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EM ENTREVISTA

Bolsonaro diz que reação da PF à ingerência é ‘babaquice’

Em entrevista à ‘Folha’, presidente diz que mudança na direção-geral da Polícia Federal é necessária para ‘dar uma arejada’, critica Doria e alfineta Joice Hasselmann

Bolsonaro diz que reação da PF à ingerência é ‘babaquice’
Declarações do presidente vêm gerando desconforto na PF (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

O imbróglio envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e a Polícia Federal ganhou novos elementos nesta semana.

Na última terça-feira, 3, em uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro criticou a reação da corporação às suas tentativas de ingerência em trocas de superintendentes.

Em 15 de agosto, Bolsonaro gerou mal-estar na direção da PF ao anunciar a troca do superintendente da corporação no Rio, Ricardo Saadi, pelo superintendente do estado do Amazonas, Alexandre Silva Saraiva. Segundo o presidente, a troca se daria por questão de “gestão e produtividade”.

A declaração gerou desconforto na direção da PF. Isso porque a escolha de superintendentes é, historicamente, uma atribuição do diretor-geral da PF, sem interferência de ministros ou do próprio presidente da República.

Também gerou desconforto o fato de Bolsonaro ter dado a entender em sua declaração que foi ele o responsável pela decisão da troca, uma vez que a substituição de Saadi já vinha sendo planejada pela corporação, mas a pedido do próprio superintendente e não por questões de “gestão e produtividade”, como apontou o presidente. Além disso, o nome escolhido pelo atual diretor-geral da PF, Mauricio Valeixo, para substituir Saadi foi Carlos Henrique Oliveira, não Alexandre Silva Saraiva, como afirmou Bolsonaro.

Diante disso, pouco após a declaração do presidente, a direção da PF divulgou uma nota, esclarecendo os reais motivos da substituição de Saadi. “A Polícia Federal informa que a troca da autoridade máxima do órgão no estado [do Rio] já estava sendo planejada há alguns meses e o motivo da providência é o desejo manifestado, pelo próprio policial, de vir trabalhar em Brasília, não guardando qualquer relação com o desempenho do atual ocupante do cargo”, disse a nota.

O Sindicato dos Delegados de Polícia Federal no Estado de São Paulo (SINDPF-SP) também se manifestou, repudiando, através de uma dura nota, as declarações do presidente.

“O Sindicato dos Delegados de Polícia Federal no Estado de São Paulo (SINDPF-SP) manifesta seu repúdio às declarações dadas pelo presidente da República acerca da exoneração do superintendente regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Evocando um ‘sentimento’ e alegando motivo de ‘produtividade’, Bolsonaro anunciou sua decisão durante entrevista a jornalistas no Palácio da Alvorada, em Brasília. A escolha de superintendentes compete ao Diretor-Geral da Polícia Federal e a fala do presidente, mais que desrespeitosa, atenta contra a autonomia da Polícia Federal. A PF é uma instituição de Estado e deve ter autonomia para se manter independente e livre de quaisquer ingerências políticas. Por isso é tão urgente que se aprove a PEC 412, que tramita há 10 anos no Congresso Nacional para garantir a autonomia da instituição”, diz a nota do sindicato, replicada pela revista Veja.

Em entrevista à Folha na última terça-feira, 3, Bolsonaro disse que a reação da PF no episódio foi uma “babaquice” e afirmou que suas críticas à PF se deram por não ter sido consultado em substituições de superintendentes.

“O motivo foi a troca de 11 superintendentes sem falar comigo. Fui sugerir para o Rio um de Manaus, aí teve essa reação toda. Isso é babaquice”, disse o presidente.

Bolsonaro também tornou a abordar a substituição de Valeixo, pessoa de confiança de Sergio Moro, chefe do Ministério da Justiça e Segurança Pública – Pasta à qual a PF é subordinada. Valeixo trabalhou por anos junto a Sergio Moro na operação Lava Jato e foi alçado pelo ministro ao cargo de diretor-geral da PF.

A retirada de Valeixo do cargo já havia sido sugerida por Bolsonaro, poucos dias após a polêmica declaração sobre a troca de superintendentes. No dia 22 de agosto, Bolsonaro afirmou: “Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral. Se eu trocar hoje, qual o problema? Está na lei. Eu que indico, e não o Sergio Moro. E ponto final”.

Na entrevista à Folha, Bolsonaro disse ter conversado com Moro sobre a troca. “Está tudo acertado com o Moro, ele pode trocar [o diretor-geral da PF] quando quiser”, disse o presidente.

O presidente disse que a troca na direção-geral se dá por necessidade de renovação. “Essa turma [que dirige a PF] está lá há muito tempo, tem que dar uma arejada. Mais difícil é trocar de esposa. Eu tive uma conversa a dois com o Moro. Tem que ser Moro Futebol Clube [o diretor-geral], senão, troca. Ninguém gosta de demitir, mas é mais difícil trocar a esposa. Eu demiti o Santos Cruz, com quem tinha uma amizade de 40 anos”, disse o presidente.

Críticas a Doria, cutucada em Hasselmann e busca pela reeleição em 2022

Também na entrevista à Folha na terça-feira, Bolsonaro disse que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB-SP), não tem chances no pleito presidencial de 2022 e classificou seu antigo aliado como uma “ejaculação precoce”. “Ele não tem apoio popular”, disse o presidente.

Questionado se pensa em concorrer em 2022, Bolsonaro, que em campanha defendeu o fim da reeleição, afirmou estar disposto. “Pretendo sim, se estiver bem até lá”, disse o presidente.   

O presidente também cutucou a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), uma de suas maiores apoiadoras no Congresso, que está sendo cotada como candidata pelo PSL à Prefeitura de São Paulo nas eleições do ano que vem. Para Bolsonaro, Hasselmann precisa decidir de que lado está no impasse entre ele e o governador de São Paulo. “Joice está com um pé em cada canoa”, disse o presidente.

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