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‘BRASIL: A ÚLTIMA CRUZADA’

TV Escola e o aparelhamento da cultura

Estreia da série ‘Brasil: A Última Cruzada’, na TV Escola, intensifica debate sobre o aparelhamento da cultura para difusão da ideologia bolsonarista

TV Escola e o aparelhamento da cultura
Série teve como primeiro convidado Olavo de Carvalho (Foto: Reprodução/TV Escola)

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O recente anúncio da estreia da série “Brasil: A Última Cruzada”, que na última terça-feira, 9, passou a ser exibida em horário nobre, na emissora pública TV Escola, intensificou o debate sobre o aparelhamento de órgãos voltados para difusão da cultura no Brasil.

A série é produzida pelo canal do YouTube “Brasil Paralelo”. Fundado em 2016, o canal tem como uma de suas bandeiras o revisionismo histórico e é exaltado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que já concedeu entrevistas para o mesmo.

Segundo apurou o colunista do Globo Bernardo Mello Franco, a série “exalta a ‘coragem’ dos colonizadores portugueses e o ‘amor pelo Brasil’ de dom Pedro I”. Em seu primeiro episódio, o convidado especial foi o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, que teve forte influência na indicação de vários nomes para compor o alto escalão governo, mas passou os últimos meses fora dos holofotes desde que gerou polêmica ao afirmar que não há “nada que refute” a teoria de que a Terra é plana.

Nos próximos episódios está prevista a participação do deputado federal e autointitulado príncipe Luiz Philippe Orleans e Bragança (PSL-SP) e também Rafael Nogueira, discípulo de Olavo de Carvalho, que recentemente foi alçado ao cargo de presidente da Biblioteca Nacional.

O imbróglio envolvendo a TV Escola teve início em setembro, quando a então diretora de Educação, Cultura e Comunicação da emissora, Regina de Assis, foi exonerada do cargo após se queixar do aparelhamento da emissora.

Alguns apontam que a demissão foi fruto do pouco empenho da diretora no cargo. Porém, na falta de evidências que sustentem essa versão, cabe analisar os fatos:

Em primeiro de 1º janeiro deste ano, o Ministério da Cultura foi extinto, rebaixado ao status de Secretaria Especial de Cultura, vinculada ao Ministério da Cidadania.

Em 21 de agosto, um edital da Ancine foi suspenso por conter, entre os 80 projetos contemplados, 10 produções voltadas para os temas “diversidade de gênero” e “sexualidade”.

Em 7 de novembro, a Secretaria Especial de Cultura foi transferida para a Pasta do Turismo, deixando sob a chancela do ministro Marcelo Álvaro Antônio órgãos como a Biblioteca Nacional, a Fundação Nacional de Artes (Funarte), a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a Fundação Cultural Palmares (FCP), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a Casa de Rui Barbosa.

No mesmo dia, o dramaturgo bolsonarista Roberto Alvim foi alçado ao cargo de secretário especial de Cultura. Em suas redes sociais, Alvim se apresenta como “dramaturgo, professor de artes cênicas e diretor de teatro/cristão, nacionalista e conservador”. Conhecido por suas rusgas com a classe artística – a mais famosa envolvendo ataques à atriz Fernanda Montenegro – Alvim tem entre suas propostas transformar o Teatro Glauce Rocha, no Centro do Rio de Janeiro, no “primeiro teatro do país dedicado ao público cristão”.

Seu perfil agrada a agenda do governo Bolsonaro para cultura. Em uma de suas transmissões ao vivo nas redes sociais, Bolsonaro abordou a nomeação de Alvim citando a busca por “uma cultura sadia”, sem detalhar o que isso significa. “Ninguém mais do que nós quer uma cultura sadia para o Brasil. Sadia, deixar bem claro, que atenda os interesses da maioria população”, disse o presidente.

Em 28 de novembro, foi alçado ao cargo de presidente da Fundação Palmares Sérgio Nascimento de Camargo, conhecido por seu discurso alinhado ao bolsonarismo nas redes sociais. A nomeação, no entanto, gerou controvérsia por conta de declarações dadas por Camargo – que é crítico do movimento negro, é contra cotas raciais, já afirmou que Marielle Franco “não era negra” e reprova o Dia da Consciência Negra. A nomeação foi suspensa na última quarta-feira, 11.

Em 2 de dezembro, o governo anunciou como novos presidentes da Biblioteca Nacional e da Funarte, respectivamente, o olavista Rafael Nogueira e o maestro Dante Mantovani – que participou do II Simpósio Nacional Conservador de Ribeirão Preto, realizado em julho deste ano, é crítico ferrenho do Supremo Tribunal Federal (STF) e publica artigos em sites bolsonaristas, como o Terça Livre.

Em 4 de dezembro, veio à tona a notícia de que a Ancine estava retirando cartazes de filmes nacionais de seu site e dos corredores de sua sede no Centro do Rio de Janeiro. Funcionários apontavam que a medida mirava apenas produções nacionais que contrariam as posições do governo.

Tais fatos apontam que a exoneração de Regina de Assis do cargo de diretora de Educação da TV Escola, bem como a estreia da série “Brasil: A Última Cruzada” não são fatos isolados, mas estão interligados e expõem um grave aparelhamento de órgãos voltados para difusão cultural, de forma a reduzir os mesmos a porta-vozes da ideologia bolsonarista.

Tal hipótese se torna ainda mais flagrante se levado em conta que, na próxima semana, outra série está prevista para estrear na TV Escola: a série “Meia Volta, Vou Ler”, que visa promover as escolas cívico-militares, uma das principais agendas do governo Bolsonaro para Educação. O avanço da iniciativa vem sendo tocado pelo Ministério da Educação (MEC), comandado por Abraham Weintraub, que também foi alçado ao cargo por conta de seu alinhamento a Olavo de Carvalho e à ideologia bolsonarista.

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*Atualizada em 13/12/2019, às 14h20

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2 Opiniões

  1. Almanakut Brasil disse:

    Que a dita “jornalista” acima esclareça aos leitores o que era feita na EBC da TV Brasil, na época da Orcrim PT, bem como o que acontece na TV Cultura Herzog, da fundação que parasita com mais apetite na máquina pública paulista, desde que começou a democradura tucana em 1994.

  2. Roberto Henry Ebelt disse:

    Dá um trabalho danado para remover o entulho socialista/comunista/genérico sexual acumulado em 24 anos de governos descaradamente socialistas. Por outro lado, outras drogas comunistas conseguiram sucesso em muito menos tempo com o uso da força. Felizmente os nossos bandidos não tiveram apoio das FFAA para nos jogar na vala comum dos estados defuntos da Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e mais outras republiquetas socialistas mortas de fome da África. VADE RETRO, KARL MARX!

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