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Quem disse que menina quer ser princesa?

Oficina e coleção de livros visam ampliar a visão de mundo das crianças

Quem disse que menina quer ser princesa?
Atividade da oficina de 'Desprincesamento' no Chile (Foto: Facebook/Desprincesamiento en Iquique)

A ideia de ser feliz para sempre com um príncipe encantado não aparenta ser tão ruim à primeira vista. Mas existe muito mais por trás destas histórias que podem influenciar a forma como as próprias meninas se enxergam.

Não é a toa que uma oficina no Chile está fazendo tanto sucesso. Chamada de “Desprincesamento”, a ideia é ampliar a visão das meninas para que nenhum estereótipo as limite. O projeto é uma iniciativa do Escritório de Proteção dos Direitos da Infância (OPD, na sigla em espanhol) da cidade de Iquique, no Chile.

Facebook/Desprincesamiento en Iquique

Meninas de 9 a 15 anos podem participar da oficina (Foto: Facebook/Desprincesamiento en Iquique)

Tendo como referência projetos anteriores, a oficina de “Desprincesamento” aconteceu no início deste ano. Por conta do sucesso, o Serviço Nacional de Menores resolveu ampliar a iniciativa a partir de oficinas parecidas em todo o Chile. Por agora estão acontecendo oficinas semelhantes nas cidades de Arica, Antofagasta e Santiago.

O projeto de Iquique foi elaborado pelas psicólogas Lorena Cataldo e Jendery Haldin, e pelo sociólogo Yuri Bustamante, que também é coordenador da OPD. Meninas de 9 a 15 anos podem participar da oficina.

Bustamante explica que apesar de sabermos que meninos e meninas têm os mesmos direitos, vivemos em um contexto de desigualdade de gêneros, por conta do estereótipo de como as meninas são, o que acaba por fazer com que elas próprias se sintam “limitadas” e acabem por não desenvolver todas as suas potencialidades. Este processo que constrói uma “menina limitada” é o que ele chama de “princesamento”. Portanto, o ato de “desprincesar” seria reverter a situação a partir de conversas e atividades que façam com que a menina reflita para que ela fortaleça sua autoestima e amplie sua visão de mundo.

Ele também diz que o grupo não quer passar a ideia de que contos de fadas são bons ou ruins, porque o “princesamento” vai muito além destas histórias, tendo mais a ver com a construção da identidade das meninas, seja pela família ou pelos meios de comunicação, por exemplo.

Mas será que a menina realmente tem uma visão limitada de si mesma? O sociólogo diz que ao começar a oficina se faz uma pergunta que é repetida depois de seis sessões. Apesar de a pergunta “como são as meninas?” ser a mesma, as respostas são bem diferentes. O que antes era: doces, amáveis, frágeis, tranquilas. No final vira: capazes, inteligentes, fortes, tudo o que quisermos ser. E isso mostra o que “princesamento” construiu e o que “desprincesamento” desconstruiu.

Quanto às atividades realizadas, Bustamante dá dois exemplos. Em uma sessão, tanto as meninas quanto as facilitadoras trazem brinquedos e as meninas avaliam aquilo que é considerado “de menino”. No final, as meninas percebem que apesar do rótulo fictício, elas têm sim vontade de brincar com aqueles brinquedos. O segundo exemplo é o exercício de analisar canções infantis e modificar a letra para algo que seja mais respeitoso. No Chile, há uma canção famosa chamada “Arroz con leche” (arroz doce, em português), que expressa a ideia de que a mulher ideal tem que saber costurar. Elas então fazem uma nova versão dizendo algo que não limite ninguém por conta do gênero.

Apesar de ainda não ter nada organizado formalmente, Bustamante conta que muitos brasileiros têm se mostrado interessados em trazer a iniciativa para cá. Por isso, o grupo de Iquique criou uma página no Facebook chamada “Desprincesamento no Brasil” para reunir os interessados e organizar oficinas semelhantes, além de realizar uma troca de informações. “Acreditamos que [a oficina] possa ser feita por qualquer pessoa que tenha conhecimentos de ciências sociais e teoria de gênero e, sem dúvida, com algumas ideias do pensamento feminista.”

