Início » Economia » Venezuela sofre com a desvalorização histórica do bolívar
ECONOMIA EM PEDAÇOS

Venezuela sofre com a desvalorização histórica do bolívar

Moeda venezuelana está tão desvalorizada que é recusada até por assaltantes e população opta por transações em dólares no mercado negro

Venezuela sofre com a desvalorização histórica do bolívar
Calcular o real preço dos produtos na Venezuela é uma tarefa difícil (Foto: Flickr/Meridith Kohut)

Quando o engenheiro venezuelano Pedro Venero sofreu um sequestro relâmpago no início deste ano, pensou que seria levado a um caixa eletrônico e forçado a sacar uma grande quantia de bolívares. Mas, para sua surpresa, os assaltantes não estavam nem um pouco interessados na moeda local. O que eles queriam eram os dólares que eles sabiam que Venero guardava em casa.

O episódio é um exemplo extremo da completa descrença no bolívar, a moeda local do país, tão desvalorizada nem mesmo assaltantes cobiçam. Há um ano, um dólar valia cerca de 100 bolívares. Hoje, um dólar vale mais que US$ 700 no mercado negro de câmbio. Tamanha desvalorização reflete a derrocada da economia venezuelana.

Em sua última previsão, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu uma inflação de 159% para a Venezuela este ano (embora o presidente Nicolás Maduro tenha anunciado metade deste percentual). A economia da Venezuela vai encolher 10% este ano, a pior previsão de retração do mundo, apesar de não haver dados sobre a devastada Síria.

Essas projeções são desastrosas para um país que está em cima da maior reserva de petróleo do mundo e revelam o absurdo cotidiano dos que vivem em uma nação onde o governo se recusa a divulgar dados básicos da economia, como a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB), e insiste em manter a taxa de câmbio congelada em 6,3 bolívares por dólar, o que só fortalece o mercado negro da moeda americana no país.

Essa enorme disparidade, somada ao crescimento da atuação do mercado negro que efetua vendas em dólares a outra cotação, torna difícil saber o quanto as coisas valem e quem realmente dita os preços do dólar no país.

Por exemplo, um ingresso para cinema na Venezuela custa em torno de 380 bolívares. O que corresponde a US$ 60 dólares, pelos cálculos do governo, e apenas US$ 0,54 centavos no mercado negro.

O salário mínimo venezuelano é de 7.421 bolívares, o que, pelo governo, dá uma decente quantia mensal de US$ 1.178. Porém, pelos cálculos do mercado negro, o salário custa miseráveis US$ 10,60. Um televisor de plasma custa 11 mil bolívares pela taxa de câmbio do governo, e apenas US$ 15,71 no mercado negro.

A expressiva inflação também torna a rotina da população um inferno. Por exemplo, na terça-feira, 13, da semana passada, uma lata de tinta custava 6 mil boívares. Na sexta-feira, 16, o preço subiu para mais de 12 mil bolívares. Para piorar, a escassez de produtos básicos esvaziou prateleiras e gerou filas intermináveis por todo o país.

Com a aproximação das eleições legislativas de dezembro, cruciais para um chavismo que periga perder o poder, Maduro culpa o que chama de “guerra econômica” pela deterioração do país. Segundo ele, trata-se de uma manobra de seus adversários domésticos e estrangeiros.

No entanto, para analistas financeiros, os problemas da Venezuela são uma soma da vertiginosa queda no preço do barril do petróleo, principal produto de exportação do país, e das políticas falhas do governo, como o rígido controle sobre os preços e altos impostos sobre produtos importados.

“É uma loucura. Nós vivemos um pesadelo. Não há nada para comprar e o dinheiro não vale nada”, disse o mecânico de aviões Jaime Bello ao NYT.

Fontes:
The New York Times-Few in Venezuela Want Bolívars, but No One Can Spare a Dime

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site