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EDUCAÇÃO

Governo da Hungria impõe visão ultraconservadora na educação

Novos livros didáticos aprovados pelo governo fazem parte de uma reorganização extremamente preocupante do sistema educacional do país

Governo da Hungria impõe visão ultraconservadora na educação
Novos livros expõem uma visão ultranacionalista e preconceituosa em relação a imigrantes (Foto: Pixabay)

Basta folhear as páginas de um livro de história para estudantes do ensino médio na Hungria, para que o leitor perceba a visão do governo sobre os imigrantes.

O capítulo “Multiculturalismo” começa com uma foto de refugiados acampados embaixo de uma estação ferroviária de Budapeste. Ao lado da foto lê-se uma frase de um discurso do primeiro-ministro Viktor Orbán sobre os perigos da imigração: “Orgulhamo-nos de a Hungria ser um país homogêneo.”

Os novos livros didáticos aprovados pelo governo húngaro fazem parte de uma reorganização extremamente preocupante do sistema educacional do país.

Os críticos dizem que os livros didáticos são instrumentos usados pelo governo para reformular o sistema educacional no contexto de sua concepção de nacionalismo cristão. O primeiro-ministro Orbán também eliminou programas acadêmicos opostos aos seus valores ultraconservadores, o que obrigou uma das principais universidades da Hungria a transferir seus cursos para o exterior.

A intervenção do Estado no sistema educacional coincidiu com as semanas de protestos nas ruas contra a política autocrática de Orbán. Os sinais de descontentamento popular revelaram uma fraqueza em seu controle rígido da Hungria.

Desde que o partido populista Fidesz, de Orbán, assumiu o poder em 2010 e obteve uma vitória esmagadora nas eleições de abril do ano passado, o governo está à frente de um “programa de reforma educacional ambicioso”, disse o porta-voz do governo, Zoltan Kovacs, aos jornalistas da CNN, durante a visita deles à Hungria no final de 2018.

Antes, os governos locais supervisionavam as escolas públicas do país. Mas nos últimos anos o Estado assumiu essa responsabilidade, além do fornecimento de livros didáticos. Segundo Kovacs, “por fim, depois de quase 20 anos conseguimos assumir a responsabilidade de financiar e administrar o sistema educacional do país”.

Os livros didáticos são escritos por diversos especialistas sob supervisão do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação (OFI), administrado pelo Estado, disse Ildiko Repárszky, professor de história e autor de algumas das versões anteriores. O conselho editorial do OFI, acrescentou Repárszky, tem a liberdade de mudar o texto desses colaboradores, a fim de adaptá-lo à visão do governo.

Em meio às reformas, a Universidade Centro-Europeia (CEU), fundada em Budapeste, pelo investidor húngaro-americano George Soros, anunciou em janeiro que, “coagido por um governo hostil”, iria transferir a universidade para Viena, na Áustria.

Professores da CEU, uma universidade de renome internacional, chamaram de “dia sombrio” para a Hungria e para os países da Europa Central, o anúncio da transferência da universidade. O governo apenas comentou que era mais um blefe político ao estilo de Soros.

Em seu pequeno escritório no centro de Budapeste, Laszlo Miklosi, presidente da Associação Nacional de Professores de História, abre um livro de história para jovens de 14 e 15 anos.

No capítulo sobre “Multiculturalismo”, ele mostra um discurso que Orbán fez no Parlamento Europeu em maio de 2015, no qual expôs a posição da Hungria em relação aos imigrantes.

No discurso, o primeiro-ministro disse que os húngaros orgulhavam-se de a Hungria ser um país homogêneo em termos de “cultura”, “aparência” e “modo de pensar”. Uma maneira indireta de demonstrar o preconceito e a discriminação contra os imigrantes, que iriam romper essa homogeneidade, disse Miklosi.

A atitude desafiadora de Orbán em relação à União Europeia é visível em uma ilustração mostrando a Alemanha como uma porca enorme alimentando porquinhos com as bandeiras da Grécia, Espanha, Bélgica e Portugal. Afastado do grupo, o porquinho com a bandeira da Hungria mastiga, feliz, um capim viçoso.

