Início » Opinião » A privataria que não houve
Política

A privataria que não houve

Paloccis e Pimentéis mostram preocupante faceta do capitalismo tupiniquim antiliberal: a enorme rede de laços entre grandes grupos privados e o Estado. Por Renato Lima

A privataria que não houve
Enquanto contatos forem mais valiosos que mérito Paloccis e Pimentéis serão astros do capitalismo

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

O ex-ministro Antônio Palocci e o atual ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel têm mais coisas em comum do que serem petistas de carteirinha. A confiar na palavra dos dois, são também gênios da administração de empresas, contratados a peso de ouro por empresários desejosos de ouvi-los sobre estratégias de negócio. Mas esses políticos receberam milhões para compartilhar conhecimento empresarial – um saber insuspeito de possuírem até então – ou para criar laços com o governo federal e abrir certas portas?

É inevitável a suspeita de que Palocci e Pimentel foram contratados para fazer tráfico de influência. Mas mesmo a alternativa legal, da legítima prestação de consultorias, mostra uma preocupante faceta do capitalismo brasileiro: a enorme rede de laços entre grandes grupos privados estabelecidos e o Estado. A passagem pelo governo e a influência no partido que está no poder criam um conhecimento de com quem falar para resolver problemas, quais os caminhos a serem usados para influenciar decisões de caráter regulatório ou de investimento.

Alguns acreditam que as privatizações dos anos 90 e a criação de agências reguladoras diminuíram o poder do estado no controle da economia. O suposto “Consenso de Washington” teria substituído o planejamento estatal pela mão invisível do mercado em vários países, inclusive o Brasil. A América Latina teria entrado na era neoliberal, em que o estado estaria impotente diante das forças do mercado. Essa visão é bastante popular no debate político e em obras opinativas. Só que não resiste a uma análise séria dos dados. A América Latina não se transformou numa utopia liberal nos anos 90, como pode ser observado – entre outros trabalhos – no livro do professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) Sebastian Edwards “Left Behind: Latin America and the false promise of populism” (2010), que analisa a timidez ou ausência de reformas de mercado no continente enquanto o mundo acelerava as mudanças. E o Brasil, ao contrário de ter um mercado privado mais forte e menos dependente do estado, teve sim foi um aumento da presença do seu Leviatã, como mostra Sérgio Lazzarini em “Capitalismo de Laços: Os Donos do Brasil e suas conexões” (2011). Essa é uma obra importante para entender o sucesso de consultores como Pallocci e Pimentel.

Lazzarini utiliza a metodologia da análise de redes – que está se popularizando em ciências sociais, mas ainda é pouco comum no Brasil – para avaliar as mudanças econômicas do país. O pesquisador investiga as conexões (“laços”) no controle societário e dos conselhos de administração das empresas. Diferentes empresas estão ligadas por meio de sócios comuns – e, dos mais frequentes e influentes estão o governo federal e fundos de pensão de empresas públicas. Dessa forma, muitas empresas nominalmente privatizadas ainda são comandadas pelo governo.

Capitalismo de laços

Vejamos o exemplo do Grupo Neoenergia, de distribuição elétrica. O grupo espanhol Iberdrola tem 39% do seu capital, mas a posição majoritária está com a Previ (49,01%) e o Banco do Brasil (11,99%). A própria Previ tem participação acionária em mais de 50 grandes empresas, como a Embraer e a Vale. A mão forte do governo se fez sentir na Vale com a pressão para a troca do CEO Roger Agnelli – mesmo, nesse caso, não tendo a maioria do capital. O executivo foi substituído para evitar retaliações à Vale (como aumento exagerado dos tributos na discussão de um novo Código Mineral) ou a outras empresas dos quais os sócios se relacionam com o BNDES e Previ. Na estrutura empresarial brasileira, é suicídio bater de frente com o BNDES e os fundos de pensão. Segundo o estudo de Lazzarini, entre 1996 a 2009, os fundos de pensão se tornaram quase 1000 vezes mais conectados em empresas do que a média entre os investidores (incluindo indivíduos, famílias, investidores institucionais e estrangeiros). E o BNDES é a grande fonte de empréstimo subsidiado para grandes empresas. É o melhor banco do mundo, como exultou o neobilionário Eike Batista, grande cultivador de laços com os governos do Rio de Janeiro e federal.

