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DIPLOMACIA NA CORDA BAMBA

Chile: o novo embaraço externo de Bolsonaro

Presidente chileno responde ao ataque de Bolsonaro a Michelle Bachelet. Episódio é o mais novo embaraço externo do governo brasileiro

Chile: o novo embaraço externo de Bolsonaro
Sebastián Piñera disse não compartilhar de forma alguma com a alusão de Bolsonaro (Foto: José Cruz/ABr)

“Não compartilho em absoluto da alusão feita pelo presidente Jair Bolsonaro em relação a uma ex-presidente do Chile, especialmente em um tema tão doloroso como a morte de seu pai”.

Foi o que disse o presidente do Chile, Sebastián Piñera, em pronunciamento na noite da última quarta-feira, 4, em relação ao ataque de Bolsonaro à ex-presidente do Chile e atual Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Na quarta-feira, irritado com uma análise apresentada por Bachelet, em Genebra, que alertou para o retrocesso na democracia e no espaço cívico no Brasil, Bolsonaro postou uma foto de Bachelet, ao lado de Dilma e Cristina Kirchner, acusou a ex-presidente chilena de atentar contra a soberania do Brasil e lembrou a morte de seu pai, Alberto Bachelet, nas mãos da ditadura de Augusto Pinochet, uma das mais sangrentas da América do Sul.

“Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época”, escreveu o presidente, em sua conta no Twitter. Na época do golpe militar no Chile, Alberto Bachelet era general de brigada da Força Aérea. Ele foi preso, torturado e morto pela ditadura de Pinochet em 1974, aos 50 anos, condenado por “traição à pátria”, por se opor ao golpe de Estado que derrubou o governo de Salvador Allende. Em 2016, mais de quatro décadas depois e já no governo de Michelle Bachelet, a Justiça chilena anulou a condenação.

Na noite da última quarta-feira, Piñera veio a público se manifestar sobre a declaração de seu homólogo brasileiro. “É de público conhecimento meu compromisso com a democracia, a liberdade e o respeito aos direitos humanos em todos os tempos, lugares e circunstâncias. Sem prejuízo dos diferentes olhares que podem existir em relação aos governos que tivemos nas décadas de 1970 e 1980, sempre estas visões devem se expressar com respeito pelas pessoas. Em consequência, não compartilho em absoluto a alusão feita pelo presidente Bolsonaro em relação a uma ex-presidente do Chile, e especialmente em um tema tão doloroso como a morte de seu pai”, declarou Piñera, em um pronunciamento direto do Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, na capital Santiago.

Esta não foi a primeira vez que Piñera destacou discordar da visão de Bolsoanro em relação à ditadura de Pinochet. Em março deste ano, ao ser questionado sobre a admiração do presidente brasileiro pelo ditador chileno, Piñera respondeu: “Não compartilho muito do que Bolsonaro diz sobre o tema”.

A recente declaração de Bolsonaro sobre Bachelet repercutiu negativamente no Brasil e no Chile. No Chile, a hashtag #BolsonaroMiserable se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter, com postagens de repúdio à declaração do presidente brasileiro. Nesta quinta-feira, 5, foi a vez da hashtag chegar aos trending topics do Brasil na rede social.

O ataque de Bolsonaro ocorreu às vésperas da visita do ministro das Relações Exteriores do Chile, Teodoro Ribera, ao Brasil. O chanceler chileno se reúne nesta quinta-feira, em Brasília, com Ernesto Araújo, chefe do Ministério das Relações Exteriores do Brasil – que na quarta-feira respaldou, em comunicado, as críticas de Bolsonaro à Bachelet, sem, no entanto, citar o pai da Alta Comissária. Na agenda do encontro estão previstos debates sobre comércio e investimentos; combate a crimes transnacionais; cooperação científica e tecnológica; e cooperação na Antártica.

Histórico de constrangimentos

Ainda não é possível afirmar se haverá impacto na relação entre o Brasil e o Chile – segundo maior parceiro comercial do Brasil na América do Sul, atrás apenas da Argentina – por conta do ataque do presidente brasileiro.

Contundo, a declaração aprofunda a imagem de governante com pouco apreço pelo diálogo e pouca tolerância a críticas que Bolsonaro vem cultivando no exterior. Isso porque não é a primeira vez que o presidente brasileiro sinaliza falta de habilidade em diplomacia.

Durante sua posse como presidente, Bolsonaro deixou claro sua intenção de não incluir presidentes de esquerda na cerimônia. Apesar disso, os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Tabaré Vázquez, do Uruguai, compareceram à solenidade. Ambos optaram por vir por considerar importante adotar uma postura pragmática, colocando divergências políticas de lado em prol dos laços econômicos entre os países.

A própria foto de Bachelet usada na postagem do ataque de Bolsonaro foi tirada durante a cerimônia de posse da ex-presidente chilena, que, conforme a tradição, contou com a presença de diferentes presidentes sul-americanos, independentemente de sua vertente política. Entre eles, estavam Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, então presidentes do Brasil e da Argentina, respectivamente.

Recentemente, o presidente brasileiro entrou em rota de colisão com o francês Emmanuel Macron, por conta de declarações de Macron referentes às queimadas na Amazônia. Bolsonaro acusa Macron de usar o tema politicamente para impedir o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE). A acusação do presidente brasileiro tem fundamento, uma vez que a França é o membro da UE mais resistente ao acordo, que prejudicaria agricultores franceses. No entanto, a forma como Bolsonaro lidou com o tema acabou por fornecer a Macron a munição necessária para tentar minar o pacto e, de quebra, elevar sua atual baixa popularidade na França.

Em meio à troca de farpas com Macron, Bolsonaro mirou a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, respaldando um comentário sexista de um seguidor no Facebook que fazia chacota da aparência de Brigitte.

A rusga se estendeu aos membros do G7, que em reunião de emergência, convocada no final de agosto, aprovaram uma ajuda de US$ 20 milhões ao Brasil para auxiliar no combate às queimadas na Amazônia. A ajuda foi rejeitada pelo presidente brasileiro, que chamou a cifra de “esmola” – governadores de estados amazônicos, no entanto, defendem o recebimento da verba.

Também em agosto, Bolsonaro rechaçou a decisão dos governos da Alemanha e da Noruega de suspender o financiamento de projetos de preservação da Amazônia, por conta da política ambiental do presidente brasileiro. Na ocasião, em mensagem direcionada à chanceler Angela Merkel, Bolsonaro disse: “Eu queria até mandar recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok?”.

Já em relação à Noruega, Bolsonaro respondeu afirmando: “A Noruega não é aquela que mata baleia?”. Dias depois, o presidente postou um vídeo em sua conta no Twitter com imagens que apontava serem de uma matança de baleias na Noruega. A postagem, no entanto, era falsa. O vídeo em questão de fato mostrava baleias sendo encurraladas e mortas por caçadores com arpões. Porém, era referente a uma caça de baleias nas ilhas Faroë, um arquipélago pertencente à Dinamarca, localizado no Atlântico Norte, onde anualmente ocorre um festival chamado Grindadráp – festival que neste ano resultou na matança generalizada de quase 100 baleias, incluindo grávidas e filhotes, e que a ONG de conservação marinha Sea Shepherd vem liderando esforços para encerrar.

Antes do imbróglio envolvendo as queimadas na Amazônia, Bolsonaro já havia gerado constrangimento ao cancelar uma reunião com o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, alegando “problemas de agenda”. Porém, na hora marcada para o encontro, ele apareceu em uma transmissão ao vivo na internet cortando o cabelo. O caso repercutiu negativamente na França, ganhando as manchetes dos principais jornais do país, incluindo veículos de direita alinhados à ideologia do presidente brasileiro.

Em outro front, Bolsonaro conclamou eleitores da Argentina a não votarem, nas eleições presidenciais de outubro, na chapa composta por Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner. A declaração quebrou a tradição da diplomacia brasileira de se manter neutro, esperar o resultado para, em seguida, buscar um diálogo pragmático com o candidato vencedor. Além disso, teve o efeito oposto, gerando constrangimento para Macri e ameaçando aprofundar a vantagem da chapa Alberto/Cristina no pleito.

