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INTERVENÇÃO NO TINDER

Rússia aperta o cerco contra liberdades individuais

Solicitação do governo para ter acesso a perfis e conversas do aplicativo de namoro Tinder é a mais recente investida contra as liberdades individuais no país

Rússia aperta o cerco contra liberdades individuais
Escalada contra liberdade no país foi iniciada por Putin em 2012 (Foto: Flickr/nodstrum)

O governo do presidente russo Vladimir Putin não tolera ideias divergentes ou críticas, e faz toda questão de ressaltar isso sempre que há oportunidade.

Na semana passada, segundo noticiou a revista Foreign Policy, o Kremlin solicitou ao aplicativo de namoro Tinder o repasse de fotos e mensagens trocadas por usuários russos. A plataforma não foi a única a ser alvo de interferência. Em 2016, o LinkedIn – uma plataforma destinada a relacionamentos profissionais – foi bloqueada na Rússia por se recusar a fornecer ao governo dados sobre seus usuários no país.

Apesar da investida atual contra o Tinder parecer absurda, ela reflete anos de escalada da gestão Putin contra a liberdade de expressão e as liberdades individuais. Tal escalada foi colocada em vigor em 2012, quando Putin retornou à presidência após deixar o mandato de primeiro-ministro do país – Putin se alterna em ambos os cargos desde o ano 2000.  

Em março de 2012, correu o mundo a notícia da prisão arbitrária de uma banda de punk rock feminina chamada Pussy Riot. O crime cometido pelas integrantes foi lançar um videoclipe, com cenas gravadas dentro da principal igreja de Moscou, cuja letra da música pedia “Nossa Senhora, leva Putin daqui”. As integrantes foram condenadas a dois anos de prisão por vandalismo, mas, diante da ampla repercussão negativa global gerada pelo caso, receberam anistia do Kremlin em dezembro de 2013.

Também em 2013, em uma nova investida contra as liberdades individuais,o Parlamento russo aprovou uma controversa lei que proibia a divulgação de qualquer conteúdo que o governo considerasse como propaganda gay. A nova lei foi aprovada sob a justificativa de proteger as crianças, mas acabou por se tornar uma ferramenta de perseguição à população LGBT.

Nos anos que se seguiram, o Kremlin voltou sua atenção para outra ameaça: a internet. Em abril de 2016, o governo russo acionou o abastado empresário russo Konstantin Malofeev, que cultiva uma relação bem próxima com o Kremlin e a igreja Ortodoxa do país. Dono do grupo Safe Internet League, Malofeev fez lobby no Kremlin pela censura na internet de temas considerados sensíveis. Em resposta, o governo o destacou para receber em Moscou uma delegação chinesa liderada por Lu Wei, chefe da censura online do governo chinês, e Fang Binxing, criador da cortina de fumaça virtual da China. O encontro tinha como objetivo ensinar técnicas para controlar a internet a fim de evitar a influência americana no meio virtual.

Tal controle foi sendo lapidado até culminar na recente lei conhecida como Internet Russa (Runet). Sancionada por Putin em maio deste ano, ela entra em vigor em novembro e vai isolar a internet russa do resto do mundo, caso seja considerado que há uma ameaça à operação estável da rede dentro do país.

Defensores da lei afirmam que a Runet é necessária para garantir o funcionamento da rede interna, bem como mantê-la livre de ameaças externas. Não se sabe se tais ameaças incluem interferências em processos eleitorais, como a investigação que corre nos Estados Unidos, na qual a própria Rússia é suspeita de ter interferido no pleito em prol de Donald Trump nas eleições presidenciais do país de 2016.

Paralelamente à Lei Runet, Putin sancionou também uma lei que proíbe a veiculação online de qualquer conteúdo que ofenda a dignidade humana, a moral pública e “desrespeite a sociedade, o Estado ou os símbolos oficiais da Rússia, a Constituição ou as agências estatais”. Sob esta lei, conforme noticiou o portal de notícias independente russo Meduza Project – uma plataforma criada por jornalistas em resposta à censura aos meios de comunicação -, em abril deste ano, o russo Yuri Kartyzhev, de 34 anos, morador da cidade de Novgorod, foi multado em 30 mil rublos (cerca de R$ 1.819) por ter compartilhado duas postagens nas redes sociais nas quais se refere a Putin como “um estúpido inacreditável”.

Além disso, jornalistas têm recebido treinamento de agências estatais de notícias com diretrizes para a cobertura de temas sensíveis como suicídio, drogas e insultos a autoridades. Atualmente, é proibido no país veicular notícias sobre suicídios e jornalistas buscam meios de informar sem infringir a lei. Se um homem se mata se jogando nos trilhos do metrô, por exemplo, a notícia veiculada informa que ele “acidentalmente foi atingido pela composição”.

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1 Opinião

  1. Rafael Alves de Arruda disse:

    Falaram que a prisão da banda foi arbitrária, mas em nenhum momento você lê na reportagem qual artigo o governo Russo teria corrompido. A banda entra em uma Igreja, que é de propriedade privada, atenta contra os valores religiosos dela, sem nenhum autorização, fere a liberdade de crença e religiosa, mas segundo a reportagem, o ato do governo foi arbitrário. Na próxima vocês divulgam o artigo que o governo violou.

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