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MAL-ESTAR DIPLOMÁTICO

Liga Árabe estuda resposta ao Brasil por escritório em Jerusalém

No último dia 15, o Brasil inaugurou um escritório comercial em Jerusalém, considerado o 1º passo para a transferência da embaixada brasileira

Liga Árabe estuda resposta ao Brasil por escritório em Jerusalém
Liga Árabe classificou a iniciativa do Brasil como ‘ilegal’ (Foto: League of Arab States)

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O conselho da Liga Árabe se reuniu em sessão extraordinária na última quinta-feira, 19, para discutir medidas a serem tomadas em resposta à inauguração do escritório comercial do Brasil na cidade de Jerusalém.

O escritório é apontado pelos governos de Brasil e Israel como um passo inicial para a transferência da embaixada brasileira no país de Tel Aviv para Jerusalém. A inauguração do escritório ocorreu no último dia 15. Participaram da inauguração o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Em comunicado, o conselho informou que considera “ilegal” a iniciativa do governo brasileiro, disse que a medida expressa apoio à política de ocupação do território palestino promovida por Israel e que “representa uma mudança radical na posição histórica do Brasil em relação à questão palestina”.

O documento também destaca que o secretário-geral da Liga Árabe, Ahmad Nayef Al-Dulaimi, enviou no dia 4 de novembro uma carta ao ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, expressando a forte insatisfação em relação à iniciativa, afirmando que ela pode afetar negativamente a relação histórica entre o Brasil e países árabes. Na carta, Dulaimi exortou o chanceler a desistir da iniciativa. Uma segunda carta expressando a rejeição em relação à iniciativa foi enviada a Araújo no último dia 12.

A relação do Brasil com a Liga Árabe foi abalada em novembro do ano passado, quando logo após ser eleito presidente Bolsonaro concedeu uma entrevista ao jornal israelense Israel Hayom na qual informou sua intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. A medida emula a ação do presidente americano Donald Trump, que um ano antes reconheceu Jerusalém como capital de Israel e anunciou a transferência da embaixada americana para a cidade.

Na época em que o presidente brasileiro concedeu a entrevista, seu filho, Eduardo Bolsonaro, afirmou em coletiva dada após uma visita ao conselheiro e genro de Trump, Jared Kushner, na Casa Branca, que a transferência da embaixada brasileira já estava decidida e que “não é questão de se, mas de quando”.

A empreitada de Jair Bolsonaro acendeu o alerta em países árabes. Dias após a entrevista ao Israel Hayom, o Egito chegou a cancelar uma visita do então chanceler brasileiro, Aloysio Nunes, ao país, em retaliação ao plano de transferência. Na ocasião, a Liga Árabe já havia se manifestado contra a transferência e pediu que Bolsonaro reconsiderasse o posicionamento.

Em abril deste ano, por pressão do setor agroindustrial – que teme que a transferência da embaixada prejudique a exportação de carne brasileira a países árabes, que são grandes compradores do produto – Bolsonaro recuou e anunciou a inauguração do escritório, em vez da transferência da embaixada.

Poucos dias depois, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, se reuniu com representantes de 51 países árabes, num esforço para tentar contornar o mal-estar. Representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) participaram do encontro.

A reunião, no entanto, serviu apenas para acalmar momentaneamente o furor dos países árabes, uma vez que o governo brasileiro continuou a afirmar não ter desistido dos planos de transferir a embaixada.

O que está em jogo?

A parceria e o bom relacionamento do Brasil com países árabes são considerados cruciais por conta do peso da troca comercial.

O Brasil é atualmente um dos maiores exportadores do mundo de carne halal, cujo preparo é feito de acordo com os preceitos muçulmanos. Segundo a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), 45% de toda a carne de frango e 40% da carne bovina que o Brasil exporta levam o selo halal.

Além disso, a parceria comercial com países da Liga Árabe é muito mais vantajosa economicamente para o Brasil. Para ter uma ideia, somente em 2017, o Brasil registrou um superávit de US$ 7,1 bilhões em transações com países do bloco. Em contraponto, o país registrou um déficit de US$ 419 milhões em negociações com Israel, segundo dados da Bloomberg, que em novembro do ano passado consultou exportadores brasileiros.

Além disso, em janeiro deste ano, o Brasil registrou recorde na exportação para países árabes. Segundo dados divulgados pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, as vendas do país à região somaram US$ 1,2 bilhão em janeiro.

A cifra representa um aumento de 18% em relação a janeiro de 2018, além do melhor desempenho para o mês registrado nos últimos dez anos. Os itens mais vendidos foram a carne de frango, com US$ 174 milhões, milho (US$ 164 milhões) e açúcar (US$ 154 milhões).

Qual a importância da sede da embaixada?

A questão da embaixada é um ponto nevrálgico para israelenses e palestinos. Isso porque a transferência do órgão diplomático de Tel Aviv para Jerusalém representa o reconhecimento da cidade como capital de Israel.

Jerusalém é uma cidade sagrada para as três maiores religiões monoteístas do mundo: judaísmo, cristianismo e islamismo. Ela é reivindicada como capital por Israel e pela Palestina. Atualmente, ela é dividida por ambos os Estados.

Todos os países com embaixadas em Israel mantêm suas sedes em Tel Aviv por respeito à convenção internacional de que a disputa pela cidade como capital ainda não foi resolvida.

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