Início » Internacional » Governo afegão matou mais civis do que o Talibã em 2019
RELATÓRIO DA ONU

Governo afegão matou mais civis do que o Talibã em 2019

Relatório da ONU aponta que forças afegãs e aliadas da Otan mataram 717 civis no 1º semestre deste ano, contra 531 civis mortos por extremistas do grupo

Governo afegão matou mais civis do que o Talibã em 2019
Essa foi a primeira vez que governo afegão matou mais civis do que os fundamentalistas (Foto: Ariel Solomon/U.S. Army)

O governo do Afeganistão e forças aliadas, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), mataram mais civis do que os grupos fundamentalistas, como o Talibã e o Estado Islâmico, no primeiro semestre de 2019.

Os dados foram revelados pela Missão de Assistência da Organização das Nações Unidas (ONU) no Afeganistão (Unama) nesta terça-feira, 30. Segundo o relatório, as forças afegãs e aliadas causaram 717 mortes de civis, enquanto os grupos terroristas mataram 531 civis. Para a Unama, a constatação é “chocante e inaceitável”.

Por outro lado, o número de mortos (1.366 civis no total) foi o menor para o período desde 2013, quando 1.344 civis morreram. Já os números de feridos (2.446) e de baixas (3.812) foram os menores desde 2012, quando 1.979 pessoas ficaram feridas e 3.138 baixas foram registradas. As “baixas” são a soma do número de mortos com o de feridos.

Outros dados da Unama demonstram que 327 crianças morreram e 880 ficaram feridas devido aos confrontos no primeiro semestre de 2019. Já em relação às mulheres, foram constatadas 144 mortes e 286 civis feridas.

“As partes no conflito podem dar explicações diferentes para as tendências recentes, cada uma projetada para justificar suas próprias táticas militares. […] O fato é que apenas um esforço determinado para evitar danos aos civis, não apenas cumprindo as leis humanitárias internacionais, mas também reduzindo a intensidade dos combates, diminuirá o sofrimento dos afegãos civis”, destacou o chefe dos Direitos Humanos da Unama, Richard Bennet.

Essa foi a primeira vez em mais de dez anos que as mortes causadas pelas forças afegãs e aliados superaram as mortes de civis por parte dos grupos terroristas. O chefe da Unama e representante especial do Secretário-Geral da ONU no Afeganistão, Tadamichi Yamamoto, relembrou as negociações de paz ocorridas em Doha, no Catar, para pedir o fim das baixas civis nos conflitos do Afeganistão.

“Todos ouviram a mensagem alta e clara dos delegados afegãos nas negociações de Doha – ‘reduza as baixas civis para zero!’. […] Pedimos a todas as partes que atendam a este imperativo, para responder ao apelo dos afegãos por medidas imediatas a serem tomadas para reduzir o terrível dano infligido”, apontou Yamamoto.

Apesar dos dados detalhados pela Unama, os números foram rejeitados pelo coronel Sonny Leggett, porta-voz das Forças Armadas dos Estados Unidos no Afeganistão. Os militares americanos deixaram oficialmente o combate no país em 2014, mas continuam atuando como apoio às forças governamentais.

De acordo com Leggett, a coleta de informações feita pelos Estados Unidos é “mais completa, probatória e precisa”, disse à rede Al Jazeera. Apesar da afirmação, Leggett não apresentou dados para comprovar a discordância, mas garantiu que os EUA trabalham próximos ao governo do Afeganistão para evitar danos aos “civis e não-combatentes”.

O Talibã tem o controle de cerca de metade do Afeganistão. O grupo rejeita um acordo de cessar-fogo enquanto forças estrangeiras continuarem atuando no país. A falta de um acordo de paz segue expondo os civis ao risco no Afeganistão, segundo apontou a diretora associada da Human Rights Watch na Ásia, Patricia Gossman.

“Ganhar influência nas negociações de paz não deve ser à custa de tal carnificina em ambos os lados. […] A alegação de que os talibãs usam civis como escudos não é desculpa para ataques desproporcionais. […] Na verdade, nem os EUA nem o governo afegão investigam adequadamente as mortes por ataques aéreos, ou responsabilizam suas forças por ataques que causam mortes de civis”, destacou Gossman.

No gráfico abaixo, divulgado pela Unama, todos os números de mortos (representados pela cor vermelha), de feridos (representados pela cor cinza) e de baixa (a soma dos números) dos meses de janeiro a junho dos últimos anos.

Foto: Unama

Leia também: Talibã e Estados Unidos concordam em estruturar acordo de paz
Leia também: Talibã, a ameaça que permanece

Fontes:
BBC-Afghanistan war: UN says more civilians killed by allies than insurgents
The Guardian-Afghan government and Nato killing more civilians than the Taliban
Al Jazeera-UN: Nearly 4,000 Afghans killed and wounded in first half of 2019

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *