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JORNADA MORTAL

Excesso de trabalho leva sul-coreanos à morte por exaustão

Centenas de pessoas morreram em 2017 devido ao excesso de trabalho, segundo dados do governo da Coreia do Sul

Excesso de trabalho leva sul-coreanos à morte por exaustão
Cultura enfatiza o mérito das longas horas de trabalho como um dever a cumprir (Foto: Pixabay)

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Park Hyun-suk, uma viúva que perdeu o marido por excesso de trabalho, demorou muito tempo até encontrar uma foto deles juntos. Mas achou bem mais rápido uma fotografia do marido com um macacão branco, a roupa que usava na fábrica em que trabalhava.

Chae Soo-hong trabalhava em uma distribuidora de alimentos especializada em jangjorim, uma comida coreana feita de carne cozida com molho de soja. Ele era encarregado de supervisionar a qualidade da produção e os prazos de entrega.

Durante a semana ele visitava as fábricas da empresa para supervisionar a produção. Aos sábados, Chae fazia um trabalho burocrático de organização de documentos no escritório da empresa. Ao chegar em casa, atendia telefonemas de empregados da fábrica, muitos deles imigrantes que precisavam de ajuda para se adaptarem à vida na Coreia do Sul.

“Em 2015, assim que Chae foi contratado a empresa tinha 30 funcionários. Quando morreu tinha 80 funcionários e seu volume de trabalho havia aumentado muito”, disse Park à CNN.

Chae morreu por volta das 19 horas de um sábado em agosto de 2017. De manhã, quando se preparava para ir ao escritório, ele se queixou que estava exausto, mas Park não se preocupou, porque ele sempre se sentia muito cansado. Seus colegas o encontraram morto no chão do escritório. Nunca se soube a causa da morte.

Segundo dados do governo, Chae foi uma das centenas de pessoas que morreram em 2017 devido ao excesso de trabalho. De acordo com estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico  (OCDE), os sul-coreanos trabalham, em média, mais horas por semana do que quase todos os outros países membros e 50% a mais do que os trabalhadores alemães.

Park atribuiu a morte de Chae ao excesso de trabalho e fez um pedido de indenização ao Korea Worker’s Compensation and Welfare Service (COMWEL). Porém, o COMWEL exigiu provas do número de horas extras que Chae fazia no trabalho.

“Em geral, ele saía de casa às 7 horas e voltava às 22 horas, mas a empresa não tinha um relógio de ponto para registrar a entrada e saída de funcionários”, disse Park.

Por fim, ela descobriu que a cabine do pedágio da autoestrada que o marido percorria durante a semana em direção ao trabalho tinha uma câmera que registrava os horários. Mas Chae fazia um caminho diferente para ir ao escritório aos sábados, sem registro de horários.

Mesmo sem a prova das horas extras aos sábados, Park conseguiu mostrar que o marido trabalhou mais de 180 horas nas semanas anteriores à sua morte e o COMWEL concordou em pagar a indenização.

Desde a morte de Chae, Park e outras pessoas participam de reuniões mensais em uma pequena sala de aula. Os participantes têm em comum a perda de um membro da família, em geral o pai ou o marido por excesso de trabalho.

Kang Min-jung fundou o grupo depois que o tio, que a criara desde pequena, morreu no local de trabalho. “Quis entender por que ele havia trabalhado tanto e decidi estudar a legislação trabalhista do Japão”, disse Kang.

O Japão estuda os casos de mortes por excesso de trabalho desde a década de 1980 e, hoje, a legislação trabalhista determina o número máximo de horas que um trabalhador tem de cumprir.

Assim que voltou para a Coreia do Sul, Kang começou a organizar as reuniões para discutir a questão das indenizações e de como mudar a cultura de trabalho tão enraizada no povo sul-coreano.

Kim Woo-tark, uma advogada trabalhista que participa das reuniões e ajuda as famílias com os pedidos de indenização ao COMWEL, disse que a Guerra da Coreia é responsável em grande parte por essa cultura que enfatiza o mérito das longas horas de trabalho como um dever a cumprir.

Em 1º de julho, o presidente Moon Jae-in aprovou uma lei que reduziu o número máximo de horas semanais de trabalho de 68 para 52 horas. Mas a lei só entrará em vigor em janeiro de 2019 e, no início, será aplicada apenas a empresas com mais de 300 funcionários.

Segundo o Ministério do Trabalho, em agosto foram criados 43 mil empregos, uma vez que a redução das horas de trabalho exigirá a contratação de novos funcionários.

Fontes:
CNN-South Koreans are working themselves to death. Can they get their lives back?

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