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MEIO AMBIENTE

Desmatamento ameaça espécies raras na Etiópia

Incêndios e invasores em parques nacionais ameaçam a preservação ambiental na Etiópia, país onde o chamado ‘capital natural’ representa 40% da receita total

Desmatamento ameaça espécies raras na Etiópia
As montanhas de Simien, na Etiópia, sofrem com incêndios (Foto: Rod Waddington/Flickr)

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O ambientalista Getachew Assefa aponta para o vale. “O incêndio começou perto do ponto semi-encoberto pela névoa. Quase toda a vegetação do planalto e do penhasco foi destruída pelo fogo”.

Seis meses depois dos incêndios que atingiram essa parte das montanhas de Simien, na Etiópia, a vegetação ainda está se recuperando. As margaridas amarelas que floresceram após as longas chuvas iluminam a vegetação. Próximo ao vale, os campos de cevada ondulam ao vento.

A cena é bucólica. Mas, como explicou Assefa, essa vegetação e as espécies de animais ameaçadas de extinção que vivem no Parque Nacional de Siemien estão em constante ameaça.

No início deste ano, dois incêndios devastaram um dos mais antigos patrimônios naturais da humanidade da Unesco. Os incêndios também destruíram o habitat de algumas das espécies mais raras do mundo: o lobo etíope com o pelo acobreado e o walia ibex, um mamífero caprino exclusivo da Etiópia.

Os supervisores do espaço destinado aos lobos no parque, entre eles Assefa, viram com binóculos dois homens incendiando as moitas de capim, porém não conseguiram identificá-los.

“Eles incendiaram cinco áreas do parque e o incêndio prolongou-se por vários dias. Moradores locais, ajudados por uma equipe de bombeiros israelenses, extinguiram o fogo”, disse Assefa.

Na mesma época, incêndios devastaram as montanhas Bale, no sul do país. Segundo especialistas, os incêndios, que duraram mais de 20 dias, foram provocados pela ação humana.

Esses incidentes que ameaçam as espécies de animais em extinção e os ecossistemas são consequência do descontentamento popular com o governo, da instabilidade política, do aquecimento global e do turismo de massa.

“A situação dos animais que vivem em seus habitats naturais é crítica e temo que algumas espécies serão praticamente extintas”, disse Greta Iori, consultora técnica da ONG novaiorquina Wildlife Conservation Society. 

A Etiópia foi um dos primeiros países da África a fundar parques nacionais. O Parque Nacional de Simien foi inaugurado em 1969 e hoje existem 20 parques nacionais e outras áreas de proteção à fauna e à flora do país. Em um país com poucos recursos naturais, como minérios e petróleo, os parques são uma importante fonte de renda. Segundo o Banco Mundial, o chamado “capital natural”, que inclui florestas e terras agrícolas, representa 40% da receita total da Etiópia.

Mas os parques estão em um estado lamentável. No Parque Nacional de Omo, no sul da Etiópia, perto da fronteira com o Quênia, o governo está construindo usinas de açúcar e criando projetos de irrigação de grandes áreas cultivadas. 

O Parque Nacional de Awash, o mais antigo do país, foi cortado em dois por uma ferrovia e uma autoestrada. Em mais um projeto para desenvolver a economia do país, o governo construiu uma fábrica de carbonato de sódio perto do Parque Nacional de Abijatta-Shalla, ao sul da capital Adis Abeba.

Os conflitos étnicos na região do leste da Etiópia tiveram um forte impacto na conservação do Santuário de Elefantes de Babile, um parque que abriga espécies raras de elefantes. De acordo com Iori, a partir de 2017, algumas minorias étnicas construíram assentamentos dentro do parque. Os funcionários esforçam-se para proteger os animais da caça ilegal, entre outras ameaças.

No Parque Nacional de Simien os problemas são menos graves. Mas durante os protestos políticos de 2016 os moradores locais invadiram o parque, cortaram árvores e alimentaram o gado nos pastos.

“Existe uma tensão constante entre os moradores e a administração do parque, sobretudo no que se refere à proibição de alimentar o gado nos pastos. Por isso, acho que os incêndios foram provocados pela população local”, observou Assefa.

Atualmente, 130 famílias moram em casas vizinhas ao parque. Além do custo elevado, realocá-las poderia aumentar a tensão. Em 2016, os cerca de 500 moradores do vilarejo de Gichi, próximo ao parque, concordaram em mudar para um povoado perto da cidade de Debark. A mudança custou ao governo em média US$ 17 mil por família. A indenização pela perda das casas foi mais do que justa, mas muitos reclamaram da falta de eletricidade ao chegarem e, mais tarde, queixaram-se da pouca oferta de empregos e ameaçaram voltar para Gichi.

Como em muitos países em desenvolvimento, é difícil encontrar o equilíbrio entre o atendimento às demandas da população e a preservação do meio ambiente.

Em 2015, o Ministério da Cultura e Turismo da Etiópia anunciou que iria triplicar o número de turistas para 2,5 milhões até 2020. Segundo um porta-voz do ministério, o turismo é uma fonte de renda importante para o país, além de gerar empregos. 

Mas o turismo de massa, segundo John Watkin, consultor da Africa Wildlife Foundation, é uma séria ameaça à sobrevivência dos animais que vivem no Parque Nacional de Simien. “A infraestrutura do parque não está preparada para receber um grande número de turistas”, afirmou Watkin.

Watkin sugere que a Etiópia estude a adoção de medidas de compartilhamento da responsabilidade de preservação do meio ambiente com as comunidades locais, medidas adotadas pelo Quênia e Tanzânia, onde a população administra pousadas ecológicas e empreendimentos turísticos. “Eles estão 20 a 30 anos à frente da Etiópia na procura do equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental”, disse Watkin. 

Fontes:
The Guardian-Last wolves in Africa: the fragile wildlife of Ethiopia's ravaged parks

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