Início » Brasil » Gestores do IBGE entregam cargos em protesto pelo Censo 2020
CENSO 2020

Gestores do IBGE entregam cargos em protesto pelo Censo 2020

Em carta, quatro gestores destacam divergências em relação à atuação da nova presidente do IBGE e criticam o corte em questionários do Censo 2020

Gestores do IBGE entregam cargos em protesto pelo Censo 2020
O governo bloqueou 22% da verba prevista para a realização do Censo em 2019 (Foto: Facebook/Dalia Elena Romero)

Quatro coordenadores e diretores de área do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entregaram seus cargos na última quinta-feira, 6. A ação foi tomada em protesto contra a atuação da nova presidente do instituto, Susana Cordeiro Guerra.

De acordo com a informação antecipada pelo Globo, as baixas foram de Andrea Bastos, assessora da Diretoria de Pesquisas, responsável pela substituição do Diretor de Pesquisas e interlocutora da área econômica da instituição; Marcos Paulo Soares, responsável pelas amostras nas pesquisas realizadas pelo IGBE; Barbara Cobo, do setor de População e Indicadores Sociais, e a diretora de Demografia Leila Ervatti.

A entrega dos cargos foi anunciada em uma carta divulgada durante o lançamento da campanha “Todos pelo Censo 2020”.

“Desde que ela [Susana] assumiu, viemos num embate porque já tínhamos um trabalho de três anos de discussão com o corpo técnico para elaboração do Censo, e nossas propostas foram ignoradas. Eu, como diretora de Demografia, não posso me responsabilizar por um questionário que não contém perguntas que podem ter impactos nas projeções populacionais e consequentemente na distribuição do Fundo de Participação dos Municípios. Posso sofrer processos judiciais por isso”, afirmou Leila Evartti.

Em maio, o então diretor de pesquisas do IBGE, Cláudio Crespo, foi exonerado do cargo pela atual presidente do instituto. Por ser Crespo uma das principais vozes contra o corte de perguntas nos questionários aplicados pelo Censo 2020, funcionários especulam que a demissão foi acarretada por seu posicionamento.

Roberto Olinto, que presidiu o IBGE entre 2017 e 2019, e foi sucedido por Susana, também criticou a atuação da atual diretora à frente do instituto.

“Por que estamos aqui defendendo o Censo? Isso não faz sentido. Nunca foi preciso. Nunca precisamos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) nem do Banco Mundial para fazer pesquisa. Somos exportadores de conhecimento”, disse Olinto.

Além de criticar os cortes nos questionários, Olinto rechaçou a não participação do corpo técnico na discussão do questionário final, que foi reduzido. O questionário da amostra terá 76 perguntas – antes eram 112 -, enquanto, o básico, que é aplicado a 90% das famílias, terá 25 – em 2010 foram 34.

Assim como dois outros ex-presidentes do IBGE, Wasmália Bivar e Eduardo Pereira Nunes, Roberto Olinto solicitou que os atuais diretores-servidores do Instituto não abandonem seus cargos.

“Não saiam, resistam, porque há uma tentativa clara de divisão. Dentro do IBGE há um crescente desacerto na equipe, tristemente”, relatou Olinto.

Entenda o imbróglio

O impasse em torno do IBGE se iniciou com as declarações do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que questionou a veracidade do levantamento dos dados do instituto. Para Bolsonaro, a metodologia utilizada pelo IBGE não reflete à realidade brasileira.

O Censo, realizado pelo IBGE, é um estudo que possibilita o recolhimento de diferentes informações, como o número de homens, mulheres, crianças, idosos e locais de moradia. No Brasil, são executados nos anos de finais zero, ou seja, a cada dez anos. O último foi realizado durante a gestão do ex-presidente Lula, em 2010.

Crítico ao IBGE, o governo Bolsonaro bloqueou, inicialmente, 87% da verba prevista para a realização do Censo. Mais tarde, recuou e manteve o contingenciamento em 22%.

Segundo informações do Globo, a presidência do instituto já alertava, há dois anos, sobre possíveis dificuldades financeiras para realizar o Censo 2020. Isso porque, o orçamento inicial para o estudo era de R$ 3,4 bilhões para a contratação de recenseadores temporários para realizarem as visitas. No entanto, a verba foi reduzida para R$ 2,9 bilhões, segundo números da Secretária de Orçamento Federal.

Em contrapartida, em fevereiro deste ano, o ministro da Economia, Paulo Guedes, sugeriu que o IBGE vendesse parte dos seus prédios para viabilizar a realização do Censo. Além disso, recomendou publicamente que a pesquisa tivesse menos perguntas.

Leia mais: Bolsonaro tem um problema com as estatísticas

Fontes:
O Globo-Gestores do IBGE entregam cargos por discordarem de ações da nova presidência
G1-Servidores do IBGE entregam cargos em protesto contra mudanças no Censo, diz sindicato

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *