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A perda dos limites e a ilusão do sofisma

Por Luiz Leitão - luizleitao@maisinterior.com.br

A bajulação desenfreada, a virtual ausência de oposição – prática, e não retórica – um endeusamento sem precedentes e a ilusão de falta de limites compõem a receita para o desastre.

A visão do conjunto, à certa distância, permite enxergar um Lula desarvorado, uma betoneira sem freios descendo a ladeira da imprudência.

Sempre haverá quem veja aí uma ilação tola, exagerada, especialmente em meio à unanimidade reinante, mas esse comportamento do presidente tanto pode representar uma atitude de superação quanto o sintoma de um recalque.

Conscientemente ou não, o desrespeito às restrições físicas, humanas, institucionais, demonstram a necessidade “heróica” de exibir-se acima dessas contingências do ser, que a aclamação geral, ininterrupta, só vem a incentivar.

Assim, o “Filho do Brasil” passa a representar, na verdade, o Pai da Nação. Quousque tandem?

A campanha aberta, extemporânea, pela própria sucessão – ou continuidade através de um factóide ao molde do russo Medvedev para Putin -, bovinamente aceita pelas instituições que poderiam impor-lhe um freio, dão a Lula a (sempre) perigosa sensação de imunidade.

Ao ponto de a tudo e a todos desafiar, (im)pondo-se acima do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal de Contas da União, da Justiça Eleitoral – sempre mais tolerante com presidentes -, alheio ao julgamento da imprensa , e intolerante com adversários, aos quais endereça adjetivações impróprias a um presidente, mas não ao semideus que habita o imaginário popular.

Decide, por capricho, melhor que os comandantes da FAB, sob o esquálido argumento de “decisão política”, que o País optará pelo pior e mais caro caça entre os avaliados pela Força.

José Serra, seu principal contendor, joga o mesmo jogo de maneira mais sutil e em menor escala no quesito abuso da máquina, especialmente a publicitária: R$ 313 milhões em um ano, e – pasme – também seu governo cliente do publicitário Duda Mendonça (R$ 28 milhões), que muito serviu a Lula.

Ressaltando sua origem pobre, num arrozoado ao mais puro estilo lulista, José Serra resvala para o terreno da pieguice apelativa da qual seu outrora adversário é useiro vezeiro.

Nem mesmo ao apelo fácil, surrado, da comparação generalizada entre classes sociais, o governador paulista resistiu – “Pobre paga dívida com mais pontualidade que rico”. O leitor perdoe este escriba, tão paulista quando o objeto da crítica, mas que nem por isso haverá de defender uma candidatura que lança mão de um populismo em versão compacta, limitada mais pela falta de carisma do protocandidato tucano do que pela vaidade que o move.

Mas, devolvamo-lhe a bola: “Pobre paga a dívida com mais pontualidade que rico”, va bene, mas políticos insensíveis, movidos pela cupidez em atingir o cargo máximo, postergam impiedosamente a quitação de seus débitos com esses mesmos pobres, ou remediados, conferindo à peroração de Serra, em forçadíssimo linguajar popularesco, um evidente quê de sofisma.

Luiz Leitão é jornalista MTE 57952SP

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12 Opiniões

  1. Markut disse:

    Razão tem Luiz Leitão. A perigosa perda de limites, a certeza da impunidade a tudo que for dito e pensado, contando com o hipócrita incensamento da entourage que os cercam, faz dessas figuras políticas o modelo acabado da insensatez e falta de compostura, cujo lastro é a conveniente ignorância e anestesia da massa eleitora.
    Continuamos aprisionados num círculo maldito de malfeitos de lesa sociedade, dificil de romper.

  2. Salim disse:

    Deu na coluna da Dora Kramer em 13 de março 2010
    IMAGEM
    Em artigo publicado ontem no jornal O Estado de São Paulo, o escritor cubano Carlos Alberto Montaner reproduz definição sobre o presidente Lula que ouviu de um presidente latino-americano.
    É a seguinte:
    “Esse homem é de uma penosa fragilidade intelectual. Continua sendo um sindicalista preso à superstição da luta de classes. Não entende nenhum assunto complexo, carece de capacidade de fixar atenção, tem lacunas culturais terríveis e por isso aceita a análise dos marxistas radicais que lhe explicam a realidade como um combate entre bons e maus”.
    Segundo Montaner, o comentário foi feito a propósito da perda de confiança internacional provocada pelo alinhamento brasileiro a governos autoritários.

    Leia tambem, o conteudo do Link a seguir,

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-ofende-gravemente-o-povo-israelense-no-primeiro-dia-ou-ele-quer-ser-o-chefe-da-onu-do-b/#comments

  3. luiz antonio vieira barbi disse:

    ARTIGO MUITO LÚCIDO…MOSTRA MUITO BEM O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO BRASIL…O PIOR, SERÃO MAIS 8 ANOS COM DILMA…FEITO BEM LEMBROU, UMA SUCESSÃO MEIO RUSSA, MEDVEDEV PARA PUTIM…REALMENTE, O PIOR DE TUDO É A DITA OPOSIÇÃO NÃO TER NENHUM CANDIDATO…EM SÃO PAULO, NADA..EM MINAS, TALVEZ SEJA PIOR AINDA…FALTA ALGUM BOM ESCRITOR ESCREVER SOBRE MINAS, A TERRA DAS INAUGURAÇÕES, DESDE QUE LEVE O NOME DE TANCREDO NEVES…VAMOS TOCAR A OBRA E INAUGURAR…
    SERÁ SIM MUITO FÁCIL O CONTINUÍSMO, NÃO PELAS MARAVILHAS DA DILMA, MAS PELA TOTAL FALTA DE UMA DIGNA OPOSIÇÃO!
    QUE EU NÃO SEJA CENSURADO.