No mesmo livro de história, no capítulo sobre “Declínio da População e Imigração”, outra ilustração mostra um menino e uma menina húngaros com a seguinte legenda: “Para um número crescente de húngaros, a Hungria é o melhor lugar para viver.”

É uma imagem que enfatiza os sentimentos patrióticos dos jovens húngaros e a admiração que sentem por seu país natal. Ao mesmo tempo, implicitamente, revela que os imigrantes poderiam perturbar essa harmonia, observou Repárszky.

Na opinião de Miklosi, que revisa livros didáticos há mais de 30 anos, a retórica anti-imigração de Orbán introduziu-se ilicitamente nas salas de aula e nos pátios das escolas. “Hoje, a palavra ‘imigrante’ tem uma conotação pejorativa não só entre adultos”, acrescentou Miklosi.

A poucos quarteirões do escritório de Miklosi, Akos Blaskovics, um jovem de 18 anos, terminou de assistir a uma aula de história em sua escola. Entrevistado pela CNN, Akos disse que a retórica do governo concentra-se na questão da imigração, em vez de dar destaque a temas mais importantes como educação, saúde e problemas sociais.

Em um pequeno povoado a 30 minutos de carro de Budapeste, o escritório do editor András Romankovics é repleto de estantes de livros organizados por décadas.

O ex-professor e sua esposa começaram a publicar livros didáticos em 1978 e, segundo seus cálculos, sua editora já publicou cerca de 10 milhões de livros.

As licenças de publicação de livros didáticos precisam ser renovadas a cada cinco anos. Romankovics e mais quatro editores de livros didáticos estão processando o governo depois que seus pedidos de renovação das licenças foram negados.

Porém, as licenças de livros didáticos patrocinados pelo Estado tiveram seu prazo de licença prorrogado, disse Romankovics.

Enquanto editores independentes lutam para manter seus livros didáticos nas escolas, os professores universitários enfrentam dificuldade para lecionar suas disciplinas nas universidades da Hungria.

Na sede da Universidade Centro-Europeia, Eva Fodor, professora de estudos de gênero, lamenta o fato de o governo ter eliminado sua disciplina do currículo acadêmico.

A Universidade Eötvös Loránd (ELTE), a única universidade húngara com estudos de gênero em seu currículo, também foi obrigada a eliminar a disciplina.

“É uma violação clara e sem precedentes da liberdade acadêmica. Orbán quer impor uma ideologia baseada no orgulho nacional e em sua visão de valores cristãos e conservadores no sistema educacional”, disse Fodor.

De acordo com Kovacs, os cursos de estudos de gênero foram extintos por causa do pequeno número de alunos matriculados e de uma abordagem filosófica do governo.

“Acreditamos que existem apenas dois sexos, masculino e feminino. Portanto, em nossa visão, os estudos de gênero não constituem uma disciplina à parte. Os alunos interessados no assunto podem pesquisá-lo nos cursos de ciências sociais, direito e psicologia, por exemplo”, disse Kovacs.

 

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Fontes:
CNN-Why Hungary's state-sponsored schoolbooks have teachers worried

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1 Opinião

  1. Ana disse:

    Pesquisem sobre o Plano Kalergi e vão entender o porque que o liberalismo e imigração em massa foram impostos nos países europeus. Viktor Orbán tem um alto apoio popular na Hungria, principalmente dos pais que querem proteger seus filhos do marxismo cultural e dos imigrantes.

    Que homem horrível por não querer imigrantes cometendo crimes, estupros em gangue, assassinatos e substituindo a população local, em muitos lugares os europeus já são minoria, e se continuar eles vão perder os próprios países e isso constitui como crime de genocídio. Essa atitude contra o marxismo cultural era para ter sido tomada há muitos anos em todos os países, parabéns Orbán por ser um grande líder protegendo o seu povo e a sua nação! Liberalismo é uma das coisas mais destrutivas e abusivas que existem, isso tem que ser combatido no mundo inteiro.

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