Como explica Lazzarini, o capitalismo de laços é um “modelo assentado no uso de relações para explorar oportunidades de mercado ou para influenciar determinadas decisões de interesse”. Esse sistema pode existir apenas entre atores privados (afinal, é mais fácil fazer negócios com quem já temos relações do que com desconhecidos) bem como com o governo. Mas se, além disso, o governo controla discricionariamente formas de financiamento e regulações, é mais vantajoso ser o amigo favorito de quem tem esse poder do que investir no melhor plano de negócios, podemos concluir. Quando o que vale são as amizades, o mérito fica em segundo plano. Escreve Lazzarini: “de um lado, os empresários podem enxergar nos laços com o governo uma forma de se capitalizar e se proteger de mudanças imprevistas; da mesma forma, o governo pode visualizar laços com o empresariado como uma forma de direcionar a atividade econômica”.

Essa é a realidade da não privatização no Brasil. Empresas que antes estavam sobre o controle estatal passaram para mãos de grupos que estão entrelaçados com o Estado. Sim, são empresas hoje mais eficientes, mas não independentes. Sem falar no emaranhado de estatais como Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Serpro, Dataprev, Hemobrás, Correios, CBTU, EBC entre várias outras. Cada empresa dessa mantém relações com seus fornecedores. Há não tanto tempo, Paulinho “Land Rover” Pereira ganhou um “mimo” de uma fornecedora da Petrobras interessada em manter boas relações (e contratos) com o governo.

Enquanto contatos forem mais importantes que o mérito, como é no capitalismo tupiniquim antiliberal, Paloccis e Pimentéis serão astros do capitalismo e Paulinhos ganharão presentes. Falar de “privataria” pode vender livro e instigar a militância, mas o partido no poder não mexeu uma palha para oficialmente estatizar as empresas vendidas. Tais relações podem ser boas para quem ocupa o poder e para os empresários estabelecidos, mas não são do melhor interesse para consumidores e empresas entrantes.

Fontes:
Ordem livre - A privataria que não houve

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

10 Opiniões

  1. João Alcântara de Meireles disse:

    Em resumo, estamos condenados pelos laços espúrios mantidos entre um capitalismo de fachada pseudoliberal (que já não era o ideal desde o período FHC) e um estado gerido por interesses partidários e sindicais, que tratou de desmontar tímidas salvaguardas (agências reguladoras) às ingerências do Estado na economia. O resto é decorrência previsível, não se constituindo matéria digna de nota.

  2. Walter disse:

    Se realmente existir a tal Privataria e o governo do PT que foi oposição na ocasião e tambem participou da chamada Privataria , não tomou providencias na ocasião, porque haveria so agora de querer botar a boca no trombone, porem se tem alguma coisa de errado nisso, vamos mecher com os pauzinhos, para botar o PT tambem na roda dos privatadores, pois se não for aprovada a CPI da Privataria, vai ser mais vergonhoso ainda para os corruptos do PT e partidos aliados (alinhados). Sera que o FHC e o Jose Serra não tem como pedir para que seja instalada uma CPI, pois se eles não tiverem culpas no cartorio, nada terão a temer, então façam com que eles engulam as linguas para não ficarem industrializando denuncias em epocas eleitorais, eles tem que morrer com o proprio veneno.