  4. Halph disse:

    Traduzindo para linguagem dos “pobres e honestos”: “O Lula está trocando as mãos pelos pés.”

  5. luiz leitao disse:

    Caros Salim, Markut, e os demais,

    Eu li o texto de Montaner, é o retrato acabado de Lula, evidenciado na sua constante necessidade de autoelogio, na falta de ideal, a não ser o próprio poder.

    Outro dia, pensei estar alucinado, quando li que esses celerados querem dar poder de polícia à Receita Federal, ou mais que isso, pois passariam por cima do Judiciário.

    E o Exército, precisa de poder de polícia pra quê? Na fronteira, sempre teve, na cidade, Deus nos livre. E a FAB? Acaso a lei do Abate, por sinal muito eficaz, não é poder de polícia?

    Agora, achar que um piloto de caça vai descer e sair atras de traficantes, sozinho, é ridículo. Apoio em terra, acionado por rádio, serve pra isso.

    E a marinha sempre teve, nas áreas territoriais.

    Outra idiotice é dizer que o Exército vai poder prender em flagrante. Ora, está na Constituição: qualquer do povo, eu, você.

    Pensem só em ser interpelados na rua por um militar de 18 anos, fuzil na mão, sem treinamento. Ou levar um carteiraço de um coronel?

    Eles são bons no que fazem, mas não são policiais. Temos os melhores batalhões de selva do mundo, a FAB atende povos da Amazônia, leva remédio, trata. Uma militar me falou: filosficamente, a missão das F.A. sempre foi de manutenção da paz, jamais de imposição. É uma bela cultura.

    Não se pode retroceder. Agora, o caso da Receita, não sei se é de rir ou tremer…

    Lula em Israel, fazendo o quê? Na palestina, o pau comendo solto, vai negociar com o Hammas?

    Tem razão Montaner: a fragilidade psicológica de Lula ele a compensa ilusoriamente com esse protagonismo desenfreado, entrentando a opinião da FAB, querendo perdoar Battisti.

    São sempre assuntos altamente polêmicos, que aumentam sua exposição.

    Agora, em Cuba, Israel, Honduras e talvez na palestina, a Betoneira parece estar dando sinais de falhas no freio.

    Ah, um comentário que não tem tanto a ver, a questão da internet. A FCC (Anatel americana) etá levando adiante um projeto de banda larga para cobrir o páis, torná-lo conectado, competitivo. E colocou no ar um programa que mede a velocidade real da conexão (nenhuma novidade, há vários por aí, mas está preocupada porque (como aqui) as firmas prometem tantos megas e entregam só metade, dependendo da hora do dia. A diferença é que o preço é bem menor e a velocidade, mais alta.

    Testei minha velocidade hoje, meio dia: 1,2 mega. Contratado: 4 megas. Registrei queixa no site da Anatel, que para os celulares, funciona. Em vez de oerder tempo ao telefone, sem reolver, basta pôr a queixa no site, vc se cadasra e fica lá seu histórico. Em caso de cobrança a maior, eles têm de restituir em dobro.

    Desculpem, saí do tema, falei demais, ou escrevi…

    Abraços.

  6. Geraldo Euclides disse:

    Na música: “Cálice” do Chico Buarque com ele e o Milton Nascimento tem uma fraze que diz: “quem é herói não foge da luta é melhor ser filho da Santa do que ser filho da outra(a censura aprovou!)O filme que fez a “biografia” do Lula [feito com dinheiro dos empresários que nunca ganharam tanto dinheiro como neste governo]qualquer diria que teria isso como sub-título não?

  7. Aparecida disse:

    Oposição?
    Que oposição? parece que todos tem medo do lula e dessa quadrilha que esta no poder, ou será que existem “mistérios” nessa relação?
    A propósito, a adoração desse governo pelas ditaduras, me causam medo e temo pela nossa frágil demogracia.
    Que Deus nos livre da sargentona botox.

  8. Sonia Constantino disse:

    Quem bom, não sou a única a ficar boquiaberta com as declarações surpreendentes de nosso presidente, resta para a sociedade nos perguntamos, quando vamos por um fim neste vexame público. O que mais dói é acompanhar os noticiários internacionais divulgando dia após dia tudo o que ele fala e faz.

