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Crítica de Cinema

A Música Segundo Tom Jobim, de Dora Jobim e Nelson Pereira dos Santos

Uma emocionante sinfonia de som e imagem. Por Francisco Taunay

A Música Segundo Tom Jobim, de Dora Jobim e Nelson Pereira dos Santos
Tom Jobim, em foto de 1992 (Fonte: Reprodução/AE)

Uma sinfonia plástico-rítmica que emociona do começo ao fim. Essa é uma boa definição deste filme, que não é decididamente um documentário convencional. A falta de depoimentos e a predominância da música conta, da forma mais essencial, a vida do compositor Tom Jobim.

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Estão todos lá, todos os ídolos da música nacional e internacional, brasileiros, franceses, americanos, japoneses, italianos, alemães, uma espécie de volta ao mundo através da obra de Tom. Essa capacidade de se espalhar, uma espécie de mágica de reverberação, como uma pedra atirada em um lago, é uma característica da música: ela é criada, tocada e cantada, ouvida, reproduzida, sucessivamente, através da sensibilidade das pessoas.

Com a Bossa Nova, e especificamente com Tom Jobim, esse fenômeno tomou proporções jamais alcançadas. Sua música é sem dúvida, a criação brasileira que mais se espalhou pelo mundo. Vendo esse filme, a impressão que se tem é que estamos no período anterior à Torre de Babel, quando todos os homens falavam a mesma língua.

No filme identificamos algo que se perdeu, uma época onde ainda havia uma esperança e, mais do que isso, uma vontade de mudar o mundo. Ainda se pensava que o Brasil, com sua arte, suas pessoas e a sua maneira de evoluir, caminhava para uma sociedade mais justa e mais alegre. Esse sonho do Modernismo se perdeu: Brasília, por exemplo, virou um pesadelo, uma não-cidade. Mas a música de Tom, que superou Villa-Lobos como compositor, continua absolutamente contemporânea.

Existe uma busca pela beleza nessa música, e ela é essencialmente bela; isso também se perdeu, nesse período onde o muro de Berlim caiu, o capitalismo venceu, e o mundo ficou mais sem graça. Apesar de não notarmos, essa época vai ser comparada à queda de Constantinopla — um marco na história da humanidade.

O filme, através dos intérpretes de Tom Jobim, da emoção criada por sua música e propagada através dos tempos, mostra várias fases da vida e carreira do artista. De como a descrição do andar de uma garota numa calçada do Rio de Janeiro, transformada em música, conquistou o mundo. A sua interpretação de um Brasil do interior, onde as forças da natureza se manifestam através dos sons. Seu amor por Nova York e pelo Rio de Janeiro.

Nelson Pereira dos Santos e a neta do compositor, Dora, conseguiram realizar um filme completamente guiado pela música, uma façanha nos dias atribulados de hoje, onde tudo que nos impressiona os sentidos vem cortado, dissecado, em diferentes velocidades. É uma viagem emocionante, através dos gênios da música do século XX, onde imagens e sons interagem de forma fluida, mais emocionando do que informando.

Me lembro de Tom Jobim como uma pessoa sempre próxima da natureza, que transmitia uma certa paz. Essa capacidade de perpetuar sua essência, não somente através do sangue, da reprodução, mas também da sua criação, é própria do artista. Mais do que isso, as músicas parecem ter vida própria, caminham no tempo, não se cansam de voar.

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2 Opiniões

  1. olbe disse:

    Este filme vale a pena. A gente sai do cinema leve, e agradecida, como se tivesse ganho um presente…ainda mais nesta época onde o que se escuta é “AI SE TE PEGO”!!!!!!
    Só não gostei que o nome dos interpretes só fosse mostrado no final, seria melhor que fossem identificados no momento da apresentação, mas isto é motivo pra volta a ver o filme.

  2. Maria Oliveira disse:

    Imperdivel. ele acontece num crescendo…e tambem de saudades….

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