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Índia rodopia em torno do flagelo do estupro

Dois casos brutais de estupro coletivo tornam a acirrar o debate na Índia sobre um flagelo que as autoridades parecem sem empenho ou incapazes de combater

Índia rodopia em torno do flagelo do estupro
A Índia é um dos países mais perigosos para mulheres (Foto: Twitter/AJ+)

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Dois casos brutais de estupro coletivo despertaram a ira popular na Índia e acirraram o debate sobre o alto – e persistente – índice deste tipo de crime no país.

Na última quinta-feira, 5, segundo noticiou a rede Al Jazeera, uma mulher foi atacada por cinco homens quando estava a caminho do tribunal, onde prestaria depoimento sobre o estupro coletivo que sofreu em março deste ano.

O caso aconteceu na cidade de Unnao, no estado de Uttar Pradesh, norte do país. A mulher, que não teve o nome divulgado, foi interceptada pelos cinco homens, que a dominaram, despejaram gasolina em seu corpo e atearam fogo.

Ela foi encontrada por policiais com 80% do corpo queimado e levada para um hospital, onde segue em estado crítico. Ela relatou aos agentes que, entre os agressores, estavam dois homens que participaram do estupro em março. Na época, a polícia conseguiu identificar e prender alguns dos acusados. Um deles foi solto na semana passada, mediante pagamento de fiança.

O crime ocorre uma semana após outro caso brutal de estupro coletivo seguido de assassinato no sul do país desencadear protestos.

Na sexta-feira, 29, uma veterinária de 27 anos foi vítima de estupro coletivo e assassinada na cidade de Hyderabad, no estado de Telangana. Quatro homens se aproximaram da vítima e se ofereceram para ajudar a trocar o pneu furado de sua motocicleta. Eles sequestraram a vítima e levaram para um local deserto, onde ela foi estuprada e assassinada. Em seguida, os criminosos enrolaram o corpo da vítima em um cobertor, despejaram querosene e atearam fogo.

Após uma investigação, os quatro apontados foram presos no sábado, 30. No mesmo dia, centenas de pessoas se reuniram em frente ao departamento de polícia onde os agressores foram mantidos em custódia para pedir por punição rápida e rigorosa. Alguns dos presentes pediam que os agentes entregassem a eles os detidos para que fossem linchados.

Segundo noticiou a rede Al Jazeera, na quinta-feira, os detidos foram executados pelos agentes quando deixaram a carceragem e seguiram para a cena do crime para fazer a reconstituição. Segundo os agentes, os quatro homens tentaram fugir e foram mortos pelos policiais. Em entrevista à AFP, o vice-chefe da polícia de Hyderabad disse que os detidos tentaram roubar as armas dos policias e foram mortos a tiros.

“Chamamos uma ambulância, mas eles morreram antes que qualquer ajuda médica pudesse alcançá-los”, disse o agente.

Porém, há a suspeita de se tratar de uma execução extrajudicial levada a cabo para acalmar a população. A polícia indiana é constantemente acusada de promover execuções sumárias, especialmente em regiões de conflito, como a Caxemira.

Alguns receberam com satisfação a notícia da morte dos quatro detidos, entre eles o pai da veterinária morta. “Faz dez dias que minha filha morreu. Eu expresso minha gratidão à polícia e ao governo por isso [a execução dos detidos]. O espírito de minha filha deve estar em paz agora”, disse ele à agencia de notícias indiana ANI.

Em contraponto, parlamentares e ativistas criticaram a execução, afirmando que a medida, embora ofereça uma rápida sensação de resposta diante de crimes bárbaros, é ilegal e não soluciona de fato um problema em torno do qual a Índia parece rodopiar sem conseguir prevenir e combater efetivamente.

Majeed Memon, líder do Partido Nacionalista do Congresso indiano, destacou que muitas vezes há falta de resposta logo nas primeiras denúncias. Em uma postagem no Twitter, ele citou o caso da vítima de Unnao, atacada quando seguia para o tribunal.

“Uma sobrevivente em Unnao está lutando por sua vida com 80% do corpo queimado. Ela fez duas queixas de ameaças de estupro no início do ano, ainda assim não conseguimos protegê-la. Patético”, escreveu o parlamentar.

