprofundar na história recente da Venezuela.

O passado abastado

Por mais incrível que hoje isso possa parecer, a Venezuela já foi o país mais abastado da América do Sul, com acesso abundante a bens de consumo e os maiores salários do continente. De acordo com o site Conversation – um portal independente dedicado a pesquisas acadêmicas –, entre 1958 e 1977, o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 250%.

O motor propulsor desse crescimento foi o petróleo, uma vez que a Venezuela é dona da maior reserva de petróleo do mundo. Graças a essa fonte de renda o país conseguiu manter a harmonia social calcada em amplos gastos em programas sociais. Diante dessa harmonia, o governo falhou em não diversificar ou investir em novas fontes de receita para além do petróleo.

No entanto, o irromper da crise do petróleo começou a afetar essa fase próspera ainda durante a década de 1970, e alterou dramaticamente o cenário após o colapso no preço do recurso durante a década de 1980. A economia começou a contrair e o país experimentou uma inflação que variou de 6% a 12%, entre 1982 e 1986.

Em 1989, a inflação chegou a exorbitantes 81%. Diante disso, o então presidente Carlos Andrés Pérez impôs um severo programa de austeridade, que cortou subsídios e elevou o preço da gasolina e, por consequência, das tarifas do transporte público. A população reagiu e foi às ruas, entre os dias 27 e 28 de fevereiro, em um protesto batizado de “Caracaço”. Para controlar a situação, Pérez acionou as forças militares, resultando em cerca de 300 manifestantes assassinados.

A ascensão de Hugo Chávez

Na década de 1990, já na gestão de Rafael Caldera Rodríguez (1994 a 1999), o PIB tornou a se expandir, mas os salários continuavam baixos e a inflação alta – esta última chegando ao auge de 100% em 1996. Tal cenário fomentou a indignação popular.

Foi nesse contexto que Hugo Chávez, um ex-militar fascinado pelo nacionalismo, chegou ao poder, com a promessa populista de uma agenda política patriótica – regime que posteriormente ganhou o nome de “chavismo”.

Quando Chávez chegou ao poder, a Venezuela enfrentava uma crise econômica, mas ainda era um país abastado e as finanças do governo, bem como as instituições, estavam funcionando.

Para reduzir a pobreza e a desigualdade, Chávez implementou uma série de medidas. O governo passou a controlar os preços de produtos básicos (como farinha, óleo de cozinha e produtos de higiene) para torná-los mais acessíveis. Em contraponto, isso minou a rentabilidade das empresas produtoras, que acabaram por encerrar a produção. Para substituí-las, Chávez passou a importar produtos básicos.

No início da década de 2000, Chávez também implementou um controverso sistema de controle de dólares que visava impedir a troca de bolivares pela moeda americana – uma tendência que começava a crescer – o que deu início a um mercado negro de dólares.

Apesar disso, o governo Chávez de fato conseguiu reduzir a pobreza, amparado na boa fase do petróleo, que na época chegou a ser cotado em US$ 100 o barril – essa boa fase também impulsionou a economia do Brasil.

No entanto, novamente o governo venezuelano não aproveitou a boa fase para diversificar sua fonte de receita e o petróleo continuou respondendo por cerca de 95% das receitas de exportação do país. Metaforicamente falando, os gastos públicos passaram a ser como móveis novos sendo postos em uma casa de infraestrutura comprometida, que um dia, fatalmente, iria cair.

A explosão da crise

Foi o que aconteceu em 2013, já na gestão de Nicolás Maduro – que assumiu o poder após a morte de Chávez naquele ano. A economia venezuelana começou a entrar em crise após a descoberta de vastas reservas de gás de xisto nos Estados Unidos que colocaram o país às portas de ser o maior produtor mundial de petróleo em 2020, segundo um artigo da revista Foreign Policy.

A descoberta das reservas desencadeou uma disputa com países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que reagiram aumentando a produção do recurso. A ampla oferta de petróleo no mundo fez o preço do barril despencar, o que afetou gravemente economias dependentes de petróleo, como Brasil, Rússia e Venezuela.

Somado ao colapso no preço do petróleo, está a total incapacidade de gestão de Maduro, que passou a atuar como um ditador, perseguindo a oposição e elevando o controle do governo. Maduro tentou contornar a crise com ações populistas e ineficazes.

Ele aumentou o salário mínimo e imprimiu mais dinheiro para reduzir a pobreza, mas isso acabou por elevar ainda mais a inflação, o que minava o poder de compra da população, mesmo com o reajuste salarial. Outra “fórmula mágica” de Maduro para a crise foi cortar cinco zeros do bolivar, rebatizar a moeda de “bolivar soberano” e criar uma criptomoeda chamada El Petro, sustentada pelas reservas de petróleo, gás, ouro e diamantes do país.

No entanto, nenhuma dessas medidas foi capaz de conter a crise. A escassez de produtos de necessidade básica (como alimentos, medicamentos e produtos de higiene) se agravou e cortes de energia passaram a ser frequentes, afetando residências, estabelecimentos e hospitais.

O agravamento da crise migratória

Com o avanço da crise econômica, cada vez mais venezuelanos passaram a viver em situação de miséria, muitos revirando lixo em busca de alimentos. Para fugir dessa situação, muitos começaram a cruzar a fronteira em direção a países vizinhos, como Brasil, Colômbia e Equador. Muitos dos que decidiam deixar a Venezuela são mulheres grávidas em busca de um lugar seguro para darem a luz e vacinarem seus bebês.

No entanto, a migração não dá garantias de uma vida melhor ou recepção acolhedora. Em um episódio ocorrido no Brasil, por exemplo, moradores de Pacaraima (RR) invadiram abrigos e queimaram pertences de imigrantes. O episódio levou a ONU a pedir mais apoio aos imigrantes venezuelanos.

Atualmente, a inflação prevista para este ano na Venezuela é de um milhão por cento e US$ 1 custa 284 mil bolivares, segundo projeções oficiais. A crise fez saltar a violência no país e muitos venezuelanos têm optado por transações financeiras virtuais ou bitcoins para evitar sair de casa com o montante exorbitante de dinheiro necessário para a compra de produtos simples – uma xícara de café, por exemplo, custa cerca de dois milhões de bolívares. Tal crise não dá indícios de que vai acabar tão cedo e alguns países já consideram a intervenção estrangeira na Venezuela.

 

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1 Opinião

  1. Eduardo Calixto disse:

    Macro economicamente bem diferente do Brasil.
    Na administração das finanças públicas, a depender do próximo governo, temos algum norte.
    Mas politicamente, corremos riscos imediatos tanto pela Direita como pela Esquerda.
    Vai que Bolsonaro se empolga…
    Vai que o Lulahaddad também se empolga…
    Dois lados de uma mesma moeda.
    Que as nossas instituições nos protejam.

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