Uma coleção de livros infantis bem diferente

A editora argentina Chirimbote lançou no ano passado a Coleção Antiprincesas, que conta a história de mulheres reais, que são figuras importantes. O trabalho foi feito pela autora Nadia Fink, pelo ilustrador Pitu Saá e pelo designer Martín Aczurra. Entre as antiprincesas estão a pintora mexicana Frida Kahlo, a artista chilena Violeta Parra e a militar boliviana Juana Azurduy. A editora já anunciou que o quarto livro da coleção vai ser sobre uma antiprincesa brasileira, a escritora Clarice Lispector.

A autora conta que a ideia da coleção não é que as crianças deixem de gostar de princesas. O objetivo é aproximar as crianças de outros relatos e histórias, para que conheçam a vida de mulheres reais que tiveram importância histórica. “Nós queremos fazer parte da batalha cultural que tenta quebrar os modelos existentes”. O designer Aczurra explica que diferentemente das princesas, o ilustrador Pitu Sá desenhou as antiprincesas com vestimentas tradicionais que são muito coloridas. Em relação ao design, ele foi feito para ser atrativo para as crianças e em acordo com a linguagem tecnológica moderna, com o uso, por exemplo, de ícones e de diálogos parecidos com uma conversa virtual. “É importante procurar códigos em comum com as meninas e meninos desta época, tanto na forma quanto no conteúdo.”  Aczurra conta que os livros da coleção foram usados na oficina de Iquique junto com outras publicações. “Estes espaços de criação lúdica são muito interessantes e necessários no ponto de vista pedagógico porque abordam um olhar crítico em relação ao padrão de mulher que podemos ver, por exemplo, em propagandas de produtos para casa ou em filmes infantis da indústria Disney.”

A editora Sur Livro é quem traduz os livros da coleção para o português. Na segunda quinzena de dezembro, começaram as vendas de “Frida Kahlo

Sur Livro

Edição em português (Sur Livro)

para meninas e meninos” e o livro já está na segunda edição. A tradução do segundo livro da coleção, sobre Violeta Parra, já está concluída e a previsão é que as vendas comecem em abril. Ainda não se sabe se a editora vai traduzir o livro sobre Juana Azurduy.

A Sur Livro tem recebido muitos e-mails de pais elogiando a coleção e falando sobre a reação das crianças ao lerem um livro infantil que trata de temas tão fora do padrão. Além de falar sobre personagens icônicas, a coleção ainda tem o desafio de lidar com assuntos polêmicos de forma sutil, como a poligamia e a bissexualidade, ambos presentes na história de Frida.

Seja a partir de oficinas ou de livros, a ideia é ampliar o horizonte de meninas e meninos para evitar que estereótipos se perpetuem e vivam felizes para sempre.

 

Caro leitor,

O que acha dessas iniciativas para discussão da desigualdade entre meninas e meninos?

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3 Opiniões

  1. Paulo Fernando disse:

    Tudo que leva ao conhecimento de forma salutar para uma geração que se desponta na infância é importante conhecer, adaptar com os critérios viáveis da positividade.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    A ideia é de muitíssima qualidade pois ainda me lembro de participar do cunziado que minha irmã ´Aurinete a Neta fez de suas bonecas com Zene, Lucia, Zita e eu e Val, a comida era tão gostosa que o Sr. Vavá pediu um pouquinho do caldo do feijão. QUE LEMBRANÇA MARAVILHOSA. Acho que devia começar a partir da família pai e mãe começar a trazer os bons dias que passaram em sua infância e transmitir a seus filhos e filhas.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    Chama a atenção que a luta contra o estereótipo busca substituir um estereótipo por outro:
    Não há nada errado em ser princesa. Existem dezenas de monarquias no mundo, algumas comandadas por mulheres, como a Inglaterra e a Dinamarca. Então antes de ser uma “retardada”, princesa pode ser aquela que será rainha e conduzirá o seu povo.
    Um estereótipo mais útil e mais poético.

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