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Obituários na Rússia escondem assassinatos homofóbicos

Ninguém pode dizer com que frequência isto acontece, mas ocorre o bastante para ser reconhecido como um padrão nos obituários

Obituários na Rússia escondem assassinatos homofóbicos
Existe uma arte em ler obituários, quem viveu a epidemia de Aids no ocidente e prestou atenção, sabe disso (Foto: Pixabay)

Um jornalista foi morto em São Petersburgo na semana passada, mas ninguém pediu uma investigação completa sobre o assunto. Ninguém parece suspeitar que ele foi morto por causa de seu trabalho.

Existe uma arte em ler obituários, quem viveu a epidemia de Aids no ocidente e prestou atenção, sabe disso. Nas décadas de 1980 e 1990, se um jornal americano relatasse que um jovem morreu e não mencionasse a causa ou simplesmente dissesse que foi uma falha respiratória, havia uma hipótese segura que, na verdade, ele tinha morrido de Aids.

Na Rússia contemporânea, há um obituário equivalente, que diz que o homem foi encontrado morto em seu próprio aparatamento e não havia vestígios de entrada forçada. Quando isso acontece com alguém conhecido, quem escreve o obituário geralmente se refere a uma “morte trágica” e não a um assassinato. O que eles querem dizer é que o morto era gay e que aparentemente foi morto por alguém que levou para casa.

Ninguém pode dizer com que frequência isto acontece, mas ocorre o bastante para ser reconhecido como um padrão. A maioria da comunidade LGBT na Rússia conhece alguém que foi morto nestas condições. Quando Alexandre Smirnov, uma autoridade da prefeitura de Moscou, resolveu assumir sua homossexualidade numa entrevista há três anos, ele resolveu falar sobre este assunto também.

“Dois anos atrás, alguém que eu conhecia morreu. Ele foi encontrado morto em seu apartamento, nu, esfaqueado até a morte. Ele era gay. Sabe o que aconteceu? Gays geralmente conhecem parceiros online. Só que há gangues que vão para casas de homossexuais, os matam e os roubam. Suas famílias escondem as histórias, claro.”

Uma amiga de Smirnov implorou para que ele fosse cuidadoso e não convidasse ninguém que conhecesse online. Só que ele não era assumido e tinha medo de frequentar lugares públicos para conhecer pessoas novas. Então, Smirnov convidou alguém que tinha conhecido online. A pessoa trouxe outra e eles tentaram matá-lo.

Apesar de estar sangrando, quase perdendo a consciência, ele implorou pela sua vida. Ele se sentiu extremamente envergonhado e não ligou para ambulância nem prestou queixa na polícia, porque teria que contar toda a história. Como não podia dizer nada no trabalho, pediu que amigos avisassem que tinha sido atacado num ponto de ônibus. “Agora eu me culpo por ter sido fraco, porque esses dois podem matar outra pessoa”.

Logo depois que tornou a história pública, ele deixou o país. Agora, ele vive em Nova York.

Quando o jornalista foi encontrado morto na semana passada, seus amigos escreveram coisas como “há detalhes, mas não vou falar sobre eles”. Também escreveram frases semelhantes sobre a morte dos atores Vyacheslav Titov, em dezembro de 2011, e Alexei Devotchenko, em novembro de 2014. O que ninguém escreve é sobre a campanha anti-gay do Kremelin, que além de forçar as pessoas a viverem escondidas e comunicar ao público que a violência homofóbica vai passar impune, ela assegura que estes assassinatos continuem a acontecer.

Fontes:
The New York Times-The Art of Reading Russian Obituaries
Voz da Rússia-Os gays na sociedade russa: total liberdade, mas em sigilo

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