  3. Luiz Franco disse:

    O Estado é uma criação das “elites” para gerirem os seus negócios. Outrora era a nobreza, e até bem pouco era a burguesia. Quando o povo tentou participar disseram que era uma “ditadura do proletariado”. Hoje são as “forças políticas”. Tudo negócios, a verdadeira fonte dos direitos e das obrigações…

  4. Antonio Ribeiro disse:

    A análise dos balanços de empresas privatizadas – principalmente a Vale, cujo Ativo Imobilizado era várais vezes o valor da venda – e a farta documentação disponível em cartórios extrajudiciais e judiciais, Juntas Comerciais, etc., dizem o contrário. Investigação rigorosa dos envolvidos naquele episódio também comprovariam a roubalheira. Mas,no Brasil, a lei é para punir os três pês, a começar pelos pobres até chegar às pu…
    Antonio Ribeiro – Advogado, Jornalista e Contabilista

  5. Beraldo Dabés Filho disse:

    A “Privataria Tucana” nunca foi nenhuma novidade e, agora, foi apenas esmiuçada e comprovada no livro do Jornalista.

    Aliás, a privataria tucana desvairada já rendeu dividendos ao PT, nas duas cammpanhas presidenciais vitoriosas do Lula.

    Pelo visto, com a publicação do livro, ainda renderá bem mais em 2014.

    Se a oposição se antiver em silêncio, passa atestado de culpa e, se falar tem de apresentar contra-provas.

    O autor do presente artigo, por exemplo, limitou-se a repetir críticas a ex-Ministros do Governo Petista.

    A propósito de consultorias de “celebridades” políticas, quanto deverá ter ganho FHC (O Capo) para conceder entrevista ao The Economist?

    Fácil perceber que a oposição partidária e os algozes avulsos do PT estão numa tremenda saia justa.

    “Se calarem o bicho os pega e se falarem o bicho os come.”

  6. Áureo Ramos de Souza disse:

    O que fazem coxichando os dois ladrões? boa coisa não é, acredito seja mais uma ARMAÇÃO ILIMITADA.

  7. SID OLIVEIRA disse:

    TRÁFICO DE INFLUÊNCIA É POUCO,TEM MUITO MAIS COISAS, QUE NUNCA NA HISTÓRIA DESTE PAIS SE VIU OU VERÁ.ALIÁS A COISAS MAIS TRISTES NA HISTÓRIA
    DO PT E SEUS APADRINHADOS

  8. francisco paulo cavalcante disse:

    LEIA NA INTEGRA A MATERIA E VEJA O QUANTO NÓS BRASILEIROS SOMOS MASSA DE MANOBRA

  9. Joao Oswaldo Lemos disse:

    o Brasil é um pais muito rico,ao contrário de que pensam alguns como pobre.É que a geração da carga tributária alimenta os vermes ou politicos desde há muito tempo,basta apanhar uma revista ou jornal de uma década atraz,e verá como eles atacavam e hoje da mesma maneira,destroem o herário público,como fazem os o vermes em um corpo em decomposição .Naquela época e hoje de maneira desenfreiada e sem escrupulos.Em minha infância e adolecência,convivi com a chamada ditadura militar,que na verdade,nada tinha de ditadura,mas de patriotismo e honradez dos dirigentes da época.Em minha cidade algumas pessoas foram presas,mas falavam demais,insuflavam os ignorantes e desiformados a cercarem pedaço de terras,ou tomarem na “marra” alguma propriedade de terceiros,intitulando-se como comunistas.Mas as pessoas de bem e trabalhadoras,cumpridoras de seus deveres nada tinham a temer,pois ao contrário eram valorizadas em suas atividades.Bastou dar muita liberdade aos politicos,de qualquer legenda,apareceram os FHC ou os Lullas com seus apetites incontrolaveis destruindo a tradição brasileira,tendo eles como objetivo em a qualquer custo levarem vantagem em todo o patromonio publico que lhes foram confiados .Isto tudo cresce com vigor inaldito os Pimenteis e os Pallocis,os Dirceus.e ´por ai a fora,pois todos os politicos estão ACIMA DA LEI e jamais serão controlados ou punidos.Continuaremos a sermos considerados,perante as demais nações do planeta como o povo mais corrupto ,por culpa destes maus patriotas,que não possuem nenhum carater e indignos de serem considerados brasileiros.Que Deus tenha pena de nossa Pátria e nos salve.

  10. francisco paulo cavalcante disse:

    privataria é o que o PT fez com o pre-sal entrogou pra seu aliado EIKE bATISTA

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *