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EMPREITADA IMPROVÁVEL

Venezuela vê no turismo a solução para a crise

Governo planeja copiar o sucesso do turismo cubano, mas a violência e a escassez tornam a empreitada quase impossível

Venezuela vê no turismo a solução para a crise
Crise fez o setor de turismo do país se tornar tudo, menos hospitaleiro (Foto: Wikimedia)

Há anos a Venezuela busca uma nova fonte de receita para conter a queda livre na economia gerada pelo colapso do setor petroleiro, que é responsável por 90% das receitas do governo. Agora, o governo do presidente Nicolás Maduro pensa ter encontrado a solução: o turismo.

A ideia do governo Maduro é imitar o sucesso do turismo cubano, que vem batendo recordes nos últimos anos. Tal proposta tem o respaldo do ministro do Turismo venezuelano, que recentemente declarou que “o turismo é o petróleo que nunca acaba”.

No entanto, para um país que sofre com a maior taxa de inflação do mundo e a escalada nos índices de violência, se tornar um destino turístico parece tão improvável quanto a inauguração de um parque temático da Disney na capital síria Damasco.

Em meio a uma severa escassez de produtos básicos, os hotéis venezuelanos passaram a racionar papel higiênicos e a implementar um rígido sistema de inventário contra furtos, com uma inspeção extremamente detalhada nos quartos sempre que um cliente faz o check-out. Tal medida foi tomada diante dos constantes roubos de lâmpadas, cafeteiras e até lâminas de liquidificadores por parte de turistas venezuelanos. Além disso, para lidar com uma taxa anual de inflação em torno dos 3.000%, hotéis e restaurantes precisam atualizar seus preços diariamente.

Em pouco tempo, o setor de turismo da Venezuela se tornou tudo, menos hospitaleiro. Logo, seria possível fazer do turismo “o novo petróleo” em termos de fonte de receita? Para Vanessa Sojo, gerente do El Egua Hotel, em Caracas, a resposta é não.

“Isso nunca vai acontecer”, diz ela, em entrevista ao Washington Post. Os negócios em seu estabelecimento, assim como em vários outros da cidade, caíram 80% no ano passado. Ela conta que em novembro foi obrigada a cancelar as reservas durante uma semana por conta de falta de energia.

Além da escassez, a inclusão da Venezuela em listas de destinos a serem evitados, elaboradas pelos governos dos EUA e de países europeus, espanta turistas estrangeiros. No ano passado, por exemplo, a Venezuela ficou em penúltimo lugar no ranking destinos mais procurados, elaborado pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo, um dos principais órgãos globais do setor. Perdendo apenas para o Iêmen, que enfrenta uma guerra civil, a Venezuela ficou atrás de países como Líbia, Síria e Nigéria.

Em parte, a queda no turismo se deve à crise. O PIB da Venezuela encolheu 15% no ano passado. O colapso no petróleo foi um dos principais fomentadores da crise, mas analistas também apontam a má gestão de Maduro e sua política quase ditatorial.

Apesar da mão de ferro do governo, a criminalidade subiu de maneira alarmante no país. Residentes locais que não podem pagar por um carro blindado, se juntam em caravanas para percorrer as avenidas infestadas de bandidos. No ano passado, uma média de 53 pessoas foram assassinadas por dia no país, segundo o Ministério do Interior venezuelano.

Um dono de hotel na cidade de Chichiriviche, que falou ao Post em condição de anonimato, apontou a violência como o maior obstáculo para atrair turistas. “O maior problema agora é a segurança. Turistas estrangeiros não virão se acharem que serão mortos”, disse a fonte. Ele conta que seu hotel, um negócio de família, há alguns anos era lotado de turistas americanos e europeus. Agora, é raro ver um estrangeiro no estabelecimento.

No ano passado, um turista belga se hospedou no hotel, mas foi visto por criminosos na cidade. Apenas um dia depois do check-in, um bando de seis bandidos armados e mascarados entrou no hotel e obrigou a recepcionista a levá-los até o quarto do turista belga. “Foi horrível. Eles roubaram tudo dele. O iPhone, as roupas, tudo”, disse o dono do hotel.

Turistas estrangeiros que não se intimidam com a violência enfrentam um outro problema: chegar ao país. O caótico controle cambial imposto pelo governo torna quase impossível para empresas aéreas converter bolívares em dólares. Logo, as empresas que cobram em moeda local não conseguem repatriar seus lucros. Por conta disso, muitas empresas aéreas deixaram de operar na Venezuela país, e hoje apenas 15 linhas aéreas internacionais fazem voos para o país.

Diante de tantos problemas, a ambição do governo em impulsionar o turismo é algo quase impossível. Pelo menos é esta a impressão de Matt Keenan, um turista neozelandês de 36 anos, que passou uma noite em Caracas que, segundo ele, foi mais do que suficiente.

“Você vê militares por toda parte e definitivamente teme ser vítima de violência, assalto ou sequestro. Para mim, não há qualquer chance de voltar sem que seja com a ajuda de moradores locais”, disse Keenan ao Post.

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2 Opiniões

  1. Daniela Villa disse:

    É ruim einh! “alguns” venezuelanos são mais corruptos que nós, adoram criar dificuldades para vender facilidades. Não se anda nas alcabalas sem ser extorquido pela GNB.

  2. Elizeu souza disse:

    Hoje está tendo uma epidemia de fome nos hospitais venezuelanos.

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