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Crítica de cinema

A Arte de Amar, de Emmanuel Mouret

Comédia francesa sobre o amor

A Arte de Amar, de Emmanuel Mouret
'A Arte de Amar': é preciso ensinar algo a esses franceses! (Fonte: Reprodução/Divulgação)

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Esse filme feito de histórias de amor entremescladas foi recebido com frieza pela crítica internacional, que na melhor das hipóteses comparou o diretor Emmanuel Mouret (em seu sétimo longa-metragem) com Woody Allen e Eric Rommer. A verdade é que esta comédia que parece falar mais de sexo que de amor não é engraçada, e desponta como uma sucessão de tentativas de fazer rir, que fogem à temática do filme de amor tão bem desenvolvida pela tradição cinematográfica francesa.

A Arte de Amar, na verdade, lembra mais nosso genial e bem conhecido Nelson Rodrigues, com temáticas picantes e tramas rocambolescas que ferem o lugar comum da ética e estética pequeno-burguesas. Com um porém: o filme não possui nem um décimo da ousadia e profundidade do nosso dramaturgo, autor das crônicas d’A Vida Como Ela É, obra que possui certa afinidade com essa produção francesa.

Um casal idoso que busca se acertar, uma mulher que trai o namorado com um colega de trabalho, o vizinho que busca a todo custo conquistar a moça do apartamento ao lado, uma mulher que promove um encontro às escuras do seu amante com a melhor amiga. Todas estas histórias se entremesclam para criar uma narrativa lenta, que não chega a incomodar, uma vez que é pautada pela interpretação de bons atores.

A direção de arte é o ponto forte de A Arte de Amar, com cenas que se passam em livrarias, galerias de arte, e apartamentos muito bem dimensionados e povoados por coisas notáveis. Em determinada cena, uma estátua interessante chama mais a atenção do que o próprio diálogo, o que parece ser um erro de opções do diretor.

Com um começo promissor, onde se ouve um pedaço do terceiro movimento da sinfonia número 3 de Brahms, o filme busca relacionar as diversas sensações causadas pelo amor com diferentes músicas. Músicas clássicas da melhor qualidade, como a Valsa número 2 de Chopin, um concerto para flauta de Vivaldi, além de diversas composições de Franz Schubert. Mas isso não é suficiente para dar consistência ao filme. A gravidade da música não combina com as cenas, e também não destoa ao nível de criar um contraponto entre música e imagem, algo valorizado pelo mestre japonês Akira Kurosawa.

Este título A Arte de Amar é o mesmo da obra do poeta romano Ovídio (Ars Amatoria, em latim), composta por três volumes escritos entre 1 AC e 1 DC. Esta obra, que contém conselhos e reflexões sobre o ato da conquista e de como manter os relacionamentos, foi responsável pelo exílio enfrentado pelo autor a mando do imperador Augusto, contrariado pelo caráter subversivo da obra. É no exílio, uma das mais duras penas enfrentadas pelos cidadãos de Roma, que Ovídio escreve algumas das suas mais belas cartas. É uma pena que o filme não tenha nem uma sombra deste traço desafiador e apimentado encontrado naquela obra arcaica. Para o público brasileiro, acostumado ao clima tórrido dos trópicos, o filme é algo açucarado. Como dizia Nelson Rodrigues: “O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.” É preciso ensinar algo a esses franceses!

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