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NICARÁGUA

Protesto do ‘Batom Vermelho’ contra Ortega toma as redes sociais

Na Nicarágua, episódio envolvendo prisão arbitrária de ativista desencadeia onda de protesto nas redes sociais contra o ditador Daniel Ortega

Protesto do ‘Batom Vermelho’ contra Ortega toma as redes sociais
Nicaraguenses postam foto com a hashtag 'Eu sou batom vermelho' (Foto: Twitter)

O batom vermelho é a nova arma dos nicaraguenses para protestar contra o governo ditatorial de Daniel Ortega. Um protesto nas redes sociais vem reunindo mulheres e homens utilizando a hashtag #yosoypicorojo (eu sou boca vermelha, em tradução livre).

A campanha foi inspirada em um episódio envolvendo uma mulher, de 68 anos, que foi presa arbitrariamente no último domingo, junto a dezenas de manifestantes. Mãe de quatro filhos e avó de cinco netos, a ativista e socióloga Marlen Chow Cruz foi levada para a prisão de El Chipote, que é conhecido como uma prisão de tortura. Na cela, encontrou um batom vermelho em sua bolsa, passando para os demais presos.

Quando um policial perguntou “a qual organização terrorista pertencia”, Marlen respondeu que fazia parte da Associação das Mulheres Nicaraguenses de Batom Vermelho (pico rojo, em espanhol). Marlen relatou que os guardas ficaram desconcertados. “Não sabiam do que se tratavam ficaram sem reação”, disse a socióloga. “Prisão é um ambiente de humilhação, repressão. Tive a ideia do batom vermelho para sair dessa situação mental. Usamos o recurso que tínhamos para demonstrar nossa rebeldia diante daquela situação, de termos sido sequestradas”, completou a ativista.

Após a divulgação do caso, milhares de nicaraguenses que atualmente lutam contra o governo fizeram do episódio uma campanha contra Ortega. Marlen foi solta no mesmo dia e afirma que os protestos feitos através das redes sociais são meios de cobrar a liberdade de outras pessoas que continuam presas – organizações de direitos humanos dizem ainda ter 38 detidos, mas a socióloga afirma ter mais.

“Há muito tempo, insistimos na resistência pacífica diante da repressão armada das forças militares. Assim vamos conseguir muito mais do que se começássemos uma luta armada, com milhares de mortos”, afirma Marlen.

Situação caótica

A Nicarágua está passando por sua maior revolta desde o fim da guerra civil no país, em 1990. Os nicaraguenses protestam contra a censura do governo de Daniel Ortega e o assassinato de manifestantes.

As manifestações tiveram início por conta de uma reforma na Previdência, imposta por meio de um decreto em abril deste ano. A rejeição popular estimulou o início dos protestos, que cresceram diante da brutal repressão policial.

Os protestos fizeram com que Ortega recuasse na reforma. No entanto, o presidente não teria mencionado em seus discursos os manifestantes mortos durante os protestos, o que irritou ainda mais a população.

Entre os manifestantes, muitos são eleitores de Ortega, que foi um dos principais nomes da revolução contra a ditadura de Anastasio Somoza Debayle, que chegou ao fim em 1979. Ortega, que comanda o país de forma autoritária, perdeu o controle da população e está sob forte pressão para renunciar ao cargo.

Vários países e órgãos internacionais já solicitaram que a Nicarágua interrompa a repressão e amplie o diálogo com a população e entidades representantes. Mesmo assim, o governo de Ortega parece ignorar todas as recomendações e, desde o início de junho, intensificou a repressão aos protestos.

Repressão e uso de força desproporcional

No início desta quinta-feira, 18, a Anistia Internacional divulgou um novo relatório, apontando graves violações de direitos humanos e crimes de direito internacional cometidos pelas forças do governo nicaraguense entre os dias 30 de maio e 18 de setembro deste ano.

Segundo o relatório, até o dia 18 de setembro, 322 pessoas morreram, entre elas 22 policiais, e mais de 2 mil ficaram feridas. Já o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) revela ainda que foram presas quase 450 pessoas durante esses meses. A Anistia Internacional afirma ainda que pelo menos 300 pessoas foram acusadas de participar de protestos desde o dia 18 de agosto, mas não conseguiu encontrar evidências de alguém sendo acusado por violação de direitos humanos.

“As autoridades nicaraguenses devem desarmar imediatamente todas as forças armadas pró-governo e garantir que a polícia use apenas força legítima, proporcional e necessária durante as manifestações, quando apropriado. Em vez de criminalizar os manifestantes como ‘terroristas’ e ‘golpistas’, o presidente Ortega deve garantir os direitos das pessoas à reunião pacífica e à liberdade de expressão”, afirmou Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional nas Américas.

Chamado de ”Instilling Terror: From lethal force do persecution in Nicaragua”, o documento da Anistia Internacional relata, pelo menos, seis execuções extrajudiciais, o que constitui crimes de direito internacional. Entre os crimes está o assassinato de um adolescente de 16 anos por policiais de Ortega. O jovem estava carregando um estilingue quando foi baleado.

Ademais, o relatório também reúne diferentes casos de possíveis detenções arbitrárias por parte das forças governamentais, além de casos de tortura, incluindo sexual. A tortura sexual  teria ocorrido dentro de um centro de detenção oficial.

Por fim, a Anistia Internacional revela que dezenas de milhares de pessoas já deixaram a Nicarágua por medo da repressão do governo. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) revelou que quase 8 mil pessoas pediram asilo na Costa Rica, enquanto outras 15 mil devem solicitar nas próximas semanas.

 

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Fontes:
Folha de S.Paulo-Nicaraguenses protestam usando batom vermelho nas redes sociais

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