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A cibercultura e a necessidade de novos paradigmas educacionais

Por Marcelo Chamusca

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A educação e seus benefícios são alvos de discursos das mais diversas correntes políticas e ideológicas em todo o mundo. É consenso que sem educação não há como uma nação alcançar a soberania e os indivíduos exercerem sua cidadania.

Um dos homens mais ricos do mundo, o proprietário da Microsoft, Bill Gates, em seu livro ‘A estrada do futuro’, observa que a educação pode não ser a resposta para todas as coisas de nossa era — denominada por ele como ‘Era da informação’ —, mas é parte da resposta de boa parcela dos problemas sociais existentes em todo o mundo. Gates acredita que a educação, por ser uma espécie de motor nivelador da sociedade, contribui para equilibrar as oportunidades (Gates, 1995).

Na linha do discurso de Gates, um capitalista ‘de carteirinha’, está o discurso da maioria dos políticos e intelectuais de esquerda, que rezam pela cartilha socialista ou social-democrata. Mais do que um discurso hegemônico, entretanto, para que o conteúdo ideário venha, efetivamente, a se tornar algo palpável para a sociedade, é necessário que a educação seja propiciada em bases políticas amplas, que possam abranger a totalidade da população (Moraes, 2005).

Nesse sentido, qualquer que seja o modelo de educação utilizado, não será eficiente enquanto ficar restrito a uma minoria privilegiada e, para a grande maioria da população, a educação continuar a ser apenas uma promessa vaga e quase sempre inacessível.

Contudo, é importante neste momento discutirmos as práticas educacionais atuais e as necessidades de transformação visando sua adequação às novas características da sociedade contemporânea, uma vez que o fato da educação não estar acessível a todos, não pode anular a importância da busca por um modelo mais adequado aos que a ela têm acesso, enquanto lutamos, paralelamente, pela democratização do acesso à educação em todos os estratos sociais.

É importante observarmos que não é mais adequado para uma instituição de ensino utilizar os critérios tradicionais de transmissão e verificação da apreensão do conhecimento. É preciso avançar. O modelo jesuítico de aulas expositivas sequenciais e a utilização de provas no fim do período para ‘testar’ se o conhecimento foi apreendido conforme transmitido, a meu ver, não é o mais indicado em um processo de ensino-aprendizagem que envolve atores sociais com características cognitivas desenvolvidas em padrões tão diferenciados.

Segundo Moraes, para que a educação cumpra sua função de equalizar as oportunidades entre os cidadãos e se torne, como defende Bill Gates (1995), um nivelador social, é necessário que ela “se traduza numa prática educacional propícia ao desenvolvimento da autonomia e da participação, e não a reprodutora, memórica e servil como tem sido a educação brasileira e internacional ao longo dos séculos” (Moraes, 2005, p. 1).

Não há mais como prolongar a utilização desse modelo tradicional aplicado atualmente nos três níveis educacionais estabelecidos em nosso país (fundamental, médio e superior) pela maioria absoluta de instituições de ensino. A sociedade mudou. A forma de apreender conhecimento também. As crianças estão crescendo em uma sociedade midiática, agora com o advento das tecnologias digitais que potencializam características cada vez mais diferenciadas nos aspectos relacionados com as formas de interação técnica e social que lhes são disponibilizadas. As práticas do dia a dia estão gradativamente sendo virtualizadas e concebidas em informações fragmentadas. Não há como a educação formal permanecer utilizando as mesmas práticas na relação ensino-aprendizagem, centradas no polo da escrita.

Sabemos que não será fácil para a comunidade científica encontrar um modelo educacional adequado a essa nova realidade e que a complexidade do mundo contemporâneo não permite fórmulas homogêneas que tenham a pretensão de dar conta de todas as necessidades da “aldeia global” (Mattelart, 2005), mesmo porque estamos, segundo Lévy (1993), em um processo de transição de um polo do conhecimento para outro, e por estarmos em curso, sem um destino previamente traçado, não sabemos exatamente onde vamos parar. Moraes traz a seguinte citação de Hobsbawm, que atenta para essa perspectiva:

“Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança na sociedade, é a escuridão” (Hobsbawm, 1995, p. 562 apud Moraes, 2005, p. 2).

Assim, acreditamos que cabe à comunidade científica, que está voltada para a área da educação e da comunicação em nosso país e em todo o mundo, a proposição e difusão de novas práticas educacionais e modelos de educação que deem conta das características e especificidades do consumidor contemporâneo da informação, ou seja, os novos alunos.

Não podemos perder de vista, nem por um instante, o fato da escola estar formando o trabalhador do futuro (Pellegrino, 2005). E o futuro que aguarda esse profissional, apesar de não termos clareza de como exatamente ele será, estará ainda mais complexo e exigirá dele cada vez mais competência na gestão de demandas diversas; rapidez na interpretação e concepção da realidade a partir de fragmentos; e senso crítico para discernir as verdadeiras oportunidades das armadilhas do mundo contemporâneo.

É fato que os meios digitais de comunicação têm transformado radicalmente a forma de produção e consumo da informação nos últimos anos. Como também é fato que não podemos mais subestimar a importância da educação para a emancipação dos seres humanos e das nações, pois dela brotam a soberania e a cidadania. Continuar negligenciando a incompatibilidade dos antigos métodos com a realidade atual, o que só faz aumentar o “mal-estar” na relação alunos-professores-instituições de ensino, poderá se constituir em um erro fatal para a sociedade contemporânea.

Portanto, acredito que é chegada a hora de trazer essas discussões para a esfera pública, promovendo o debate generalizado em torno delas, uma vez que, para equacionarmos as questões que criam o desconforto existente atualmente na relação alunos-professores-instituições de ensino, apresentado neste estudo, é preciso criar inicialmente um sentimento coletivo de mudança.

É preciso que haja o reconhecimento de que a sociedade avançou com a terceira revolução tecnológica, que seus aspectos culturais também sofreram profundas transformações ao longo dos últimos anos, e que, por sua vez, urgem por transformações profundas nos processos educacionais estabelecidos pelas instituições de ensino, não só do Brasil, mas em todo o mundo.

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Fontes:
Nós da Comunicação - A cibercultura e a necessidade de novos paradigmas educacionais

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2 Opiniões

  1. Evandro Correia disse:

    Esse texto está muito complicado. Não entendi quase nada.

  2. Markut disse:

    Caro Marcelo Chamusca.
    Para fazer valer a cibercultura e a mudança radical dos paradigmas educacionais, teremos que passar, necessariamente, pelo domínio da escrita convencional.
    É esta que deve ser iniciada, de modo amplo e universal, a partir dos 4 anos de idade e aí está toda a diferença entre a enorme e criminosa falta de apetite político , para esse mister, e a real necessidade da formação cidadã de indivíduos capacitados para entenderem e absorverem,por exemplo, tudo aquilo que as suas doutas observações contêm.
    A bandeira, a desfraldar já, não passa pela distribuição de lap-tops, aos milhões, e sim pelo caminho balisado com carinho e com fé em conseguir , antes de mais nada, que a criança seja capacitada para ler, escrever e entender, o mais cedo possivel.
    Sem isso, apesar de todos os avanços tecnológicos, continuaremos cada vez mais incomunicaveis.
    Embora pátria seja um conceito em desuso, o descaso do poder constituido, com esse vital objetivo, se constitue num crime de lesa- pátria, para o que os formadores de opinião deveriam focar toda a sua insistência em denunciar.

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