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ENCONTRO CANCELADO

Apostas estão altas na Península Coreana

Trump aposta que a Coreia do Norte abrirá mão do programa nuclear em prol da economia. Mas esquece que em um Estado pária a segurança vem em 1º lugar

Apostas estão altas na Península Coreana
Para alguns analistas, cancelar o encontro foi uma iniciativa ousada de Trump (Foto: Wikimedia)

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A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de cancelar o encontro com o líder norte-coreano Kim Jong-un surpreendeu a comunidade internacional, uma vez que o encontro era tido como uma reunião histórica e aguardada, já com data e local determinados.

A reação da Coreia do Norte veio logo após o anúncio. O vice-ministro das Relações Exteriores do país, Kim Kye Gwan, disse em uma coletiva dada à emissora estatal KCNA, que a Coreia do Norte está disposta a dar “tempo e oportunidade” para que Trump reconsidere sua decisão.

“O cancelamento unilateral do encontro foi inesperado e muito lamentável. Mas permanecemos imutáveis em nossa disposição em fazer tudo pela paz e estabilidade da Península Coreana e da humanidade, logo, com uma mente ampla e aberta, estamos dispostos a dar tempo e oportunidade aos EUA”, disse Gwan.

As palavras escolhidas cuidadosamente por Gwan sugerem que a decisão de cancelar o encontro foi exclusiva de Trump, e não revelam as recentes ameaças da própria Coreia do Norte de boicotar a reunião. Para entender melhor a questão, há que se analisar alguns eventos ocorridos nos últimos dias.

Desconfiança norte-coreana em relação aos EUA

Dias antes de Trump anunciar sua decisão, a Coreia do Norte ameaçou cancelar o encontro em duas oportunidades. A primeira ocorreu há dez dias, quando a Coreia do Norte, irritada com o início de exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul na metade sul da península, suspendeu por tempo indeterminado uma reunião com representantes sul-coreanos, prevista para o dia 16 deste mês, e ameaçou cancelar o encontro entre Trump e Kim Jong-un.

As ameaças foram feitas pelo próprio vice-ministro das Relações Exteriores, que disse à KCNA que os EUA tentam forçar o país a abandonar unilateralmente seu programa nuclear. “Não vamos mais nos interessar por tal diálogo e poderemos reconsiderar a nossa participação na cúpula com os Estados Unidos”, disse Gwan.

Já na última segunda-feira, 21, o governo de Pyongyang ameaçou novamente cancelar o encontro, por conta do mal estar causado por comentários feitos pelo vice-presidente dos EUA, Mike Pence, em entrevista à emissora americana Fox News.

Na entrevista, Pence alertou que, se não forjar um acordo com Washington, a Coreia do Norte pode acabar como a Líbia, que em 2011, quase dez anos após encerrar suas atividades nucleares, teve seu líder, o ditador Muammar Khadafi, deposto e morto em uma intervenção que contou com a participação dos EUA.

Os comentários de Pence reforçaram declarações similares dadas uma semana antes pelo assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, em um artigo intitulado “The Legal Case for Striking North Korea First”, publicado no Wall Street Jornal. Nele, Bolt fala abertamente do que chama de “modelo líbio” de desarme nuclear, em referência a um acordo que os EUA ajudaram a elaborar em 2003, no qual Khadafi aceitou abandonar seu programa nuclear em troca de promessas econômicas muitos similares às oferecidas por Trump à Coreia do Norte.

Tais comentários foram recebidos por governo de Pyongyang como uma prova de que o desarmamento unilateral é uma má decisão.

Apostas altas de Trump

Ao se antecipar a Kim Jong-un e cancelar o encontro, Trump elevou as apostas na negociação referente ao destino da Península Coreana. Para alguns analistas, como David E. Sanger, correspondente de Segurança Nacional do New York Times, trata-se de uma iniciativa ousada do presidente americano.

Isso porque Trump se apresenta a Kim como um prêmio a ser conquistado, e presume que no final ele estará disposto a abrir mão de tudo pela promessa de paz e prosperidade. No entanto, Sanger lembra que em um Estado pária, como a Coreia do Norte, a segurança vem antes da prosperidade.

“Está ficando claro para Trump e sua equipe que as técnicas envolvidas em negociações do setor imobiliário [no qual Trump fez carreira] não se traduzem facilmente em negociações sobre armas nucleares. O Sr. Kim precisa de dinheiro, investimento e tecnologia, certamente. Mas para além disso, ele precisa convencer a elite norte-coreana de que ele não negociou a única forma de segurança sob seu controle – o patrimônio nuclear de seu pai e seu avô”, escreveu Sanger, em um artigo publicado na última quarta-feira, 24, no “NYT” (confira aqui o artigo na íntegra).

Segundo o texto, os criadores dos programas nuclear e de mísseis balísticos da Coreia do Norte são a verdadeira elite do país, exaltados como heróis que mantêm os EUA à distância. Logo, abrir mão do programa significaria perder status e influência. Citado no artigo, William Perry, ex-secretário de Defesa dos EUA que negociou acordos de desarmamento com a Coreia do Norte na gestão de Bill Clinton, destacou a desconfiança norte-coreana em relação aos EUA.

“Se aprendi alguma coisa em negociações com eles, é que consideram sua segurança como primordial. Eles sabem que temos a capacidade de derrota-los, e acreditam que temos a intenção de fazer isso. A única forma de resolver isso é através de um processo envolvendo passo a passo, exatamente a abordagem que Trump afirmou não querer adotar”, disse Perry.

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