Início » Economia » Internacional » Brutalidade policial expõe o racismo em Portugal
INCURSÕES EM PERIFERIAS

Brutalidade policial expõe o racismo em Portugal

Incursões policiais brutais em favelas onde reside a maioria da população negra e de imigrantes das antigas colônias abre o debate sobre a questão

Brutalidade policial expõe o racismo em Portugal
A população revoltada incendiou carros e atacou delegacias de polícia (Foto: Twitter)

Desde a última semana de janeiro, carros de curiosos andam devagar pelas ruas do bairro da Jamaica, na periferia de Lisboa, examinando as vidraças quebradas e os telhados destruídos dos casebres, sinais da violência policial no local.

“A maioria dos moradores dessa comunidade são pessoas comuns que frequentam a escola, trabalham, pagam suas contas e impostos. O bairro da Jamaica já tinha uma péssima reputação, mas depois da intervenção policial se transformou em um zoológico”, disse Liliana Jordão, uma moradora de 27 anos.

Tudo começou com uma briga entre duas moradoras. Ao ser chamada para intervir, a polícia entrou com violência na comunidade. Um vídeo mostrou os policiais batendo nas pessoas e arrastando-as com brutalidade pelas ruas.

Filmado por moradores locais, o vídeo logo viralizou nas redes sociais, espalhando-se pelos bairros da periferia da cidade, onde reside a maioria da população negra e de imigrantes das antigas colônias africanas de Portugal.

No dia seguinte, cerca de 300 pessoas, a maioria jovens e negros residentes dos subúrbios de Lisboa, fizeram uma manifestação no centro da cidade. A polícia reagiu aos gritos de “Chega de violência policial e demonstração de racismo” com tiros de balas de borracha nos manifestantes. O confronto resultou em quatro prisões e em denúncias de extrema brutalidade policial nas comunidades de baixa renda de Lisboa.

A população revoltada incendiou carros e atacou delegacias de polícia. O protesto, intitulado “Há muitas Jamaicas”, ecoou por todo o país, refletindo uma realidade urbana poucas vezes discutida em Portugal.

As favelas cresceram no país a partir da década de 1960, em consequência do planejamento urbano precário, da migração em grande escala de habitantes da região rural e da imigração das antigas colônias portuguesas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. “Os imigrantes africanos foram isolados em áreas nas periferias das cidades, sem condições mínimas de conforto. Assim, começou o processo de segregação racial dos imigrantes africanos de língua portuguesa e das gerações seguintes”, disse o assistente social Antonio Brito Guterres.

Após anos de negligência do poder público, no final de 2017, o bairro da Jamaica foi incluído no Programa Especial de Realojamento (PER). Criado na década de 1990, o programa prevê a substituição das casas de taipa das favelas por conjuntos habitacionais de concreto.

Os críticos dizem que o governo substituiu as favelas por guetos. Em 2017, um relatório da ONU descreveu as condições precárias de moradia das comunidades de negros e de ciganos em Portugal como “um desrespeito à dignidade humana”.

A violência policial nas comunidades de baixa renda causou a morte de pelo menos dez pessoas nos últimos 15 anos, mas nenhum policial foi condenado pelos crimes. Por iniciativa do Ministério Público, 17 policiais estão sendo julgados por crimes cometidos na comunidade da Cova da Moura, como sequestro, falsificação de depoimentos e estupro.

Em 2016, um relatório do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU criticou o preconceito racial, que impede a integração dos negros na sociedade portuguesa.

Segundo moradores do bairro da Jamaica, a manifestação no centro de Lisboa foi resultado, entre outros problemas que vêm se acumulando há anos, da marginalização de muitos jovens com potencial para contribuir como cidadãos.

O plano de reassentamento dos moradores do bairro da Jamaica e de outras comunidades na periferia de Lisboa, não solucionará as tensões e conflitos. Enquanto houver um clima de preconceito racial e impunidade da polícia, os confrontos se repetirão.

Fontes:
The Guardian-Lisbon's bad week: police brutality reveals Portugal's urban reality

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Ludwig Von Drake disse:

    O fato é que as pessoas saíram de seus países de origem e foram para Portugal sem condições para isso; e por meios próprios não conseguem se integrar a sociedade local. Depois fundam uma “comunidade” e a chamam de: Jamaica… Agora a culpa é da Polícia?

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *