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Clubes de leitura florescem no Afeganistão

Tendência retoma a longa tradição literária do Afeganistão, interrompida por anos de guerra e censura do grupo fundamentalista Talibã

Clubes de leitura florescem no Afeganistão
Reunião de leitores no clube 'Book Cottage'. Local atrai desde crianças a adultos (Foto: Book Cottage)

Em uma sala mal iluminada em um prédio de Cabul, cheia de estantes com livros, um pequeno grupo reunido em torno de um aquecedor a gás segurava livros nas mãos. Ansioso, esse grupo de crianças e jovens aguardava o momento em que iria compartilharas histórias que haviam lido durante a semana.

Os membros do mais novo clube de leitura do Afeganistão, o Book Cottage, têm entre 4 e 13 anos. O clube é um dos muitos círculos de leitura que estão surgindo na capital, após anos de guerras e da opressão do movimento fundamentalista islâmico dos talibãs.

“É preciso estimular o gosto pela leitura entre pessoas bem jovens.
O país ainda está em guerra e, por isso, as crianças não têm muitas oportunidades de conversar sobre temas mais sensíveis e fazer perguntas, sobretudo as meninas. Temos de reviver nossa tradição de amor aos livros”, disse afundadora do clube, Mashed Mahjor, de 25 anos.

Mashed fundou o clube de leitura há seis anos e hoje tem 20 membros regulares e recebe doações de livros de vários países do mundo.

O Afeganistão tem uma longa tradição literária interrompida por anos de turbulência política. Durante o domínio dos talibãs, as bibliotecas foram saqueadas e os livros queimados. Ainda hoje, os livros estrangeiros e de autores afegãos são submetidos a um rigoroso processo de censura.

O país tem 31% de pessoas alfabetizadas, uma das taxas mais baixas do mundo. Entre as mulheres a taxa é de apenas 17%.

Mas, aos poucos, o Afeganistão está se modernizando e a vida retoma seu ritmo normal. Em um dos bairros de Cabul, os bares descontraídos, as startups com ideias inovadoras e a Universidade de Cabul atraem os jovens. Os clubes de leitura, onde pessoas de todas as idades e gêneros discutem assuntos não abertos ao debate público em uma sociedade conservadora, fazem um enorme sucesso.

“Conversamos sobre hedonismo, sexo e desejo, um universo que o mundo dos livros nos oferece”, disse Syeda Quratulain Masood, uma doutoranda da Universidade Brown, nos EUA, que escolheu como tema de sua tese de PhD a tradição literária de Cabul.

“Os clubes de leitura reúnem jovens que atingiram a maioridade após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Muitos têm ideias liberais e buscam um espaço de diálogo aberto”, diz Masood.

Uma das universidades da cidade abriu um clube de leitura no porão do prédio, onde reúne todas as semanas pessoas que adoram ler e trocar ideias sobre suas leituras recentes. Algumas dessas pessoas moram em lugares distantes da universidade, mas mantêm sua presença nas reuniões.

“Vale a pena. Quase todos os livros pelos quais nos interessamos não estão à venda nas livrarias. Então, imprimimos cópias dos livros encontrados em sites da internet. Lemos romances, poesia e filosofia. Por exemplo, agora estou lendo A queda, de Albert Camus, um livro proibido pelo departamento de censura do governo”, disse o engenheiro civil, Attash Mashal.

A censura corta trechos de livros que abordam temas controversos, como sexo e religião, traduzidos do inglês para o idioma afegão.

“A interrupção abrupta do trecho de um livro, ou até mesmo de um parágrafo inteiro, nos motiva a pesquisar os exemplares em sua língua original. Muitas vezes as traduções alteram os textos originais para atender aos princípios de uma sociedade conservadora, como a afegã”, disse Masood.

No entanto, os afegãos têm mais acesso às traduções de livros e a pesquisa de textos originais se restringe a fontes online. Em Aksos, a maior livraria da cidade, as pessoas se acotovelam no espaço apertado, examinam com curiosidade os novos lançamentos, folheiam os livros e tiram selfies à frente das estantes. 

 “Os clubes de leitura são espaços que incentivam a troca de ideias sem as restrições impostas por uma sociedade presa aos seus valores morais, sociais e religiosos tradicionais”, disse Yalda Heideri, uma jovem de 20 e poucos anos, que frequenta o clube da universidade em que estuda.

A literatura também se tornou uma fuga no dia a dia de um país devastado pela guerra, onde, de acordo com uma agência de ajuda humanitária da ONU, 3.804 civis morreram no ano passado em conflitos armados. “Quando fico deprimida, me refugio na poesia. Lá, encontro a paz de espírito tão desejada. Os livros dão uma nova perspectiva às nossas vidas”, disse Heideri.

Segundo Qanbar Ali Zareh, um homem de 43 anos, com filhas que frequentam o Book Cottage, os livros o ajudam a entender melhor sua vida. Enquanto espera as filhas terminarem as reuniões do clube, ele se senta em uma poltrona e se delicia com a leitura do livro Minha história, de Michelle Obama. “Enfrentei ao longo da minha vida momentos de grande discriminação social. Por isso, sinto uma profunda empatia pelo relato de Michelle Obama. Ela é uma mulher notável, que lutou para impor seu lugar em uma sociedade segregacionista. Vejo na autobiografia dela o que desejo para o futuro das minhas filhas: que os livros lhes mostrem mundos diferentes, onde as mulheres vencem barreiras sociais, raciais e de gênero”.

Fontes:
The Guardian - 'When I get tired of it all, I escape into poetry': book clubs bloom in Afghanistan

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