Isso porque a figura de Bolsonaro tem forte rejeição entre a população argentina. O motivo é o histórico de Boslonaro de exaltar ditadores, torturadores e ditaduras. A Argentina viveu uma sangrenta ditadura entre 1976 e 1983, com um total de mortos estimado em 30 mil. Logo, qualquer exaltação a ditaduras ou torturadores é amplamente rejeitada no país.

Em contraponto, o presidente brasileiro vem aprofundando o alinhamento automático do Brasil com os EUA, mesmo em detrimento de outras importantes parcerias. É o caso do Irã, por exemplo. Bolsonaro já anunciou que, na disputa entre EUA e Irã – o principal parceiro comercial brasileiro no Oriente Médio e o principal importador do milho brasileiro -, o Brasil está alinhado ao governo americano.

Recentemente, a Petrobras se recusou a abastecer dois navios iranianos que, por falta de combustível para regressar ao Irã, passaram semanas ancorados no porto de Paranaguá (PR). A empresa argumentou temer ser acusada de violar as sanções americanas ao Irã. Porém, os navios iranianos transportavam milho, o que significa que o abastecimento não feriria as sanções americanas, que não envolvem alimentos e medicamentos. “Vocês já sabem que estamos alinhados com a política deles [dos EUA]. Então fazemos o que temos que fazer”, disse Bolsonaro na ocasião.

Não é possível mesurar as consequências ao Brasil geradas pela postura de Bolsonaro frente a líderes internacionais. Porém, analistas apontam que a retórica do presidente brasileiro pode impactar na economia.

“Você pensa que a retórica não importa? Em uma conversa recente um professor do Sciences Po [o Instituto de Estudos Políticos de Paris] me disse: ‘Por razões que certamente você tem conhecimento, o Brasil não é um destino popular entre estudantes de intercâmbio franceses no momento. Eles preferem Colômbia ou Chile’. Impacto direto na economia”, alertou o professor de relações internacionais Oliver Stuenkel, na ocasião do cancelamento da reunião com o chanceler francês.

*Conteúdo atualizado em 05/09/2019, às 18h19

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3 Opiniões

  1. Salim disse:

    De Isaac Averbuch
    “Ninguém pense que é por acaso que Michele Bachelet saiu-se bem agora com a sucessão de mentiras contra o Brasil. Em poucos dias haverá a eleição para o Comitê de Direitos Humanos da ONU e só há dois candidatos da América Latina: Brasil (que já faz parte do órgão – um dos mais desmoralizados da ONU) e Venezuela. Mas para se eleger, o Brasil precisa de 97 votos, ou seja o Brasil precisa de votos em outros continentes. O que Bachelet quer é criar dificuldades para a eleição do Brasil, criando constrangimento para que democracias ocidentais votem no país. Assim, o Brasil precisaria buscar votos em ditaduras africanas e países islâmicos. Se não quiser seguir esse caminho, corre o risco de perder a eleição e a esquerda mundial bater bumbo dizendo que “a imagem do Brasil nunca foi tão ruim”, “que o mundo percebe que no Brasil não se respeita os direitos humanos”, que “o mundo repudia o governo fascista do Brasil” e outras mentiras ainda mais delirantes. Vale lembrar que o Brasil tem votado, ultimamente, no Conselho, contra a agenda globalista pregada pela esquerda. Ou seja, com a eventual saída do Brasil, haveria uma voz e um voto a menos para atrapalhar os planos dessa turma.

    Pra completar, aquela senhorinha de ar bondoso, acaba de convidar a esposa de Haddad para integrar uma “rede internacional de proteção à primeira infância na América Latina”. Deve ser só coincidência.

    Bachelet faz apenas o seu papel de peão no jogo mesquinho da esquerda mundial.”

  2. Rogerio Faria disse:

    O povo chileno, com grande cultura e com analfabetismo zero, deve compreender o povo brasileiro ao colocar um jegue para a presidência do Brasil.

  3. Jorge Hidalgo disse:

    Sua Exa. mais que exagera, comete crimes contra a Humanidade ao defender mortes, genocidas, ditadores de extrema direita igualmente assassinos. Espero que responda perante a ONU. É o que merece.

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