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QUESTÃO PARADOXAL

Arábia Saudita tenta acomodar progresso e retrocesso

Ao mesmo tempo em que tenta promover uma agenda de reformas culturais, o reino classifica feminismo, ateísmo e homossexualidade como ‘ideias extremistas’

Arábia Saudita tenta acomodar progresso e retrocesso
Polêmica sobre vídeo indica que ideias arcaicas seguem enraizadas no reino (Foto: Flickr/Dave Collier)

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Como acomodar progresso e retrocesso? É com essa questão paradoxal que a Arábia Saudita tem estado às voltas nos últimos anos.

Atualmente liderado pelo príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman (MBS), o reino vem promovendo um pacote de reformas culturais e econômicas, chamado Visão 2030, que tem como objetivo melhorar sua imagem perante o mundo, modernizar a economia, atrair investimento estrangeiro e reduzir a dependência de petróleo.

Porém, promover uma agenda moderna será impossível se não forem combatidas as ideias arcaicas que seguem enraizadas no reino que, por vezes, geram polêmica têm grande repercussão negativa mundo afora.

A mais recente polêmica veio à tona no último fim de semana. Um vídeo promocional divulgado pelo governo saudita classificou o ateísmo, o feminismo e a homossexualidade como “ideias extremistas”.

“Não se esqueça que o excesso de qualquer coisa à custa da pátria é considerado extremismo. […] Todas as formas de extremismo e perversão são inaceitáveis”, diz a publicação.

Em outras palavras, o direito de decidir sobre suas crenças pessoais, sobre sua intimidade, bem como a busca por equidade e igualdade de oportunidades entre sexos é algo por demais radical – no entendimento do governo saudita.

Desde que assumiu a liderança do reino, MBS vem tomando medidas controversas ou contraditórias. Logo que chegou ao poder, após uma disputa com o primo, Mohamed bin Nayef, ele colocou em vigor uma agressiva campanha anticorrupção – algo que geralmente conquista o apoio da população, uma vez que ninguém seria a favor da corrupção.

Em novembro de 2017, a campanha resultou na prisão de mais de 200 pessoas, entre elas pelo menos 11 príncipes e alguns dos mais proeminentes e abastados empresários do país. Análises políticas mais profundas, no entanto, apontaram que a campanha, na verdade, foi uma manobra de MBS para neutralizar opositores, desafetos políticos e potenciais rivais, consolidando, assim, seu poder antes que seu pai, o rei Salman, morra ou abdique.

Dois meses antes, MBS havia anunciado o fim da proibição ao direito de dirigir das mulheres – o país era o único do mundo que proibia mulheres de dirigir. A “medida progressista”, no entanto, foi acompanhada de uma onda de repressão a ativistas dos direitos das mulheres no país, que, entre suas bandeiras, defendiam exatamente o direito de dirigir. Ou seja, o direito foi concedido, mas não sem retaliação.

Uma das feministas presas foi Loujain al-Hathloul, uma das ativistas mais conhecidas da Arábia Saudita. Ela foi presa em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, onde cursa mestrado, quando dirigia perto de uma universidade. Após ser detida, ela foi enviada de volta ao seu país de origem. Hathloul foi presa em julho, um mês após a concessão de licença para dirigir entrar em vigor na Arábia Saudita. Sua prisão, junto com outras oito mulheres, foi denunciada por Mona Eltahawy, jornalista egípcio-americana que viveu parte de sua adolescência na Arábia Saudita e hoje denuncia a repressão às mulheres no país.

Em um artigo publicado em 2015, Eltahawy narrou sua experiência ao chegar ao reino. “Nada me preparou para a Arábia Saudita. […] Parecia ter mudado para outro planeta, cujos habitantes desejavam fervorosamente que as mulheres não existissem. Vivi nessa atmosfera surrealista durante seis anos”, escreveu a jornalista.

A repressão é a mesma em relação aos homossexuais e à população LGBT. O país pune a homossexualidade com pena de morte. A proibição à homossexualidade consta na Lei de Decência Pública do país. As execuções – promovidas em praça pública – são por meio de decapitação e subsequente crucificação do corpo, como já denunciado por ativistas e organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional.

Em março de 2017, duas pessoas transgêneras foram enfiadas em um saco e espancadas com bastões até a morte, segundo noticiou o site americano Insider.

O país também pune severamente o ateísmo, que é enquadrado no “crime de apostasia” (ausência de fé). Em junho de 2012, o blogueiro saudita Raif Badawi, de 31 anos, foi preso pelo crime. Em julho de 2013, sua sentença foi anunciada: sete anos de prisão e 600 chibatadas. No ano seguinte, a sentença foi alterada para 10 anos de prisão e 1.000 chibatadas.

Ele já recebeu a primeira parte do açoite, em praça pública, em 9 de janeiro de 2015. Foram 50 chibatadas. As demais sessões vêm sendo constantemente adiadas devido ao estado de saúde de Badawi. A família de
Badawi , que vive em asilo político em Montreal, no Canadá, vem apelando por perdão ao blogueiro e sua esposa, Ensaf Haidar, diz que ele não vai sobreviver a uma nova rodada de açoites.

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