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CENÁRIO CRÍTICO

Venezuela, onde a pasta de dente é um produto de luxo

Queda brusca no poder de compra leva alguns venezuelanos a racionar até mesmo pasta de dente

Venezuela, onde a pasta de dente é um produto de luxo
Escassez deixa prateleiras vazias e faz disparar o preço dos produtos (Foto: Wikimedia)

Cinco anos atrás, quando Hugo Chávez ainda era vivo, a Venezuela era um lugar muito diferente. Naquela época, Ana Margarita Rangel costumava ir ao cinema, à praia e comprar os ingredientes que precisava para fazer um bolo. Mesmo dois anos depois, quando o país começou a entrar em crise, ela ainda tinha verba para lazeres ocasionais, como sair para tomar um sorvete ou refrigerante.

Hoje, a situação é bem diferente. Rangel, que trabalha em uma loja de cosméticos, usa toda sua verba para comprar comida. Seus sapatos estão gastos e esburacados, mas ela não tem dinheiro para comprar novos. Um tubo de pasta de dente vale metade do que ela ganha em uma semana de trabalho.

“Eu sempre adorei escovar os dentes antes de dormir. Aliás, essa é a regra, correto? Agora, preciso escolher, então, escovo os dentes de manhã”, disse Rangel, que vive em uma favela de Caracas.

Rangel ganha salário mínimo, assim como 32% dos trabalhadores venezuelanos, segundo os números oficiais mais recentes. O salário costumava ser o suficiente, mas diante de uma inflação de 700% ao ano e a constante escassez de alimentos e medicamentos, essa realidade mudou. Hoje, um salário mínimo consegue comprar somente um quarto da comida necessária para alimentar por um mês uma família de cinco pessoas.

No dia 1º de julho, o presidente Nicolás Maduro anunciou um aumento de 50% no salário mínimo, que passou a valer 97.531 bolívares (cerca de US$ 37). Somado a isso, ele aumentou o vale alimentação que complementa o salário para 153.000 bolívares (US$ 58). Com isso, a renda mínima da população ficou em 250.531 bolívares (US$ 95).

O aumento visava conter o avanço da pobreza no país, que desde 2014 viu saltar de 48% para 82% o número de famílias em situação de pobreza. Porém, a contração na economia, que já encolheu 24,5% nos últimos três anos, fez o poder de compra das famílias gerado pelo aumento salarial se esvair logo após o anúncio.

E a escassez fez disparar o preço dos produtos. Atualmente, um quilo de arroz custa cerca de 11.000 bolívares; um litro de óleo custa 20.000 bolívares; e um tubo de pasta de dentes custa 11.500 bolívares. Se comprar os três produtos, um venezuelano terá gastado quase metade do salário.

Tal fato torna supérfluo tudo que não for item básico para a sobrevivência. Rangel, por exemplo, aprendeu a cortar itens. “Nós costumávamos tomar suco junto com as refeições, algo que sinto muita falta. E chocolate, não podemos mais tomar uma xícara de chocolate ou café no caminho para o trabalho”, diz Rangel.

Para Rangel, os dias de churrasco com os vizinhos são parte do passado. Ela afirma não ter sequer mais vontade de encontrar os amigos. “Sempre acabamos falando de tudo aquilo que não podemos mais ter”.

Em vez disso, ela prefere se refugiar em programas televisivos. Um deles é o Keeping up with the Kardashians, um reality show que narra a vida de uma família de socialites americanas. “Eu amo assistir as Kardashians porque mostra como as pessoas que têm tudo vivem. E por um momento você esquece como a sua vida é”, diz Rangel.

Fontes:
The Washington Post-Things are so bad in Venezuela that people are rationing toothpaste

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