  9. Elisabeth disse:

    Excelente matéria, clara, objetiva, sem rodeios. Parabéns

  10. Fernando L. Silva disse:

    Prezado Sr. Luiz Leitão

    Não entendemos essa fobia de que os brasileiros se inseridos no contexto global em igualdade aos demais seres humanos do planeta (ou: que os deuses de ouro se ofendam).
    Parece-nos que alguns preferem repetir sempre: _ Sim Boana! e ter uma segurança tutelada(Como sempre digo, o sonho do brasileiro pobre é ser rico e do brasileiro rico é ser norte americano ).
    De minha parte devo dizer-lhes que estou muito satisfeito com as colocações que o nosso Representante fez, porque foram Verdadeiras e sempre bailaram nos intelectos possuidores de alguma consciência.
    É essa verdade tão destoante, que pode solapar esse mundo de mentiras e omissões, geratriz de toda intolerância e ódio.
    Se fosse possível comparar os povos, colocaria eu o brasileiro entre os melhores e mais competentes (Inclusive para administrar conflitos). Pois sem pirataria, genocídios atômicos ou espionagem política e tecnológica e mesmo sob grande exploração, sonegação e evasão de divisas, conseguimos construir este pais.
    Retaliações comerciais serão administradas da mesma forma que a já pacifica exploração econômica imposta aos países do terceiro mundo.
    Temos muito para ensinar ao mundo.
    Quanto aos caças, como disse Apeles, não devemos ir além das sandálias.
    Abraço a Todos

  11. Luiz Leitão disse:

    Caro sr. Fernando,

    Certamente é bom o Brasil se projetar no cenário internacional, sempre de maneira pacífica, filosofia até do Exército Brasileiro e as demais duas Forças. Assim me disse um oficial, que o País só atua em ações de manutenção da paz e da ordem, caso do Haiti.

    Mas, se não nos metemos em assuntos como questões internas dos países, o que foi que fizemos em Honduras, ou Lula fazendo campanha eleitoral para Chávez.

    Não se meter é uma coisa, omitir-se, é bem diferente, como nas condenações ao Sudão, Mianmar e outros. Se não houver algum tipo de pressão internacional, o que será desses presos políticos, como a opositora birmanesa Aung Sang Sun Kyi, presa há anos, por opor-se pacificamente ao regime decrépito militar da junta que governa o país?

    O apoio declarado ao Irã, Coreia do Norte (embaixada lá para quê?) eu considero errado, mas acho acertada a posição brasileira que defende o fim do inútil embargo a Cuba.

    De modo que não são só críticas, mas faz parte do protocolo em Israel, por exemplo, depositar flores no túmulo de Theodor Hreszl, por orientação de M.A. Garcia, uma ofensa diplomática, retaliada por Avigdor Lieberman, que, goste-se dele ou não – e são escassos os motivos para isso – é o chanceler Israelense.

    Lula saiu-se mal dessa aventura, como considero que faz mal ao país cedendo tanto à Bolívia, Argentina, Paraguai, no âmbito comercial.

    O problema ali são os dois assessores do presidente Garcia e Amorim.

    Um abraço, tudo de bom.

  12. Antônio Gonçalves Caneiro disse:

    Uma análise corajosa da personalidade (?) de Lula, que outros não fazem para não se comprometer contra o oba-oba geral. Análise, aliás, comprovada pela desastrosa aventura pelo Oriente Médio, onde se intrometeu em algo que não entende, não tem influência e só serviu como boi das piranhas, para que Israel demonstrasse ao mundo o que pode fazer com quem apoia o Irã. Se vencer a eleição de outubro é de se esperar que seu caudilhismo o leve a delírios como os de Chávez, que pagaremos com o mesmo martírio que a população venezuelana está experimentando. Muito oportuna a continuação do artigo, entrando no registro de José Serra. Num país tão pouco democrático como o Brasil, com o povo usado da maneira mais deslavada pelos políticos que almejam o poder, José Serra é o duplo de Lula. Identidade de atitude: sempre falar o contrário do que pratica. Autoritário, elitista, escludente da população como prefeito e como governador, Serra, recentemente, tornou-se divulgador das qualidades da democracia, exaltando-a e ignorando o desprezo a ela que caracteriza sua atuação. Agora, na frase citada no artigo, faz tábua rasa do descumprimento de sentenças judiciais em precatórios sobre ilegalidades que o PSDB vem praticando desde Mário Covas, conscientemente, viciando os reajustes do funcionalismo com decisões sabidamente ilegais e passíveis de correção pela justiça, como o foram, porque jogadas para o futuro e preconcebidamente sem a intenção de pagá-las. “Pobres são os únicos que pagam em dia” é um escárnio contra credores do estado que ele se recusa a pagar, para usar o erário público em campanhas disfarçadas de órgãos que mantemos, como Metrô, CPTM, Sabesp, etc. Temos, então, uma culminância na vida política brasileira: a escamoteação da verdadeira democracia, providenciada pelos políticos em seu fazer cotidiano e continuado, nos conduziu a um beco sem saída: ambos os candidatos (Dilma, não há quem não saiba, vai ser apenas uma laranja de seu Putin pessoal) são absolutamente idênticos em personalidade (?) e conduzem o país na contramão de seus reais objetivos, o progresso da sociedade. Será que, ainda neste século, o Brasil se tornará uma democracia autêntica e não de fachada?

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