Em uma postagem posterior, Memon destacou ser contra o uso da execução extrajudicial como resposta. “Apesar de toda nossa solidariedade às vítimas de estupro e da nossa condenação e ódio aos estupradores, não aprovamos atos de execução extrajudicial por parte de policiais com uma história encenada”, destacou o parlamentar.

O mesmo entendimento teve a diretora da Humans Right Watch para o sul da Ásia, Meenakshi Ganguly. “Para aplacar a indignação popular contra as falhas do Estado no combate a crimes sexuais, as autoridades indianas cometem outra violação. Os policiais ou executaram os suspeitos em Hyderabad ou foram incompetentes, permitindo que eles escapassem e depois matando-os a tiros, em vez de capturá-los”, destacou Ganguly.

De fato, o combate a crimes sexuais tem sido um ponto sensível para a Índia. Mais de 33 mil mulheres foram estupradas no país em 2017 – uma média de 90 estupros por dia -, segundo os dados mais recentes do departamento nacional de registros de crime do país.

Porém, estima-se que o número é muito mais alto, uma vez que muitas vítimas não reportam os casos por medo ou vergonha. Além disso, segundo dados do departamento, 90% dos casos reportados de crimes contra mulheres estão parados em tribunais espalhados pelo país – que, segundo um levantamento da Thomson Reuters Foundation, é um dos mais perigosos do mundo para mulheres.

O estado de  Uttar Pradesh, o mais populoso da Índia, é conhecido por ser o que tem as piores respostas a casos de crimes contra mulher. Mais de 4 mil casos de estupro reportados em 2017 ocorreram no estado.

Em agosto deste ano, o partido BJP, do primeiro-ministro Narendra Modi, foi amplamente criticado pela oposição, que acusou a legenda governista de proteger um de seus membros em Uttar Pradesh acusado de estupro, coerção e tentativa de assassinato.

Kuldeep Singh Sengar foi acusado de estuprar uma jovem de 19 anos. Em agosto, quando a jovem seguia para depor sobre o caso, o carro em que ela, seu advogado e duas tias estavam foi atingido por um caminhão. A jovem e o advogado sobreviveram em condições críticas, as duas tias morreram. O motorista do caminhão foi preso e Sengar foi expulso do BJP. Ele foi acusado de tentar executar a jovem.

Em dezembro de 2012, a Índia ganhou as manchetes de noticiários ao redor do mundo por conta de um brutal caso de estupro perpetrado dentro de um ônibus, na capital Nova Délhi. No dia 16 daquele mês, a jovem Jyoti Singh Pandey, de 23 anos, foi ao cinema com o namorado para assistir ao filme “A Vida de Pi”. A sessão acabou por volta das 21h30 e o casal decidiu voltar para casa de ônibus. Pouco depois de entrar no coletivo, eles foram atacados seis homens, incluindo o motorista do veículo.

A jovem foi espancada e estuprada por todos os seis homens repetidas vezes e teve uma barra de ferro introduzida em seus órgãos genitais. Dominado e espancado o namorado não conseguiu ajudar a companheira. Pouco mais de uma hora depois, ambos foram jogados para fora do ônibus nus. A jovem teve órgãos internos prejudicados e seu útero, perfurado pela barra de ferro, precisou ser removido. Após cinco cirurgias, o intestino também precisou ser retirado. Ela morreu no hospital poucos dias depois.

Mesmo diante do ultraje global, a história se repetiu semanas depois, quando uma jovem que voltava da casa dos pais foi estuprada por sete homens em um ônibus. Assim como no caso anterior, o motorista do coletivo participou do crime.

A falha da polícia em combater o estupro e a violência contra a mulher, assim como a faltas de políticas públicas de combate a esse flagelo, foi alvo de protestos e alimentaram um intenso debate na ocasião.

Na época, também geraram indignação na população feminina as críticas que jogavam a culpa pelo ocorrido nas vítimas. Críticos apontavam que as jovens não deveriam estar nas ruas sozinhas ou tarde da noite.

O maior furor foi despertado pelo líder espiritual Asaram Bapu, que culpou
Jyoti Singh Pandey pelo estupro coletivo que a levou à morte.

“Os cinco ou seis homens bêbados não eram os únicos culpados. A garota também foi responsável. Ela deveria ter chamado os agressores de ‘irmãos’ e implorado antes que parassem. Isso poderia ter salvado sua dignidade e vida. Uma mão sozinha pode bater palmas? Acho que não”, disse Bapu.

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